Olimpíada começa em Fukushima com volta do softbol e rivalidade Japão x EUA

A escolha da cidade para o primeiro evento dos Jogos é estratégica, como forma de simbolizar uma retomada da região destruída em 2011

Paulo Junior, colaboração para a CNN
20 de julho de 2021 às 12:01 | Atualizado 20 de julho de 2021 às 12:55
O estádio Fukushima Azuma, palco de estreia das Olimpíadas de Tóquio
O estádio Fukushima Azuma, palco de estreia das Olimpíadas de Tóquio
Foto: Yuichi Masuda/Getty Images

Quando a cidade de Tóquio foi escolhida para ser sede desta edição dos Jogos Olímpicos, em setembro de 2013, o terremoto, o tsunami e o acidente nuclear que devastaram Fukushima dois anos e meio antes estavam frescos na memória.

Agora, uma década depois, a primeira disputa do evento, marcada para a noite desta terça-feira (21h, horário de Brasília) e ainda anterior à abertura oficial, é o encontro de um esporte vitorioso para o país com o lugar marcado por uma das maiores tragédias da história japonesa.

O estádio Fukushima Azuma foi escolhido para receber algumas partidas do início das agendas do beisebol (disputa apenas masculina) e do softbol (jogo muito semelhante, de competição olímpica apenas feminina), entre elas a estreia das japonesas contra a Austrália no jogo que inaugura esta Olimpíada e marca o retorno dessas modalidades depois de duas edições ausentes.

A escolha pela localidade é estratégica, como forma de simbolizar uma retomada da região destruída em 2011. O parque esportivo fica a cerca de 70 km da central nuclear, e tem níveis de radioatividade considerados seguros para a presença humana. No caminho rumo ao litoral, em direção à usina, surge a área que até hoje tem espaços inabitados por conta do risco radioativo e também pelo vazio econômico que o acidente deixou para atividades locais – muitas famílias viviam da pesca antes do mar ser contaminado, por exemplo.

"Softbol e Fukushima é a melhor combinação para começar os Jogos que têm como tema a recuperação. Não só se referindo aos sobreviventes e as áreas do desastre de 2011, mas como uma palavra que ressoa ao público japonês após quatro Estados de Emergência por causa da pandemia global do coronavírus e das tantas vidas e negócios perdidos", diz o texto sobre a rodada de abertura no site oficial da Olimpíada.

O esforço do Japão em simbolizar essa reconstrução sofre críticas, claro. Diversas entidades se mostraram contrárias ao plano do governo de descarregar no oceano Pacífico a água contaminada de Fukushima que vinha sendo mantida em tanques desde então. "O governo desconsiderou os riscos de radiação e deu as costas às evidências claras de que há capacidade de armazenamento suficiente disponível na instalação nuclear, bem como em distritos vizinhos. (...) Eles optaram pela opção mais barata", apontou o escritório japonês do Greenpeace em abril.

E a necessidade de melhorar a imagem reverbera agora, com a chegada das delegações ao país que promove os Jogos. A equipe da Coreia da Sul informou que irá preparar a alimentação de seus atletas separadamente, filtrando ingredientes para conferir a radiação, em mais um capítulo da tensão entre Seul e Tóquio.

Se Fukushima está a cerca de 250 km a nordeste da capital, um pouco mais à frente está Miyagi, que também sofreu com terremoto e tsunami há dez anos e começa como outro destaque no primeiro dia de eventos no Japão. Após a rodada do softbol, já às 5h de Brasília, a seleção feminina de futebol do Brasil entra em campo contra a China no estádio da cidade.

Os eventos de Fukushima, assim como a maior parte da agenda olímpica, não terão presença de público por conta da pandemia. Miyagi está entre as poucas sedes que receberão torcedores, ainda que em capacidade reduzida, sem grandes lotações.

Visão lateral do estádio Fukushima Azuma, em Tóquio
Foto: Yuichi Masuda/Getty Images

Softbol de volta

Softbol e beisebol foram excluídos do cronograma olímpico em decisão válida para os Jogos de Londres, em 2012.

