'Me perseguiram por vingança. O Bill Clinton é vingativo', diz Ricardo Teixeira


Da CNN Brasil, em São Paulo
14 de março de 2020 às 10:16 | Atualizado 15 de março de 2020 às 17:55

O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Ricardo Teixeira, que comandou com mãos de ferro o futebol brasileiro, circulou nos bastidores do poder, lidou com presidentes, foi adulado por grandes empresários do Brasil e do mundo, está agora com aparência frágil. Mas a língua continua afiada.

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, o cartola diz ter sido alvo de retaliação do Departamento de Justiça do governo norte-americano por ter apoiado, em 2010, a candidatura do Qatar à Copa de 2022 em detrimento dos Estados Unidos.

“Eu matei a Copa do Bill Clinton. E eles sabem disso”, diz. “É vingança e todo mundo diz que o Clinton é muito vingativo.” O ex-presidente norte-americano era diretor honorário da campanha para os EUA sediarem a Copa de 2022. 

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Ele também diz ter sido ameaçado pelo ex-presidente da Fifa Joseph Blatter a votar pelos Estados Unidos. Na ocasião, segundo relato do ex-presidente da CBF, o ex-chefe máximo do futebol teria dito: “Acho que você deve ficar atento, porque você tem propriedade nos EUA, sua filha está estudando lá. Você devia ter cuidado. Como é que você vai votar no Qatar? O que que tem o Qatar a ver com você?”.

“Eu considerei isso como ameaça. Não falei nada, ia falar o quê? Olhei com olhar de cascavel para ele e fui lá votar no Qatar”, diz Teixeira.

Suspeitas de corrupção

Os problemas do ex-presidente da CBF com a Justiça norte-americana vieram à tona em 2015, quando procuradores federais denunciaram 42 pessoas e empresas por participação em um esquema de suborno na Fifa que teria movimentado mais de US$ 150 milhões -- escândalo conhecido como "Fifagate".

Por causa da denúncia, no ano passado, Ricardo Teixeira foi banido do futebol pela Fifa. A entidade ainda o obrigou a pagar multa de 1 milhão de francos suíços -- o equivalente a R$ 4,2 milhões na época. O ex-cartola diz que tudo não passa de perseguição e nega ter recebido dinheiro de autoridades do Qatar para votar pela candidatura do emirado.

“Da minha parte, não (foi oferecido dinheiro). Especificamente da América do Sul não pagou um tostão”, afirma. “A Bélgica ofereceu dinheiro na televisão quando esteve no Brasil. A Coreia do Sul escreveu para nós dizendo que mandaria US$ 100 mil para cada federação votar neles.”

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Teixeira atribui o pagamento de hotéis milionários e voos privados feito por autoridades do Qatar a ele a uma praxe destinada entre presidentes de federações. “Todo e qualquer presidente de federação, quando vai jogar em outro país, tem a obrigação de dar hotel cinco estrelas para o presidente e para o chefe de delegação”, diz. “Tem que dar um quarto para cada membro da comissão. É isso.”

Um relatório da Fifa de 2017, no entanto, indica que Teixeira e o ex-presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) Julio Grondona, morto em 2014, receberam US$ 7 milhões do Qatar, contabilizados como pagamentos para realização de amistosos entre Brasil e Argentina no país.

Essas transações, ainda de acordo com a Fifa, foram intermediadas pelo ex-presidente do Barcelona e ex-executivo da Nike Sandro Rossell, também envolvido em suspeitas de corrupção no futebol brasileiro.

O ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, em entrevista à CNN Brasil

O ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, em entrevista à CNN Brasil

Foto: Reprodução/CNN Brasil

Monitorado pelo FBI

Em 2012, três anos antes do final de seu mandato -- e com a candidatura do Qatar já sob suspeita --, Teixeira se afastou da CBF para tratar de problemas de saúde. Foi morar nos Estados Unidos, onde passou por um transplante de rim, que o debilitou.

Nos Estados Unidos vivia outro empresário de quem Teixeira já foi aliado: J. Hawilla, responsável por intermediar negociações de transmissão de direitos de jogos no Brasil e na América do Sul. 

Em 2013, Hawilla passou a colaborar com o FBI, e disse aos investigadores americanos que pagou US$ 10 milhões em propina ao então presidente da CBF. Em troca, a Seleção Brasileira sempre disputaria a Copa América com seus principais jogadores.

A defesa de Teixeira admite que existiu esse acordo, mas disse que tudo foi feito às claras, via contrato, e que o dinheiro foi pago à CBF. 

Em 2014, já depois de ter sido delatado, Teixeira se encontrou com J. Hawilla em um restaurante, em Miami.

“Eu tinha certeza absoluta que ele me vinha com alguma cafajestada, como veio. Eu tenho 72 anos, já tinha 65 ou 66, não posso ser tão burro, né?”, conta.

Teixeira tem certeza de que, naquele dia, J. Hawilla estava tentando gravá-lo, e de que os garçons eram, na verdade, agentes do FBI disfarçados.

“Eles botaram sete caras do FBI para me gravar com ele falando negócio de agência, de dinheiro”, afirma. “Cadê essa gravação? No mínimo, é o que estou dizendo, são incompetentes.”

'Saudades de Paris'

Por causa das descobertas do FBI e também com base na delação de J. Hawilla, Ricardo Teixeira teve um mandado de prisão expedido. Desde 2015, ele não pode viajar para países que tenham acordo de extradição com os EUA. 

Ele diz não ter saudades dos Estados Unidos: “Zero. Saudade eu tenho de Paris.”

Ricardo Teixeira

Ricardo Teixeira no dia de sua posse como presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)(16.jan.1989)

Foto: JOSIAS BARROSO / Estadão