Olimpíadas de Inverno: novata e veterana são destaques da delegação brasileira

Atleta que também é enfermeira vive a expectativa de obter, em Pequim, o melhor resultado da história do Brasil nos Jogos em esporte pouco conhecido no país

Nicole Silveira, do skeleton, e Jaqueline Mourão, do esqui, atletas brasileiras nos Jogos de Inverno de Pequim
Nicole Silveira, do skeleton, e Jaqueline Mourão, do esqui, atletas brasileiras nos Jogos de Inverno de Pequim CBDG e CBDN

Leandro Silveiracolaboração para a CNN

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Menos de um ano depois da conclusão das Olimpíadas de Tóquio, atletas brasileiros retornam ao solo asiático para mais uma edição dos Jogos, agora os de Inverno e em Pequim. A pequena delegação do país chega com duas mulheres em destaque. Elas trazem a esperança de um resultado inédito e a iminência da quebra de um recorde de participações.

A presença feminina na delegação brasileira em Pequim-2022 ainda é menor do que a masculina – 4 contra 7 –, mas a maior expectativa está com Nicole Silveira, gaúcha de 27 anos radicada no Canadá. Ela começou no skeleton no atual ciclo olímpico, após passar por outros esportes.

Como outras modalidades dos Jogos de Inverno, o skeleton é pouco conhecido no Brasil. Nele, os atletas se lançam em um trenó e descem a pista deitados, com a cabeça para baixo. Vence aquele que fizer as descidas no menor tempo.

Além da classificação para Pequim, a primeira representante brasileira na história dos Jogos nesse esporte tem conquistado resultados que a colocam na elite da modalidade: foi campeã da Copa América, terminou em oitavo lugar no evento-teste para os Jogos de Inverno e na 17ª posição no Mundial de 2021.

O bom desempenho traz a expectativa de que Nicole possa alcançar o melhor resultado brasileiro da história do evento, superando o nono lugar de Isabel Clark no snowboard das Olimpíadas de Turim, em 2006. Algo que ela buscará a partir das 22h30 (horário de Brasília) do dia 10, quando se iniciará a competição feminina do skeleton nos Jogos de Pequim.

Caso consiga, será a realização de uma carreira multiesportiva – e multitarefas. Afinal, antes de chegar ao skeleton, Nicole passou por oito modalidades: bobsled, crossfit, fisiculturismo, futebol, ginástica artística, levantamento de peso, rúgbi e vôlei.

“Esse é meu quarto ano no skeleton. Desde o início meu objetivo eram os Jogos Olímpicos, mas nunca imaginei chegar tão rápido à qualificação. Ter praticado outros esportes antes me preparou para esse momento”, diz.

Atleta e enfermeira em plena pandemia

Além disso, Nicole divide sua rotina no Canadá com a atividade de enfermeira, função que ganhou relevância ainda maior durante a pandemia do coronavírus, além de trazer mais trabalho.

Com a proximidade dos Jogos de Inverno, a brasileira buscou se concentrar mais na preparação para competir em Pequim, ainda que sem deixar completamente de lado a rotina nos hospitais.

“Já cansei de trabalhar nos turnos da noite, chegar em casa, dormir uma ou duas horas e ir direto para o treino. Com a posição que tenho, posso ser chamada para trabalhar a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana, feriados etc. Nessa última off-season, tive que focar mesmo nos treinos porque essa rotina me afeta na hora da performance. Ainda trabalhei bastante, porque a demanda está sendo grande, mas consegui balancear um pouco melhor”, conta à CNN.

A primeira participação olímpica confirma a rápida ascensão de Nicole e até a surpreende. Mas Pequim não deve ser seu ápice, tanto que ela traça metas mais ousadas.

Se há possibilidade de deixar a China como a melhor brasileira da história dos Jogos de Inverno, ela acredita ser possível conquistar uma medalha inédita para o Brasil em 2026, quando estiver na Itália, nos Jogos marcados para as cidades de Milão e Cortina.

“Eu e meu treinador sempre conversamos sobre o processo e metas que queremos atingir a cada temporada. E realmente, estamos à frente de onde imaginaria estar hoje. Ainda tenho bastante a aprender e sei que nem sempre o processo de crescimento é linear. Mas diria que meu auge vai ser nas próximas Olimpíadas, quando pretendo conseguir pódio”, diz.

Uma recordista que pedala no verão e esquia no inverno

Se há imprevisibilidade sobre até onde Nicole pode ir, outra brasileira presente aos Jogos de Inverno precisará “apenas” iniciar a participação na fase de classificação da prova sprint por equipes do esqui cross-country na próxima terça-feira (8), às 5h, para superar, de uma vez, Robert Scheidt, Formiga e Rodrigo Pessoa.

A mineira Jaqueline Mourão, de 48 anos, irá se isolar como a atleta com mais participações olímpicas pelo país.

