Casa de argila impressa em 3D pode indicar tendências da arquitetura no futuro

O arquiteto Mario Cucinella enxerga um futuro para esse novo tipo de construção mais sustentável, que pode auxiliar países mais pobres a lidar com a moradia

Protótipo da TECLA, primeira casa impressa em argila
Protótipo da TECLA, primeira casa impressa em argila Foto: Iago Corazza

Jacqui Palumbo,

da CNN

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É possível que a arquitetura possa ajudar a resolver a crise imobiliária e, ao mesmo tempo, construir um futuro mais sustentável? 

É o que Mario Cucinella almeja. O arquiteto concluiu um protótipo para uma casa que visa fazer as duas coisas, combinando algumas das tecnologias mais recentes com os materiais de habitação mais antigos na pequena cidade de Massa Lombarda, na Itália. 

A moradia, batizada de TECLA, é a primeira casa impressa em 3D feita de barro e Cucinella espera que o desenho de seu programa seja uma opção viável para abrigar pessoas que carecem de moradia adequada, seja por questões financeiras ou de deslocamento. 

Nos últimos anos, uma série de casas e comunidades foram impressas em 3D, prometendo tempos de construção mais rápidos e custos mais baixos. Só para lembrarmos algumas, tem a casa de 400 metros quadrados impressa em 24 horas na Rússia em 2017 e um bairro inteiro impresso no México em 2019. 

Nos EUA, a primeira casa impressa a chegar ao mercado foi em fevereiro deste ano — um sobrado com mais de 420 metros quadrados em Nova York — foi avaliada em US $ 299 mil (cerca de R$ 1.711.745,00). Um condomínio de casas de dois e quatro dormitórios estará disponível para moradia ainda este ano no Texas.

Protótipo da TECLA
O design circular da TECLA acomoda um quarto, uma sala de estar e um banheiro
Foto: Iago Corazza

No entanto, as estruturas anteriores foram construídas com concreto ou materiais sintéticos, como plástico. Mas esta foi diferente: usou TECLA, uma espécie de mistura de terra, água, fibras de casca de arroz e um aglutinante. “A porcentagem de aglutinante é menor de 5%”, ressalta o arquiteto.  

O produto foi batizado em homenagem à cidade fictícia de Thekla, do escritor Italo Calvino, mas também é um amálgama de “tecnologia” e “argila”. 

Cucinella acredita que essa abordagem pode ser replicada em diferentes partes do mundo, usando quaisquer materiais locais disponíveis, e pode ser particularmente útil em áreas rurais carentes, onde os materiais de construção industrial são mais difíceis de encontrar.

Mas nem tudo são flores. Ou barro. Imprimir com argila tem suas desvantagens. Se a impressão do design é rápida, como em 200 horas, a mistura de argila pode levar semanas para secar, dependendo do clima. De acordo com Cucinella há também limitações de altura (arranha-céus de argila não fazem parte do futuro, por exemplo). 

Mas a adaptação no solo disponível e a facilidade na construção pode colocar o TECLA como alternativa de moradia em países de situação vulnerável. Em 2015, a Habitat for Humanity estimou que 1,6 bilhão de pessoas carecem de moradias adequadas, e o UN-Habitat — o programa das Nações Unidas para assentamentos humanos e desenvolvimento urbano sustentável — estima que até 2030, 3 bilhões de pessoas — isso significa 40% dos população mundial —, exigirá acesso a residências acessíveis e acessíveis. “Você pode construir esse tipo de casa em muitos lugares já que não depende de nenhum produto específico”, explicou Cucinella em entrevista por vídeo.

Tradição encontra novas tecnologias

Construir casas de terra, como Cucinella apontou, não é novo. 

O Adobe — mistura de terra, água e material orgânico — é um dos primeiros materiais de construção do mundo, conhecido por sua durabilidade, biodegradabilidade e isolamento natural.

Projeto TECLA
O projeto utiliza impressoras WASP para produzir a estrutura da casa
Foto: Iago Corazza

“O desafio foi usar um material antigo na história da arquitetura alinhado com as novas tecnologias em encontrar uma nova forma de casa”, disse Cucinella. As impressoras Crane WASP misturam água com a terra local para imprimirem camada por camada. 

O projeto apresenta dois espaços circulares unidos, espécie de clarabóias para que a luz entre. A residência ainda inclui uma sala de estar, um quarto e um banheiro. Seus móveis, incluindo mesas e cadeiras, também podem ser impressos com o maquinário WASP. Acabamentos, como portas e janelas, foram instalados após a impressão. 

A ideia por trás do TECLA não é necessariamente replicar a mesma casa para qualquer ambiente, mas ajustar o design com base na localização. “Não estamos produzindo um tipo de casa que você possa imprimir e fazer em qualquer lugar. É diferente um projeto de casa no norte da Itália, no meio da África ou na América do Sul “, explicou Cucinella. “Adaptamos a casa aos diferentes climas.”

Uma renderização mostra como poderia ser a TECLA caso uma família a habitasse
Uma renderização mostra como poderia ser a TECLA caso uma família a habitasse
Foto: Mario Cucinella Architects

“O processo de construção, usando máquinas impressas em 3D WASP, pode ser facilmente ensinado e amplamente utilizado”, disse. O ‘Maker Economy Starter Kit’ da WASP pode ser despachado em um único contêiner, com todas as ferramentas incluídas para fazer casas, desde o maquinário que imprime a estrutura geral até a mobília, além de um sistema de reciclagem e gerador de energia. 

“Não acho que estamos em posição de dizer que este será o futuro de todas as casas do planeta”, disse Cucinella, apontando que a crise em países como a China, onde grandes áreas metropolitanas estão enfrentando uma crise de superpopulação, não seria resolvida apenas através de construções de barro. 

No entanto, ele acrescentou: “Acho que a revolução da impressão 3D é dar às pessoas um grau de liberdade em como fazer as coisas, sem estar conectado a uma grande indústria profissional.”

Metas neutras em carbono 

Cucinella acredita que a impressão em 3D com materiais naturais pode ser uma importante ferramenta tecnológica para a Europa, que trabalha em alternativas para a neutralidade climática até 2050. 

De acordo com um relatório de 2020 da Agência Ambiental da ONU e da Agência Internacional de Energia, o setor de construção é responsável por 38% de todas as emissões de carbono no mundo.

Uma renderização de como uma comunidade de casas TECLA seria
Uma renderização de como uma comunidade de casas TECLA seria
Foto: Mario Cucinella Architects

 Cucinella afirma que TECLA é de baixo desperdício, uma vez que sua estrutura é biodegradável (apenas acessórios extras, como portas e janelas, não são) e o processo de construção usa menos energia do que construir uma casa padrão. 

“Quando falamos em sustentabilidade, acho que precisamos pensar também no processo de construção, porque estas etapas consomem e (geram) altas emissões de CO2 (dióxido de carbono)”, disse Cucinella. 

Ele acredita que podemos aprender com o projeto arquitetônico da era pré-industrial para fazer edifícios que não prejudicarão o planeta. “Se olharmos para o passado, podemos explorar como os arquitetos foram capazes de projetar edifícios sem energia por muitos e muitos séculos”, disse ele. 

O protótipo do TECLA está atualmente passando por testes de desempenho estrutural e térmico – etapa essencial antes do projeto ser dimensionado. Quando for para a produção, Cucinella disse que ficaria feliz em morar lá, dizendo que os materiais evocam uma sensação de casa e história. “Você tem a sensação de algo há muito tempo em sua memória”, disse ele.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês).

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