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    “Paloma” traz história de amor de mulher trans que quer casar na Igreja

    Para o diretor Marcelo Gomes e a atriz Kika Sena, o filme é sobre legitimização de suas vontades, por mais ambíguas que sejam

    "Paloma", que estreou nos cinemas nesta quinta (10)
    "Paloma", que estreou nos cinemas nesta quinta (10) Divulgação

    Isabella Fariada CNN

    São Paulo

    Dez anos atrás, o diretor Marcelo Gomes leu a história de Paloma. Uma mulher trans que queria casar na Igreja, de véu e grinalda e isso promovia a ira de uma pequena cidade.

    “Eu fiquei muito emocionado, essa história traz tantas contradições, fala sobre amor, ódio, preconceito, mas fala, antes de tudo, de afeto”, diz.

    No agreste nordestino, a Paloma cinematográfica colhe mamões, tem uma família, amigas e a sua fé. Ela faz suas orações toda as noites e sonha em se casar de vestido branco, segundo a tradição católica.

    Durante todo o filme, acompanhamos a jornada da personagem em busca do seu conto de fadas (até carta para o Vaticano ela manda) e, mais importante, acompanhamos a busca de Paloma pelo amor que ela ainda não sabe que merece.

    Não se trata de uma personagem resumida ao seu gênero, ela não é digna de piedade ou idolatria por ser uma mulher trans. Paloma é complexa, comete erros, é ingênua e se aproxima do público justamente por isso. Ela se parece com uma amiga querida, uma confidente que todos gostariam de ter.

    E, claro, talvez o aspecto mais complexo da sua personalidade seja sua crença. Realizar um desejo tão hetero-normativo parece contraditório para uma mulher trans, desertada, inclusive, pela religião que segue.

    “Todo mundo quer ser legitimado. Quando a gente faz um procedimento estético, se maquia, se depila… isso é legitimação”, diz Kika Sena, “por que uma travesti preta do sertão nordestino não pode ser legitimada, simplesmente, porque quer casar na Igreja?”

    Em sua estreia no cinema, Kika Sena encarna uma Paloma perfeita, mas que demorou a baixar na atriz. Kika não entendia as escolhas de Paloma, até que começou a relacionar a personagem a sua própria mãe, uma mulher preta, analfabeta e mãe-solo.

    “Ela sempre era julgada pela sociedade por ser sozinha, então minha mãe procurava relacionamentos para se afirmar perante às pessoas”, diz, “eu acolhi minha mãe, então, acolhi Paloma”.

    No filme, a personagem também é acolhida, através de três pilares principais: sua filha e sua ex-mulher, suas amigas do trabalho e suas amigas do bar. Toda essa rede de afeto traz força para Paloma, incentiva seus sonhos, mas não consegue protegê-la de tudo. As violências do filme são, em sua maioria, veladas e, literalmente, desfocadas, graças à bela fotografia de Pierre de Kerchove.

    “A violência vem, e a gente não revela o antagonista”, diz Marcelo, “deixamos ele fora de foco de propósito, porque o que importa nesse filme é a força do afeto”.

    Representatividade trans

    No país que mais mata travestis e transsexuais no mundo, “Paloma” se revela como um posicionamento político, pela história e pela produção.

    “Temos tantas atrizes trans maravilhosas por aí, como eu poderia contar uma história sobre elas e não convidá-las?”, diz Marcelo.

    Segundo o diretor, apesar das atrizes viverem vidas diferentes daquelas que interpretaram no longa, todas trouxeram memórias afetivas que o ajudaram a construir as personagens.

    “Dar visibilidade é a forma de destruir preconceitos”, diz, “contar a história da Paloma é uma forma de dizer que a gente precisa construir uma sociedade mais humana”.

    Passando pelo Festival do Rio, o filme ganhou melhor ficção e melhor atriz, foi a primeira vez que uma mulher trans conseguiu o prêmio. Para Kika Sena, isso significa abrir cada vez mais caminhos no cinema para a representatividade, arriscando interpretar, inclusive, mulheres cis.

    “Se nós já fomos interpretadas tantas vezes por pessoas não-trans, por que o contrário não pode acontecer?”, ela questiona.

    Fato é que o espaço que se amplia cada vez mais no audiovisual para atores LGBTQIA+ não veio de mão beijada. Kika Sena agradece a cada travesti que, lá trás, lutou pelos seus direitos.

    “As travestis estavam lá, reivindicando seus espaços, reivindicando políticas públicas”, diz, “agora, elas devem estar muito felizes com a gente tomando lugares de protagonismo, a poeira delas deve estar brilhando no mar da eternidade”.

    “Paloma” estreou no circuito nacional de cinema na quinta-feira (10).