Competitividade se constrói com coerência, não com atalhos

A ideia de que a indústria automotiva brasileira se desenvolveu sob uma proteção excessiva é um tema recorrente e levanta provocações pertinentes. Embora a tese de que o setor operou em um ambiente de proteção prolongada mereça ser analisada com seriedade, limitar o debate a esse ponto é simplificar um tema bem mais complexo.
Em diferentes momentos, políticas públicas perderam conexão com resultados e se estenderam além do necessário. O risco de captura regulatória existe. A dificuldade de encerrar incentivos também. E ambos precisam fazer parte do debate.
A competitividade do setor não se explica por um único fator, nem se corrige com uma única decisão. Ela resulta da interação de múltiplas dimensões. Custo, política fiscal, acesso a tecnologia, ambiente trabalhista, logística, assimetrias tributárias, escala produtiva e previsibilidade regulatória não operam de forma isolada. Funcionam como um sistema, e é nesse sistema que o Brasil carrega distorções relevantes.
A carga tributária é o exemplo mais evidente. Dependendo do modelo, os impostos representam entre 30% e 48% do preço final de um veículo. A reforma tributária em fase de regulamentação aponta avanços ao buscar simplificação e menor cumulatividade. Ainda assim, o nível de impostos tende a permanecer elevado, com risco de aumento caso o governo avance com a inclusão do setor no imposto seletivo, o que distorce o espírito da própria reforma e penalizaria um dos setores mais comprometidos com a descarbonização e novas tecnologias.
O contraste com outras economias é direto. Nos Estados Unidos, a tributação sobre veículos gira entre 7% e 10%, concentrada no consumo. Na Europa, o IVA médio está próximo de 20%, inserido em um contexto de políticas industriais e ambientais consistentes. Na China, a tributação mais baixa combinada com incentivos direcionados e políticas estruturantes, especialmente para veículos elétricos, alterou significativamente a escala e o posicionamento da indústria, hoje cada vez mais orientada à tecnologia e à inserção global.
A estrutura de custos também reflete diferenças no ambiente trabalhista. Em economias como a chinesa, maior flexibilidade em temas laborais contribui para a redução de disputas legais e ampliação da produtividade.
Na cadeia automotiva, a diferença de produtividade reflete menos a eficiência das empresas e mais o ambiente em que operam. O Brasil produz pouco mais de 2,5 milhões de veículos por ano. A China ultrapassa 30 milhões. Essa escala permite diluir custos e capturar ganhos que não se replicam por aqui. No plano mais amplo, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,3% ao ano em uma década, contra 2,8% nos Estados Unidos e mais de 8% na China, segundo estudo da McKinsey. O resultado é uma indústria que gera menos valor por trabalhador. Não por limitação técnica, mas por operar em um ambiente que restringe escala, tecnologia e competitividade.
A abertura de mercado, isoladamente, não resolve esse quadro. Pode ampliar a pressão competitiva, mas, sem ajustes no ambiente doméstico tende a deslocar produção em vez de fortalecê-la. Da mesma forma, políticas de apoio sem critérios claros não geram ganhos sustentáveis. O problema não está no instrumento, mas na forma como ele se insere no conjunto.
O Brasil reúne atributos importantes: mercado consumidor relevante, parque fabril moderno, mão de obra qualificada e investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento. Mas aproveitar esse potencial em competitividade exige escolhas.
Entre elas, a forma como o país estrutura sua abertura de mercado. Movimentos descoordenados tendem a gerar assimetrias e deslocamentos de produção sem ganho de eficiência. Por outro lado, é possível construir mecanismos que conectem acesso ao mercado à densidade produtiva local. Cotas de importação proporcionais ao volume efetivamente produzido no país são um exemplo. Não como barreira, mas como forma de alinhar competição com compromisso industrial.
O mesmo raciocínio vale para políticas que reconheçam as diferenças claras entre conceber, fabricar, montar ou apenas integrar. Direcionar investimentos para onde há maior valor agregado, fortalecendo engenharia, conteúdo nacional e capacidade tecnológica é parte da equação.
Há também espaço para avançar na convergência regulatória. A aceitação de padrões internacionais de emissões e segurança reduz complexidade, encurta ciclos e evita custos desnecessários. Ao mesmo tempo, permite uma abertura mais qualificada a importações selecionadas, dentro de um ambiente previsível e comparável.
Embora o debate sobre a eficiência industrial seja vital para o desenvolvimento do país, ele não se esgota em análises isoladas sobre proteção de mercado. Ao ampliar a análise de forma construtiva, ganha-se clareza sobre uma agenda que exige consistência ao longo do tempo e coordenação entre instrumentos.
A competitividade industrial é, por definição, sistêmica. Ela se constrói cada vez mais com políticas de valorização da indústria, a partir da coerência entre decisões. É nesse plano que o Brasil ainda tem espaço para avançar.
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