Ela participa, em Pequim, de sua oitava edição dos Jogos, sendo três de Verão (2004, 2008 e 2020) e agora cinco de Inverno (2006, 2010, 2014, 2018 e 2022). A atleta volta a Pequim – sede dos Jogos de 2008 — como recordista e porta-bandeira da delegação brasileira na cerimônia de abertura, nesta sexta-feira (4), a partir das 9h, ao lado de Edson Bindilatti, do bobsled.

Jaqueline Mourão disputa o esqui nos Jogos de Inverno e compete no mountain bike nos Jogos de Verão / CBDN

“Estou feliz de fazer parte da história desses Jogos em uma mesma cidade duas vezes. As primeiras diferenças que percebi, claro, foram as climáticas. Em 2008, estava muito quente e úmido, a chuva chegou a adiar a prova feminina do mountain bike. Agora estou na altitude e frio, em um lugar ainda mais charmoso com a neve”, relata a brasileira, que participará de outros dois eventos nas Olimpíadas.

Há menos de um ano, Jaqueline ficou em 35º lugar na disputa cross-country do mountain bike nas Olimpíadas de Tóquio, o que exigiu uma adaptação difícil entre as competições de verão e inverno.

“Eu já tinha essa balança entre os dois Jogos, sempre a cada dois anos, mas dessa vez a transição foi muito desafiadora. Foram apenas sete meses entre Tóquio e Pequim”, relembra.

Mais espaço para as mulheres

Os protagonismos de Nicole e Jaqueline também refletem a política adotada pelo COI para reduzir a desigualdade de gênero nas competições. Para isso, foram incluídos eventos mistos e ampliada a participação feminina em modalidades, como no bobsled, que em Pequim terá uma disputa apenas para mulheres, e no monobob, um trenó com apenas uma tripulante.

Com bons resultados e longevidade, as atletas esperam levar mais brasileiras a se arriscarem no gelo. “Assim como me inspiro em outras atletas, gosto de saber que também consigo contribuir. Gostaria de ver o dia em que não precisamos chamar atenção para a desigualdade”, diz Nicole.

“Comecei esse movimento no mountain bike. Fico muito feliz de ver esse reconhecimento às mulheres e esse movimento pedindo condições iguais. É uma inspiração que vai além do esporte, para as mulheres se afirmarem em todos os âmbitos”, acrescenta Jaqueline.

Jaqueline e Edson Bindilatti, do bobsled, carregarão a bandeira do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim / Alexandre Castello Branco/COB

A delegação brasileira

Também foi feminina a estreia da delegação do país em Pequim-2022, antes mesmo da cerimônia de abertura. Nesta quinta-feira (3), Sabrina Cass, norte-americana naturalizada brasileira, começou a participar das eliminatórias do moguls do esqui estilo livre. A jovem de 19 anos foi campeã mundial júnior ainda quando competia pelos Estados Unidos.

A equipe brasileira em Pequim também teve uma mudança de última hora. Em razão de um acidente automobilístico antes da viagem para a China, Bruna Moura será substituída por Eduarda Ribera, de 17 anos. Ela participará de três competições, sendo a primeiro a disputa por equipes do sprint do esqui cross-country.

Manex Silva (esqui cross-country), Michel Macedo (esqui alpino), Rafael Souza, Edson Martins, Erick Vianna, Jefferson Sabino e Bindilatti (todos do bobsled) completam a delegação brasileira na China.

Palcos de 2008 reaproveitados

Realizados pela primeira vez em 1936, os Jogos de Inverno aconteceram no mesmo ano dos de evento de verão até 1994, quando se distanciaram no calendário. Agora, Pequim se tornará a primeira cidade a ser sede de ambos.

Isso permitirá ao público reconhecer alguns locais onde foram realizadas competições de 2008, pois houve o reaproveitamento ou transformação de oito deles. É o caso do Ninho do Pássaro, novamente palco das cerimônias de abertura e encerramento.

Sede da natação há 14 anos, o Cubo D’Água se transformou no Cubo do Gelo, para o curling. E além de Pequim, haverá disputas em outras cidades, casos de Zhangjiakou, com disputas na neve, e Yanqing, palco do bobsled, skeleton, luge e esqui alpino.

Estrelas olímpicas de inverno

Os Jogos de Inverno também contam com as suas estrelas internacionais, como a holandesa Ireen Wüst, dona de cinco ouros olímpicos e 11 medalhas, que tentará ser campeã pela quinta Olimpíada seguida na patinação velocidade. Na disputa em pista curta, a italiana Arianna Fontana irá em busca da nona medalha olímpica.

No snowboard, os astros são norte-americanos: Shaun White, três vezes campeão olímpico, e Chloe Kim, mais jovem medalhista de ouro da modalidade, com 17 anos em 2018.

Por sua vez, o japonês Yuzuru Hanyu buscará o tricampeonato olímpico na disputa individual da patinação artística. E o holandês Johannes Hosflot Klaebo competirá amparado pelos três ouros conquistados há quatro anos no esqui cross-country. Nomes que devem protagonizar os Jogos, com encerramento marcado para 20 de fevereiro.

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