Netflix perde recurso e deve responder por difamação em “O Gambito da Rainha”

Após alegar liberdade de expressão, serviço de streaming está cada mais perto de pagar indenização à enxadrista Nona Gaprindashvili - ela pede mais de R$ 25 milhões por citação em minissérie

Anya-Taylor Joy em 'O Gambito da Rainha'
Anya-Taylor Joy em 'O Gambito da Rainha' Divulgação

Luis Felipe Abreucolaboração para a CNN

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Nessa quinta-feira (27), um tribunal dos EUA decidiu que a Netflix deve responder a um processo por difamação, movido pela enxadrista Nona Gaprindashvili, por conta da série “O Gambito da Rainha”.

A ação foi movida por Nona em setembro do ano passado, e pede mais de R$ 25 milhões em reparações. A reclamação da georgiana refere-se a uma cena no último episódio da série, que acompanha a carreira da enxadrista fenômeno Beth Harmon. Apesar de ser uma obra de ficção, “O Gambito da Rainha” faz algumas menções a figuras reais do jogo.

No seu capítulo final, Harmon participa de uma competição na União Soviética, e podemos ouvir os comentários do torneio falarem: “A única coisa incomum em Harmon é seu gênero. E mesmo isso não é novidade para os russos. Há Nona Gaprindashvili, mas ela é campeã feminina e nunca enfrentou homens.”

Nona, primeira mulher a conquistar o título de Grande Mestre do Xadrex, em 1978, se contrariou com menção, considerando-a demeritória e falsa. “Durante a carreira de Nona, ela enfrentou muito preconceito por seu gênero, e por vezes era a única mulher competindo contra homens”, afirmaram seus advogados no processo aberto por difamação. O documento ainda demonstra que, até 1968, ano em que se passa a cena de “O Gambito da Rainha”, Nona já havia enfrentado 59 adversários masculinos em partidas oficiais.

Nona Gaprindashvili quer cerca de R$ 25 milhões de indenização/ Irakli Gedenidze/Reuters

Ainda em 2021, a Netflix entrou com um recurso, pedindo o arquivamento do caso, com base no princípio da liberdade de expressão. A plataforma lembrou ainda que a série é um texto de ficção, sem compromisso com a realidade. Nesta semana, porém uma corte estadunidense desconsiderou o pedido de suspensão.

“O fato da série ser uma obra ficcional não isola a Netflix das responsabilidades da difamação se elementos difamatórios estiverem presentes nela”, decidiu a juíza Virginia A. Phillips. Agora, a Netflix deve preparar uma defesa, explicando o porquê da menção – e do erro factual – a Nona Gaprindashvili.

“O Gambito da Rainha” estreou na plataforma em outubro de 2020. Baseada no romance homônimo de Walter Tevis, de 1983, se destacou por abordar o xadrez e ter como protagonista uma mulher que ascende em um meio masculino e intimidador. A obra ganhou, em 2021, o Emmy e o Globo de Ouro de Melhor Série Limitada.

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