México acusa Zara e outras marcas de apropriação cultural

Secretaria de Cultura do país diz que marcas usaram desenhos criados por povos indígenas do país

Megan C. Hills, da CNN
01 de junho de 2021 às 16:02
Peças da Anthropologie, Zara e Pathowl foram acusadas de apropriação cultural
Peças da Anthropologie, Zara e Patowl foram acusadas de apropriação cultural pelo governo mexicano
Foto: Divulgação

O México acusou as marcas Zara, Anthropologie e Patowl de apropriação cultural, alegando que elas teriam copiado conceitos de povos indígenas do país. 

Em uma série de cartas escritas para as marcas, o Ministério da Cultura do México pede por uma "explicação pública", além de "benefícios" para as "comunidades criativas" que acredita ter inventado as técnicas de bordado e os motivos nas estampas. 

As correspondências, assinadas pela ministra Alejandra Frausto Guerrero e datadas de 13 de maio, vieram a público na última sexta-feira (28). Elas apontam vários itens das três marcas ao lado de exemplos de vestimentas criadas por povos indígenas da região de Oaxaca.

Em um comunicado à imprensa, o Ministério da Cultura cita um vestido midi azul bordado da Zara, dizendo que a marca espanhola usou símbolos ancestrais e o formato de vestidos "huipil", que são feitos pelo povo Mixtec de San Juan Colorado, acrescentando que essas roupas tipicamente demoram ao menos um mês para serem feitas por eles. Esse item não está mais disponível no site da Zara. 

Shorts da Anthropologie
Shorts da Anthropologie usa bordados parecidos com os do povo Mixe, do México, diz governo
Foto: Anthropologie

Um shorts bordado da Anthropologie também foi usado como um suposto exemplo de apropriação cultural. O governo mexicano disse que o item, que custa quase US$ 70 (R$ 361), usa símbolos que lembram os usados pela comunidade Mixe, em Santa Maria Tlahuitoltepec. A peça ainda estava disponível para compra no site da marca na última segunda-feira (31). 

As camisas floridas casuais da Patowl, por sua vez, lembram as técnicas de bordado da comunidade Zapotec de San Antonino Castillo Velasco. O governo diz que as flores bordadas nas peças eram uma imitação de uma técnica complexa chamada de "hazme si pudes" ("faça-me se puder") e incluem os padrões de amores-perfeitos usados por aquele povo, entre outros.

Camisa Patowl
Governo mexicano acredita que camisa da Patowl copia técnicas de bordado da comunidade Zapotec
Foto: Patowl

Em uma nota enviada à CNN, a companhia proprietária da Zara, Inditex, disse ter "o mais alto respeito pelo Ministério da Cultura e as comunidades mexicanas", mas acrescentou que o "design em questão não foi de maneira alguma emprestado ou influenciado pela arte do povo Mixtec do México". 

Nem a Patowl, nem a companhia proprietária da Anthropologie, URBN, responderam ao pedido da CNN por um comentário. 

No comunicado à imprensa, o Ministério da Cultura mexicano disse que a "propriedade coletiva" dos povos indígenas havia sido "privatizada" pelas marcas, e pediu que elas criassem um modelo de trabalho "ético" junto dos artesãos.

Vestido da Zara
Vestido da Zara seria parecido com os vestidos 'huipil' do povo de San Juan Colorado, no México
Foto: Zara

O órgão disse ainda que estava agindo para "prevenir plágio de empresas nacionais e transnacionais", além de "proteger os direitos de povos nativos que são historicamente desprezados". 

Essa não é a primeira vez que o México acusa marcas de apropriação. Em novembro passado, a designer francesa Isabel Marant pediu desculpas após o Ministério da Cultura alegar que a marca dela usou um padrão criado pela comunidade Purepecha. De acordo com a BBC, Marant ofereceu "s mais sinceras desculpas", acrescentando que "homenagearia as nossas fontes de inspiração" no futuro.

Em 2019, a pasta também acusou a marca norte-americana de vestuário feminino Carolina Herrera de usar estampas mexicanas "sem permissão, sem respeito, sem nenhuma consideração econômica". Apesar da marca não ter respondido a um pedido da CNN por um comentário na época, o diretor criativo Wes Gordon disse em declaração ao jornal The Guardian que a marca tentou "ressaltar a importância dessa herança cultural magnífica" e que era uma "homenagem à riqueza da cultura mexicana". 

(Texto traduzido, leia o original em inglês)