A ideia tinha mais ligação com a modalidade masculina, já que o Comitê Olímpico Internacional (COI) estava incomodado com o fato de não ter os principais jogadores da liga norte-americana (MLB) no evento, além de alguns casos de doping entre atletas. A versão feminina, com menor apelo global, acabou pagando o preço, e também participou pela última vez em 2008, em Pequim.

Mas, para este ciclo, com o novo formato do COI de abrir votação para debater modalidades a cada edição, a dupla foi contemplada com um retorno na discussão feita em 2016, reacendendo a chama olímpica agora, depois de 13 anos da última disputa (seriam 12, até que veio o adiamento em razão da pandemia).

O hiato impactou a rivalidade entre Estados Unidos e Japão. As duas grandes favoritas a fazerem a final no dia 27, em Yokohama, decidiram as últimas sete Copas do Mundo de Softbol, com vantagem de cinco títulos a dois para as norte-americanas; e também a última Olímpiada, em 2008, quando as japonesas venceram e impediram que os EUA levassem o quarto ouro em quatro edições dos Jogos.

O problema é que, quando elas se enfrentaram em Pequim, já havia a notícia de que o esporte seria retirado. Imagina entrar numa final olímpica sabendo que não haverá uma nova chance dali a quatro anos. Foi o que aconteceu. É por isso que ambas as equipes têm grandes histórias de gente dando um último gás na carreira para reviver o sentimento de jogar diante de todo o planeta.
A seleção anfitriã tem três jogadoras remanescentes do ouro de 2008, sendo a principal delas Ueno Yukiko. Uma das mais reconhecidas atletas de todos os tempos, também fez parte do elenco que foi medalha de bronze em Atenas, e é considerada por muitos a dona do arremesso mais veloz do softbol.

"Talvez eu não seja capaz de apresentar a mesma performance, mas eu quero dar meu máximo", comentou o grande símbolo do ouro de Pequim às vésperas da estreia em casa. Ela completará 39 anos na quinta-feira, só um dia depois do início dos Jogos.

O time dos Estados Unidos também tem suas lendas em campo. Monica Abbott, que fará 36 anos ao fim da competição, é uma arremessadora que acumula recordes desde a carreira universitária e atualmente joga na liga japonesa. Cat Osterman, 38, é uma das mais importantes da história da modalidade e está duplamente de volta – não só aos Jogos, mas à carreira.

Ela era uma das melhores do mundo e ficou muito desapontada com a retirada do softbol dos Jogos após a final de 2008. Sua trajetória estava fadada a terminar daquele jeito, com um ouro, em Atenas, e uma prata frustrante, em Pequim. Osterman já havia sido capa da Sports Ilustrated, posado para edição especial da revista ESPN, firmado contratos de patrocínio, entrado para o hall da fama de seu estado. Uma jornada grandiosa, sem dúvidas, mas que terminava com um vice-campeonato amargo, uma rara derrota desta geração.

Sem um reencontro com os anéis olímpicos no horizonte, a arremessadora se retirou da seleção. Depois, em 2015, se aposentou do esporte profissional. Mas, com a possibilidade de reconquistar o primeiro lugar no pódio, voltou ao esporte e à equipe nacional. A mais jovem do elenco em 2004, quando estreou, é agora a mais velha do time para a despedida em busca de um novo ouro, em 2021.

Ironicamente, uma despedida de fato, sem novo encontro marcado. Depois de toda a comoção e campanha para voltarem ao calendário num lugar tão importante para seus praticantes, beisebol e softbol foram retirados do programa para Paris-2024. Um retorno com cara de novo adeus, quem sabe com a esperança de uma nova chance em Los Angeles, em 2028.

A disputa do softbol que começa com Austrália x Japão tem ainda a Itália, que enfrenta os Estados Unidos no segundo jogo do dia, além de México e Canadá, que duelam no fechamento da rodada tripla. As seis seleções jogam entre si na primeira fase, e depois as duas primeiras colocadas se reencontram pelo ouro, enquanto terceira e quarta fazem a partida do bronze. O Brasil não se classificou no pré-olímpico das Américas disputado em 2019. Entre os homens, no beisebol, também nunca participou de uma edição dos Jogos.