Ex-Corinthians cita caso vivido em clube e critica normalização do racismo
Betão comentou o episódio recente no Dérbi paulista e relembrou conversa sobre o crime no futebol
Um episódio lamentável de racismo marcou o clássico entre Corinthians e Palmeiras. O goleiro Carlos Miguel, ex-Corinthians e atual jogador do Palmeiras, foi vítima de injúria racial durante a partida, quando um torcedor o chamou de "macaco" em um lance em que Yuri Alberto finalizou ao gol.
Betão, ex-zagueiro do Corinthians, foi enfático ao comentar sobre o caso durante o programa Convocação CNN.
"Quando a gente vai falar de racismo, acho que a gente tem que separar a questão de camisa de time. É algo que já tomou uma proporção muito grande, não somente no futebol brasileiro. É algo que a gente pode dizer que é inadmissível, independente da camisa, independente de quem fez o ato".
O ex-jogador ainda relatou uma experiência pessoal sobre o tópico.
Eu sei que tem muita gente que fala que é mimimi, que isso aí faz parte do futebol. Eu até conto uma situação que eu vivi, dentro do clube ao qual eu trabalhava, a gente estava conversando sobre essa questão do preconceito racial, e um funcionário chegou e falou assim para mim: "Betão, isso aí faz parte, cara, isso aí faz parte do jogo para desestabilizar o adversário". E aí eu chego e pergunto para essa pessoa: "você está falando de qual jogo, meu amigo? Jogo do futebol não pode ser, você está falando sobre o jogo da vida.
Tanto o Palmeiras quanto o Corinthians se manifestaram oficialmente sobre o caso.
O clube alviverde emitiu nota afirmando: "Diante da grave violência, incompatível com qualquer valor, o Palmeiras se solidariza e pede que as autoridades competentes adotem providências devidas, inclusive a identificação e responsabilização de todos os envolvidos".
Já o Corinthians declarou que o racismo é inadmissível e que pretende colaborar com as autoridades para identificação do responsável.
Torcedor joga contra o próprio clube
O episódio é particularmente grave por ter ocorrido em um jogo de torcida única, o que indica que a ofensa partiu inevitavelmente de um torcedor corintiano. Especialistas destacam que, além da gravidade do crime em si, o ato pode resultar em sérias punições esportivas para o clube e ações judiciais contra o responsável.
O clássico tinha um simbolismo especial por contar com dois goleiros negros em campo, algo ainda raro no futebol brasileiro.
A situação reacende discussões históricas sobre o racismo no futebol nacional, incluindo o tratamento dado a Barbosa após a Copa do Mundo de 1950 e a baixa representatividade de goleiros negros na seleção brasileira ao longo da história.
Raul Moura, comentarista, destacou que o episódio vai totalmente contra a história do Corinthians.
"O Corinthians é um clube de luta, a camisa 2 do Corinthians é justamente um protesto, que o clube não conseguia usar jogadores negros, fez a camisa listrada. Então gente, não tem cabimento, é triste, revoltante, mas o pior ainda é saber que existem pessoas assim na sociedade ainda", disse.
Bruno Rodrigues ressaltou a importância de se continuar abordando o tema.
"É um assunto que muita gente considera chato, mas vocês vão falar disso de novo, tem que falar sempre, a gente tem que bater na tecla sim. Se possível identificar, porque é um crime que se pague como tal, mas eu acho, repito, é um problema institucional de educação".



