Oscar: China censura e não comemora vitória de Chloe Zhao

Cerimônia não foi transmitida por nenhuma emissora chinesa; nacionalistas pedem boicote ao filme e acusam a diretora de difamar o país

A cineasta Chloe Zhao posa com estatuetas do Oscar, em Los Angeles (25 de abril de 2021)
A cineasta Chloe Zhao posa com estatuetas do Oscar, em Los Angeles (25 de abril de 2021) Foto: Chris Pizzello/Pool/Reuters

Nectar Gan e Jessie Yeung, CNN

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O Oscar deste ano poderia ter sido um grande momento de orgulho para a China. Chloe Zhao, uma cineasta nascida em Pequim, fez história neste domingo (25) ao ganhar a estatueta de melhor diretora por seu filme “Nomadland”, tornando-se a primeira mulher asiática e a segunda mulher a ganhar na categoria.

O filme de Zhao também venceu como melhor filme. Mas a China não está comemorando, pelo menos não oficialmente.

Pelo contrário, o Oscar deste ano não foi transmitido em nenhum lugar da China – inclusive em duas grandes plataformas de streaming, onde a cerimônia anual havia sido exibida ao vivo em anos anteriores. 

Em Hong Kong, uma emissora importante optou por não exibir o Oscar pela primeira vez em mais de meio século.

Mesmo com a vitória de Zhao nas manchetes em todo o mundo, a mídia estatal chinesa permaneceu visivelmente silenciosa. Horas após o anúncio, nenhum relato de sua vitória foi encontrado nos sites da agência de notícias estatal Xinhua ou da emissora estatal CCTV. Postagens em redes sociais compartilhando a notícia de sua vitória também foram censuradas.

O silêncio oficial contrasta com março, quando Zhao ganhou o prêmio de melhor diretora no Globo de Ouro. Naquela época, a mídia estatal chinesa foi rápida em parabenizar Zhao, com o tabloide nacionalista Global Times chamando-a de “o orgulho da China”.

Mas os elogios a Zhao não duraram muito. Os internautas chineses descobriram uma entrevista de 2013 que ela deu à revista americana Filmmaker – na entrevista, ela criticou a China de sua infância como um lugar “onde há mentiras por toda parte”. 

Em outra entrevista mais recente à mídia australiana, Zhao foi citada como tendo dito que os Estados Unidos “agora são meu país, no final das contas”. O site posteriormente esclareceu que a fala de Zhao havia sido transcrita incorretamente e o que ela realmente disse foi que os EUA “não são meu país”.

Mas o dano foi feito. Os nacionalistas online da China correram para atacar Zhao, acusando-a de “difamar a China”. Alguns até pediram um boicote ao filme.

Em pouco tempo, os materiais promocionais de “Nomadland” de Zhao desapareceram do site de mídia social Weibo, a plataforma chinesa semelhante ao Twitter. 

O filme, originalmente programado para ser lançado na China em 23 de abril, também foi removido dos principais sites de cinema do país. Não há indicação de que “Nomadland” chegará aos cinemas chineses tão cedo.

A rápida rejeição de Zhao é o mais recente sinal de quão difundido o sentimento nacionalista da China se tornou sob o presidente Xi Jinping. Zhao não fala criticamente da China desde que alcançou a fama, mas parece que um único comentário feito há oito anos foi suficiente para destruir sua imagem – e interromper o lançamento de seu filme.

Além disso, aos olhos do governante Partido Comunista da China, a criação comparativamente privilegiada de Zhao e a educação ocidental podem não torná-la a candidata ideal a ser considerada uma história de sucesso chinesa.

Zhao frequentou escolas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, antes de finalmente se matricular na escola de cinema da Universidade de Nova York – uma experiência fora do alcance da maioria dos chineses.

Além da reação nacionalista contra Zhao, o Oscar deste ano também é um espinho político para o governo chinês por outro motivo – “Do Not Split”, um filme de 35 minutos que narra os protestos pró-democracia de Hong Kong em 2019, foi nomeado para melhor curta documentário (acabou não ganhando).

Chloé Zhao, diretora de "Nomadland"
Chloé Zhao, diretora de “Nomadland”
Foto: Divulgação

Ainda é cedo para afirmar se a indicação do filme contribuiu para minimizar a repercussão do Oscar na China. Mas, com o início da cerimônia em Los Angeles, no Weibo – um dos sites de mídia social mais populares da China – o evento nem chegou aos 50 trending topics do dia. Isso apesar da indicação do filme chinês “Melhores Dias” para melhor longa internacional. 

O romance policial de jovens adultos foi um sucesso estrondoso na China e é o primeiro filme chinês a ser indicado nessa categoria em quase duas décadas.

Críticas aos ataques e parabéns à Zhao

Mas na China, Zhao ainda tem sua parcela de apoiadores. Como a notícia de sua vitória foi compartilhada por contas não oficiais no Weibo, muitos usuários deixaram comentários parabenizando a diretora e criticando o ataque nacionalista contra ela. Mas a censura logo começou e as postagens desapareceram em poucas horas.

Uma das postagens populares apagadas do Weibo foi um vídeo do discurso de agradecimento de Zhao na cerimônia, no qual ela falou com orgulho de suas raízes chinesas.

Zhao disse que costumava recitar poemas e textos clássicos chineses com seu pai, e uma linha em particular de “Os Clássicos dos Três Personagens” – “Pessoas no nascimento são inerentemente boas” – a ajudou a continuar quando as coisas ficaram difíceis.

“Essas seis cartas tiveram um grande impacto em mim quando eu era criança, e eu ainda acredito realmente nelas hoje. Embora às vezes possa parecer o contrário, sempre encontrei bondade nas pessoas que conheci, em todos os lugares que fui no mundo “, disse ela.

(Esse texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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