São Paulo, 468 anos: futebol e várzea cruzam a história da expansão da cidade

Prática popular do esporte surgiu no início da fase de explosão do crescimento da cidade, no final do século 19, sobrevive e marca a identidade paulistana

Adriana Terracolaboração para a CNN

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Das memórias da infância no Imirim, zona norte de São Paulo, Walmir Mello, 58, lembra que todo garoto queria ganhar de presente uma bola. “Como havia muito terreno, a molecada descia o morro da Casa Verde e criava seus campinhos: fazia um desmatamento, colocava umas traves de bambu, montava o time e brincava”, conta.

Na década de 1960, o lugar das lembranças de Walmir era um espaço do qual a Força Aérea Brasileira tinha a propriedade, mas pouco utilizava. “Era uma vacaria. Os moradores traziam seu gado, cavalo, para o pasto, tinham lagoas”, diz ele, hoje diretor de marketing do local, o Complexo Esportivo Campo de Marte.

Improvisadas ali, as partidas foram dando origem a seis campos que marcaram gerações, negociaram sua permanência e resistem como um dos poucos espaços remanescentes do futebol amador às margens do rio Tietê.

O esporte que se tornou o mais popular do país começou a ser praticado em São Paulo, aniversariante desta terça-feira (25), no fim do século 19, exatamente na fase inicial da expansão da cidade. Da várzea às periferias, o futebol se ligou ao crescimento urbano e à identidade paulistana.

“Na virada do século [19 para o 20], todo futebol era de várzea. Mesmo o dito oficial, de elite, também foi jogado na várzea. A São Paulo de então é uma cidade cheia de rios e com planícies, terreno propício para o esporte”, afirma a historiadora Diana Mendes Machado da Silva, autora do livro “Futebol de várzea em São Paulo: a Associação Atlética Anhanguera (1928-1940)”.

Especialmente na virada do século, a várzea de São Paulo era, de fato, uma imensidão.

“Nos relatos dos viajantes, esses terrenos eram muito grandes – a várzea do Tietê tinha 30 milhões de m², a do rio Pinheiros 25 milhões de m² – e estavam entre público e privado”, conta a geógrafa Odette Carvalho de Lima Seabra, professora da Universidade de São Paulo (USP) e autora de “Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder – Tietê e Pinheiros: Valorização dos Rios e das Várzeas na cidade de São Paulo”.

A ocupação desses locais com futebol desde o fim do século 19 e as memórias atreladas a eles ajudam a enxergar como a cidade foi se transformando e como a população vivia nela. Mostram, ainda, que o esporte desde muito cedo foi praticado não só pela elite.

O orgulho varzeano

“Sempre faço essa brincadeira que no navio que trouxe o Charles Miller de volta com a bola e as regras oficiais, vieram homens para as fábricas, para fazer obras em São Paulo que já tinham essa prática tanto quanto ele”, diz a historiadora Diana Machado.

Nas várzeas próximas ao centro, formaram-se bairros populares, como Barra Funda e Glicério, menos valorizados pois alagavam.

“Nos anos 1910, 1920 você tinha uma ideologia de que as várzeas eram perigosas tanto do ponto de vista social quanto da saúde. Daí essa ideia de que era preciso retificar o rio. É um discurso de que a cidade tinha de crescer e ocupar todos os espaços possíveis, até mesmo o da vazão das águas”, afirma.

Mapa mostra trecho retificado e meandros do rio Tietê em 1924; em torno deles, e de meandros do Pinheiros e outros rios que cortam São Paulo, existiram centenas de campos de várzea / Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo

Moradia da população mais pobre –– negros descendentes de escravizados, parte dos imigrantes, caipiras –, as várzeas eram então chamadas de locais pestilentos, e tudo associado a elas era visto como negativo.

Os clubes de futebol profissional que também nasceram ali — o Corinthians surge às margens do rio Tamanduateí — foram construindo seus estádios e sedes com outra estrutura e nem sempre às margens dos rios, e os amadores herdaram a alcunha pejorativa de varzeanos. Apropriaram-se, no entanto, dessa expressão, dando a ela outros sentidos.

Você tem o prefeito, os urbanistas impessoalmente olhando para aquela região e dizendo que ela é pestilenta, perigosa, e você tem as pessoas vivendo, tendo suas relações afetivas, de trabalho e lazer ali, e que não veem aquele espaço assim. Então elas dizem: ‘Se é assim, somos varzeanos com orgulho, temos nosso futebol, nosso carnaval’

Diana Machado

Mais longe do centro e mais comunitário

O discurso contra as várzeas abriu não só espaço para avenidas e prédios, mas foi tirando, em um contínuo, muita gente de seu lugar.

“A Barra Funda de baixo era considerada suburbana e depois passa a ser incorporada ao centro, após a venda dos terrenos, a expulsão dos populares, sobretudo a população negra, que passa pro outro lado do rio [Tietê] e vai morar na Casa Verde, Freguesia do Ó, Brasilândia”, conta Diana Machado.

Práticas como o futebol de campo se instalaram onde o preço da terra ainda não havia subido tanto, enquanto nas áreas centrais surgiram quadras mais compactas e privadas.

