Morre Marjane Satrapi: conheça 4 livros que marcam o legado da autora

Escritora e artista era conhecida por defender os direitos das mulheres, principalmente no Irã

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
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A artista, escritora e ativista pelos direitos das mulheres franco-iraniana Marjane Satrapi morreu aos 56 anos. A notícia foi divulgada pelo Palácio do Eliseu nesta quinta-feira (4), em comunicado.

“Seu falecimento representa a perda de uma figura importante na cultura francesa e de uma artista profundamente comprometida com a liberdade, cujo trabalho carregava uma mensagem universal e lhe rendeu imenso reconhecimento internacional”, disse a nota.

A escritora ficou mundialmente conhecida pela obra autobiográfica "Persépolis", que narra sua infância em Teerã, no Irã, durante a Revolução Islâmica. Mas outras obras contemplam o trabalho e o legado de Marjane.

A seguir, relembre (ou conheça) quatro livros da escrita iraniana, que representam seu legado na defesa dos direitos das mulheres, principalmente no Irã.

Série "Persépolis"

"Persépolis" é uma história em quadrinhos, escrita e desenhada pela própria Marjane, que retrata desde sua infância até seus primeiros anos de vida adulta no Irã, durante e após a Revolução Islâmica. O título faz uma referência à antiga capital do Império Persa, Persépolis.

O primeiro livro da série foi escrito em 2000, originalmente em francês, e posteriormente foi traduzido para outros idiomas, incluindo português, italiano, grego, sueco, catalão e georgiano. Posteriormente, a autora publicou "Persépolis 2" (2004) e "Persépolis 3" (2006), que narram sua trajetória no exílio em Viana, na Áustria, durante a adolescência, e "Persépolis 4" (2007), que retrata o início de sua vida adulta de volta ao Irã.

No total, a série já vendeu mais de duas milhões de cópias em todo o mundo, e foi destaque na lista dos dez livros mais desafiadores da Associação Americana de Bibliotecas, em 2014. A obra "Persépolis Completo" une os quatro volumes da série.

O livro foi adaptado para o cinema em 2007, dirigido por Satrapi e Vincent Paronnaud, e ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2007, além de ter sido indicado ao Oscar.

"Frango com Ameixas"

Publicado em 2008, o livro "Frango com Ameixas" conta a história do tio de Marjane, Nasser Ali. A narrativa começa com uma tragédia pessoal: músico, o tio briga com sua mulher e, durante a discussão, a esposa destrói seu precioso tar, um instrumento de cordas da tradição persa. Nassar Ali sai, então, em busca de um novo instrumento, mas sente dificuldade de encontrar um que tenha o mesmo som daquele que herdara da juventude. A busca pelo novo tar o leva a conflitos com a família, com amigos e com sua própria identidade de artista.

"Bordados"

Publicado em 2010, o livro "Bordados" retrata as reuniões na casa da avó de Marjane, em Teerã. Os almoços em família sempre terminavam com os bordados, feitos pelas mulheres da família, enquanto os homens faziam a sesta. Porém, o livro também trata da designação de "bordado" como um termo para cirurgia de reconstituição do hímen, uma decisão pragmática para as mulheres que não abrem mão de ter vida sexual antes do casamento, mas que precisam corresponder às imposições conservadoras e moralistas da cultura iraniana.

"Mulher, vida, liberdade"

Publicado em 2024, o livro "Mulher, vida, liberdade" marca o retorno de Marjane aos quadrinhos depois de 14 anos. A obra reúne uma série de artistas e especialistas para narrar os detalhes da morte de Mahsa Amini, estudante iraniana de vinte e dois anos, que foi detida e espancada até à morte pela polícia religiosa em Teerã em setembro de 2022.

O livro conta com textos de Farid Vahid, cientista político da Fundação Jean-Jaurès; de Jean-Pierre Perrin, correspondente internacional do jornal Libération; e do professor Abbas Milani, historiador e diretor do departamento de Estudos Iranianos da Universidade Stanford, além da arte de dezessete quadrinistas iranianos, europeus e americanos — entre eles Bahareh Akrami, Paco Roca, Winshluss e a própria Satrapi.

Quem foi Marjane Satrapi?

Marjane Satrapi nasceu em Rasht, no Irã, em 1969, mas passou a infância em Teerã, onde estudou em um liceu francês. Sua educação foi marcada pela tradição da cultura persa com os valores ocidentais e da esquerda. Aos 14 anos, exilou-se em Viena, na Áustria, junto com sua mãe, conforme narrado em "Persépolis", retornando ao Irã para estudar belas-artes. Mais tarde, Marjane se estabeleceu na França, onde publicou seus livros.

Satrapi era uma crítica ferrenha do regime iraniano e uma importante apoiadora do movimento "Mulher, Vida, Liberdade", que surgiu após a morte de Mahsa Amini, que tinha 22 anos, sob custódia policial em 2022.

A Fundação Narges, organização iraniana de defesa dos direitos humanos das mulheres, descreveu a ativista como "uma defensora destemida do feminismo e dos direitos das mulheres".

*Com informações de Mustafa Qadri e Elina Baudier Kim, da CNN