Thierry Henry deixa redes sociais para protestar contra racismo e gera debates

Ex-jogador francês expressou insatisfação com a morosidade das redes sociais em coibir insultos racistas

Adalberto Leister Filho, da CNN, em São Paulo
26 de março de 2021 às 21:47
O ex-jogador francês Thierry Henry
O ex-jogador francês Thierry Henry
Foto: Brad Smith/Getty Images

O ex-jogador francês Thierry Henry, de 43 anos, decidiu cancelar todas suas contas nas redes sociais em protesto contra a falta de iniciativa dos administradores dessas plataformas para combater o racismo.

Henry, que atualmente é treinador, expressou sua insatisfação pública com a morosidade das redes sociais em coibir insultos racistas e a facilidade que os infratores têm de se manifestar publicamente, conservando o anonimato.

“Oi pessoal, a partir de amanhã de manhã (sábado), irei me retirar das redes sociais até que as pessoas no poder sejam capazes de regular suas plataformas com o mesmo vigor e ferocidade com que fazem atualmente quando você infringe direitos autorais”, afirmou o ex-atacante, em sua conta no Twitter.

“O grande volume de racismo, intimidação e consequente tortura mental para os indivíduos é muito tóxico para ser ignorado. Tem que haver alguma responsabilidade. É muito fácil criar uma conta, usá-la para intimidar e assediar sem sofrer consequências e ainda permanecer anônimo. Até que isso mude, desabilitarei minhas contas em todas as plataformas sociais. Espero que isso aconteça em breve (mudanças nas redes sociais)”, acrescentou.

Para Marcel Diego Tonini, doutor em História Social pela USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador sobre racismo no futebol, a iniciativa de Henry pode render frutos.

“É uma maneira de chamar a atenção da sociedade para mostrar que essas empresas não têm feito nada para coibir que usuários parem de usar suas plataformas digitais para discriminar pessoas. Se Twitter, Facebook, Instagram e Youtube, entre outras redes sociais, começarem a perder usuários, eles irão se mexer. Então, é preciso fazer algo para que essas empresas comecem de fato a se preocupar com isso”, afirmou o pesquisador.

Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, a saída de Henry das redes sociais pode ter um lado negativo e outro positivo.

“É uma pena porque isso é uma vitória dos racistas, dos preconceituosos. Mas talvez, a partir daí, as redes sociais passem a adotar outro padrão de comportamento. E se outras personalidades negras aderirem à campanha dele, vai ser um choque muito grande para as redes sociais”, afirmou Carvalho, que vê pouca iniciativa dos responsáveis pelas plataformas sociais em coibir manifestações racistas.

“As redes sociais precisam investigar mais para identificar o verdadeiro dono do perfil para que ele sofra sanções”, completou.

Tonini acredita que as redes sociais poderiam tomar iniciativas mais efetivas para combater o racismo virtual.

“Em primeiro lugar, é preciso um cadastro que evite o anonimato. É preciso associar contas que identifiquem o usuário. Em segundo, cada usuário poderia ter um histórico facilmente registrado e de difícil exclusão de posts para fins de comprovação de ilicitudes. Isso possibilitaria, em terceiro, que, em caso de crimes virtuais, a polícia tenha acesso rápido a todo um conjunto de mensagens e conversas virtuais”, sugere.

Para ele, as próprias plataformas virtuais deveriam excluir essas contas de maneira mais rápida, evitando propagação de discurso de ódio. “Caso contrário, elas próprias são corresponsáveis pela propagação do racismo, da xenofobia, da transfobia, do machismo etc.”, afirma Tonini.

Com iniciativa incomum no universo do futebol, Henry mantém grande popularidade nas redes sociais, mesmo tendo parado de jogar há nove anos. Ele conta com mais de 10 milhões de seguidores no Facebook, 2,3 milhões no Twitter e 2,7 milhões no Instagram.

O ex-atacante é conhecido por ter sido o carrasco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha. Henry fez o gol que eliminou o Brasil nas quartas de final da competição. A França seria derrotada pela Itália na final.

Em clubes, o atacante passou por Mônaco, Juventus, Barcelona e Red Bull Nova York, mas sua melhor fase foi com a camisa do Arsenal, time que defendeu entre 1999 e 2007 e em 2012 e pelo qual marcou 175 gols em 258 jogos.

Como técnico, começou nas categorias de base do Arsenal. Foi auxiliar de Roberto Martínez na seleção belga, tendo ocupado o posto inclusive na Copa de 2018, quando a equipe eliminou o Brasil nas quartas de final com vitória por 2 a 1. Passou posteriormente por Monaco e Montreal Impact, time canadense que disputa a MLS (Major League Soccer), principal liga de futebol dos Estados Unidos.