“A urbanização confronta os usos da várzea por uma diretriz de adequação da modernidade, de tornar funcional e fazer fluir. Por isso acho que a história de São Paulo guarda uma crítica bem importante, política, sobre o futebol, e guarda também aspectos de formação de personalidade, de sentimentos”, diz a professora Odette Seabra.

Ao se mudar para as periferias, essa população levou “a experiência de se relacionar com as pessoas, com o espaço e o esporte”, aponta Diana Machado.

Isso porque, entre os sentidos de ser varzeano, não estava apenas a margem do rio ou o esporte. “É dentro desses espaços que você encontra paquera, dança, samba, rock, faz uma festa no final do ano”, conta a pesquisadora Aira Bonfim, que atuou no Museu do Futebol.

“Todo bairro tinha dois ou três campos”, diz Otacílio Ribeiro Filho, 71, secretário geral da Associação dos Clubes Mantenedores do Complexo Esportivo do Campo de Marte, na zona norte.

“Sou nascido e criado no Parque Peruche [zona norte], aqui é terra dos sambistas esportistas. Então a molecada, pra se dar bem, tinha que ser bom de samba, de briga e de bola. Era assim nossa vida. Tinha campinho em toda esquina.”

Equipe do Negritude Futebol Clube no início dos anos 1980 na Cohab 1, em Itaquera, na zona leste de São Paulo / Crédito: Acervo Negritude FC/Cortesia José Roberto Andrade

Fundado em 1980 a partir do encontro de seis jovens negros na beirada do campo da Cohab 1, o Negritude Futebol Clube reflete não só a memória do conjunto habitacional em Artur Alvim, zona leste, mas é parte inseparável da vida de seus fundadores.

“Minha mãe e a mãe do meu compadre Douglas [Silva] foram as primeiras lavadeiras do clube. O pai dele foi técnico na época áurea do Desafio ao Galo [competição de futebol de várzea exibida na TV], o irmão tem um time, uma das irmãs é casada com um dos fundadores, outra era diretora”, conta José Roberto Andrade, 60, presidente do clube.

Naquela época, após jogar, os garotos iam juntos aos bailes black da região. Com o tempo, conseguiram um campo próprio – hoje um CDC (Clube da Comunidade) – e, tijolo por tijolo, construíram sua sede social ao longo dos últimos 20 anos, onde fazem churrascos e rodas de samba.

Essa relação comunitária, afirma a historiadora Diana Machado, tem origem tanto entre imigrantes que vão se organizar para se ajudar ao chegar na cidade quanto nas irmandades negras, redes de suporte da população afro-brasileira pós-Abolição.

Onde há espaço, há gente jogando bola

Otacílio Ribeiro, do Campo de Marte, conta que muitos times de várzea ajudaram recentemente o Santa Marina, clube centenário que luta pela permanência do espaço remanescente na margem do Tietê.

O complexo na zona norte hoje também dialoga com um público que sempre esteve na várzea – nem sempre dividindo o mesmo espaço em campo: em 2021, abrigou o maior festival de futebol feminino amador do mundo, organizado por uma liga da zona sul.

A pesquisadora Aira Bonfim destaca a pluralidade da várzea. “Conheci times que traziam a identidade de clubes do Norte, Nordeste, reutilizando camisetas para homenagear aquele lugar deixado para trás. Através desse futebol tive o privilégio de conhecer São Paulo em todos os bairros e zoneamentos e posso dizer como ele é diverso, quantas pessoas ainda o praticam, como ele resiste”, diz.

Hoje, estima-se de 3 a 4 mil equipes amadoras na cidade. Essa resistência envolve a queda de braço com transformações urbanas que não veem nos campos o valor que a experiência social mostra.

Lance da partida entre as equipes do A.A. Corinthians e G.E. Black Power de em campo de várzea da cidade de São Paulo em 18 de abril de 1976 / Estadão Conteúdo

O Negritude correu risco de se tornar um estacionamento às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Campo de Marte e Santa Marina ainda vivem disputas pelo espaço que se estendem por décadas.

Todos esses clubes são reconhecidos pela Secretaria Municipal de Cultura, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico, como locais importantes, tendo recebido placas do projeto Memória Paulistana.

Para a geógrafa Odette Seabra, essa permanência reforça algo imanente no ser humano. “O uso lúdico do tempo é o que os indivíduos sempre procurarão. Existe esse resíduo do futebol que em todo terreno baldio vai aparecer. Se tem um campinho, uma terra batida, se faz. E isso é bonito.”

“Há essa chancela que se coloca para São Paulo de que ela é uma cidade onde as pessoas só trabalham, e isso é uma grande mentira, um grande estereótipo”, afirma Aira Bonfim.

Diana Machado ilustra esse pensamento com uma paisagem bastante paulistana. “A gente tem aquelas fotos clássicas da zona sul com as casas das comunidades pequenas, apertadas, mas não se deixa de ter o campo no centro. Essa sociabilidade esportiva tem um valor tão grande que nenhuma casa pode ocupar aquele espaço. Onde a especulação imobiliária não entra com os dois pés, a cultura popular vence.”

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