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Novela vertical: entenda o novo formato que traz Jade Picon como vilã

Recentemente, a TV Globo anunciou a produção de duas produções com a dinâmica que virou febre mundial

Caroline Ferreira, da CNN Brasil
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Para quem é usuário assíduo das redes sociais, é bem provável que, em algum momento, tenha sido impactado por um vídeo curto - seja no TikTok ou no Instagram - que apresentava uma espécie de novela, mas sem relação alguma com as emissoras tradicionais como TV Globo, Record ou SBT. O trecho, na verdade, tratava-se do capítulo inteiro de uma trama que a indústria vem chamando de novela vertical.

À CNN, Renan Claudino Villalon, professor de Comunicação e Artes e pesquisador da Rebe Obitel Brasil, que investiga as particularidades da teledramaturgia brasileira, explica que o termo trata-se de uma novela pensada para a razão de aspecto (formato da tela) própria para celulares e tablets, ou seja, 9:16, com episódios breves (entre 1 e 3 minutos por capítulo) e roteiro que tende a começar com alto clímax e encerrar noutro clímax narrativo.

"Clímax é, em roteiro, um ponto alto na curva dramática da história contada que pressupõe causar ápices de emoção entre os sentimentos e situações trabalhadas na trama", diz.

 

Mas afinal, o que muda na dinâmica vertical em relação às tradicionais?

De acordo com Renan, esse formato de tela - não televisivo - implica numa drástica mudança em termos de direção de arte, que contribui para assinatura da mise-en-scène (composição do quadro audiovisual) do diretor a partir da cenografia, produção de objetos, figurino e maquiagem.

"Com um espaço de trabalho essencialmente reduzido e, digamos, mais achatado, a mise-en-scène pode ser muito comprometida se o diretor não souber como trabalhar, mas há ganhos e perdas sobre isso. As perdas são para a cenografia, tendo em vista que o espaço cenográfico sempre foi um dos principais chamarizes das telenovelas, com planos de câmera e fotografias que trazem vislumbre à ambientação trabalhada pela equipe artística", comenta.

Já a cenografia fica comprometida considerando que a experiência de contato com o espaço cênico é praticamente impensável quando se tem um personagem em quadro.

"Os ganhos artísticos ficam para a caracterização dos atores em personagens, já que o formato favorece o figurino e principalmente a maquiagem. Os detalhes do rosto e os penteados também são largamente explorados na linguagem das redes sociais pelos celulares, pensando aqui nas selfs, por exemplo", acrescenta.

"Creio que a maior mudança é de fato no roteiro. Embora os ganchos narrativos são estratégias há muito tempo usadas nas telenovelas para manter a atenção do público entre comerciais e nos encerramentos de capítulos televisivos, nos microdramas novelísticos de agora eles tendem a já pressupor um início com alto clímax para encerrar em alto clímax, e isso pode acarretar num característico sensacionalismo ou mesmo numa espetacularização ainda mais caricata e estereotipada de personagens e suas tramas", conta.

O enredo terá uma tendência muito maior em ser caricato e essencialmente estereotipado
Renan Claudino Villalon

Para o professor, o enredo também terá uma tendência maior em ser caricato e estereotipado, não só pela ausência de um tempo narrativo mais largo, mas porque o público ansioso das redes sociais busca por clímax rápidos e fáceis, afinal, a ideia é que uma parcela considerável assista às novelas verticais enquanto estiverem em seus transportes públicos, espaço este que, invariavelmente, provoca muito mais distrações do que a possibilidade de um foco de atenção.

"Se as telenovelas já são transmitidas em dispositivos que acompanham a realidade cotidiana de uma casa (na sala, cozinha ou quarto), agora o dispositivo pode percorrer o seu dia inteiro, a agitação total das nossas vidas. O dispositivo acaba tendo que se adequar à vida corriqueira, e assim, o enredo (com altos clímax, trilha sonora emotiva e pontual, em meio a uma história mais simples e direta) certamente é comprometido", entrega.

O sucesso das novelas verticais

Muito antes da TV Globo apostar em microdramas voltados ao consumo em dispositivos móveis, o sucesso já era cravado a partir de experiências internacionais. Na China, por exemplo, o formato se destacou desde 2018, ganhando força durante a pandemia de Covid-19.

"As tramas podem não ter um foco em situações e conflitos com profundidade reflexiva, mas sim uma superfície em meio a uma estética agradável que pode atrair primacialmente o público de classe média e classe baixa, com pouco tempo de lazer. Ao mesmo tempo, cada vez mais temos uma geração imersa nas redes sociais que promove ansiedade e impaciência para resoluções complexas ou reflexões profundas, o que gera mais um fator de interesse no formato e na sua transmissão via streaming próprio para smartphones", reflete.

Para o pesquisador, a emissora carioca que recentemente anunciou "Tudo Por Uma Segunda Chance", com Jade Picon no papel de vilã, e "Cinderela e o Pobre Milionário", protagonizada por Gustavo Mioto, utilizou, utiliza e utilizará as novelas - em ambos formatos - como forma de contato com as diferentes classes sociais brasileiras, logo as tendências, quando começam a se consolidar, serão absorvidas se consagrando como um ponto de convergência midiático.

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"No geral, tendo um forte apelo ao público que virtualiza a sua vida (seja em posts, em comunicação com outras pessoas ou apenas rolando o feed), é nítido que a emissora deve ter esperado apenas a repercussão para saber se faria sentido o investimento, resta saber se haverá também experiências transmidiáticas como as referentes à personagem Maria de Fátima (Bella Campos), no remake de "Vale Tudo", assinado por Manuela Dias, já que havia certa crítica social sobre a sempre possível futilidade dos influenciadores digitais em contraste com suas vidas pessoais", diz.

Renan diz ainda que esses investimentos podem trazer novas gerações, no entanto, a questão fundamental é entender se o formato desses microdramas conseguirão se manter num alto consumo.

"Até mesmo porque a efemeridade das midiatizações atuais pode vir a ser um fator de risco na produção a longo prazo, pois se a fragmentação de conteúdo continuar cada vez mais presente, é sensível compreendermos que as narrativas de 1 a 3 minutos se tornem também, para públicos futuros, cansativa, entediante e desinteressante", conclui.

 

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