Pesquisadores da Fiocruz falam em decisão inaceitável sobre Copa América no país

Pesquisadores salientaram a preocupação de que a decisão, chancelada pelo governo federal, pode passar uma mensagem errada à população

Iuri Corsini, da CNN, no Rio de Janeiro
31 de maio de 2021 às 23:10 | Atualizado 01 de junho de 2021 às 10:50
Cerimônia realizada pela Conmebol.(3/12/2019)
Competição trocou de sedes e agora será realizada no Brasil
Foto: Luisa Gonzalez/Reuters

Pesquisadores da Fiocruz ouvidos pela CNN disseram ser incompreensível a decisão de realizar a Copa América no Brasil, em meio a uma “situação extremamente dramática” que o país está passando em relação à pandemia. Os pesquisadores salientaram a preocupação de que a decisão, chancelada pelo governo federal, pode passar uma mensagem errada à população no sentido de mascarar a gravidade do momento atual. 

Além disso, os pesquisadores ouvidos reforçaram que os indicadores da pandemia não são bons, inclusive com indícios de crescimento de novos casos semanais. 

“Temos alertado há várias semanas que não estamos conseguindo manter a redução dos casos até um patamar aceitável. Pelo contrário, nas últimas semanas estamos observando uma retomada de crescimento de novos casos semanais. Já estávamos numa situação extremamente delicada, essa situação se agravou nesta última semana e aí somos recebidos com a notícia de que o Brasil vai sediar a Copa América. Não faz o menor sentido, é incompreensível”, afirmou o pesquisador Marcelo Gomes, que coordena o portal InfoGripe, da Fiocruz.

Marcelo afirmou que o que o país precisa agora é de um engajamento massivo por parte das autoridades, gestores públicos e privados e da população, no sentido de “interromper o quanto antes esse sinal de crescimento”, para que seja atingido, de fato, um patamar seguro de redução de casos semanais. 

“Estamos numa situação extremamente dramática. Essa decisão tem um potencial de ser fortemente danosa para o país, por passar uma mensagem equivocada para a população. Isso pode trazer um prejuízo em relação a percepção dos riscos que enfrentamos e o que precisa ser feito para evitar um cenário ainda pior do que o cenário atual”, completou.

Mensagem preocupante

O infectologista da Fiocruz Julio Croda seguiu na mesma linha e também se mostrou preocupado com a mensagem que será passada para a população. Croda foi sucinto em sua crítica e classificou como “um absurdo” a ideia de o Brasil ser o anfitrião da competição continental.  

Diego Xavier, outro pesquisador da Fiocruz, classificou como “inaceitável” a Copa América ser jogada no país. Segundo ele, o Brasil está indo na contramão do restante do mundo e colocando sua população ainda mais em risco. 

“O Brasil apresenta uma situação pior do que Argentina e Colômbia e mesmo assim se dispõe a trazer um evento desse porte, que vai gerar deslocamento de pessoas, inclusive de outros países. Ainda mais num momento em que há novas variantes em circulação por aqui. Não temos infraestrutura disponível para atender casos graves, ainda estamos num nível muito alto de contágio e de ocupação de leitos de UTI. É uma decisão totalmente equivocada”, criticou. 

O pesquisador ainda afirmou que o evento não trará nenhum benefício ao país, nem mesmo esportivo. Pelo contrário, “sinaliza para o mundo que o Brasil não se importa com a gravidade do problema de saúde pública que tem sido enfrentado desde o ano passado, mesmo que o evento traga aumento no número de casos e até mesmo de óbitos”. 

Troca de sede

Conmebol confirmou o Brasil como sede da Copa América nesta segunda-feira. O torneio deve começar no próximo dia 13 e terminar em 10 de julho. O país foi escolhido no lugar da Argentina e da Colômbia.

A Copa América foi cancelada na Colômbia por causa de protestos e, na Argentina, por causa da pandemia

O ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, disse nesta segunda-feira (31) que não há "nada certo" sobre a confirmação da Conmebol de que o país receberá o torneio.