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Márcia Cavallari Nunes
Helio Gastaldi Filho
Patrícia Pavanelli

Márcia Cavallari Nunes- diretora da Ipsos-Ipec

Helio Gastaldi Filho- diretor de Public Affairs Ipsos

Patrícia Pavanelli- diretora de atendimento da Ipsos-Ipec

Encruzilhada de 2026: polarização, desconfiança e governabilidade

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O Brasil entra em 2026 sob a tensão que persiste desde 2022. A metáfora dos “dois Brasis” ganhou corpo: a disputa não é apenas programática, é também afetiva – "nós" contra "eles", impulsionada por identidades e lideranças fortes.

A eleição de 2026 não será apenas uma escolha entre candidatos ou projetos de governo, mas um referendo sobre os rumos de um país marcado por polarização político-ideológica, fragilidade de uma democracia ainda não consolidada, desafios econômicos persistentes e complexa relação de forças entre os Poderes da República.

Dados recentes da Ipsos-Ipec mostram que 57% veem mais malefícios do que benefícios com a polarização, 58% dizem que ela enfraquece a democracia e 72% se sentem incomodados.

Essa fratura se agrava num ambiente de baixa confiança institucional. O Índice de Confiança Social recuou para 56 pontos em 2025 (-4vs. 2024), e as instituições políticas figuram entre as mais mal avaliadas, exceção para os governos municipais que apresentam índices de confiança acima de 50 pontos.

A democracia é preferida por uma maioria relativa (45%), mas a satisfação com seu funcionamento permanece baixa (29%). Disso nasce uma dissonância perigosa: apoia-se o regime democrático mais por norma do que por convicção, abrindo espaço para soluções personalistas, atalho frequente em democracias jovens quando o desalento se espalha.

Gestão sob pressão

No Executivo, o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva opera sob forte pressão. Sem base estável, o governo enfrenta uma barganha parlamentar constante e custosa. Mesmo com alguns indicadores positivos ao longo do período, a percepção econômica é pior do que os dados sugerem e a aprovação presidencial recuou 9 pontos em relação ao final do seu primeiro ano de governo.

A comunicação oficial tem dificuldade em contrapor a narrativa da oposição e em traduzir entregas de modo convincente, enquanto a percepção de "rumo errado" segue no patamar de 59%.

As angústias do eleitor são claras e imediatas: segurança pública/crime/violência (45%), corrupção política e financeira (36%), saúde (34%), pobreza e desigualdade social (31%), impostos (27%) – segundo o Ipsos Global Advisor 2025. É sobre este pano de fundo que as campanhas serão testadas: quem apresentar respostas críveis e executáveis para esses cinco nós, terá vantagem.

Por outro lado, a direita ampliou capilaridade em 2022 e, sobretudo em 2024, consolidou um mapa municipal e legislativo mais conservador, oferecendo base territorial e política para as eleições de 2026.

Com Bolsonaro inelegível, nomes como governadores bem avaliados e figuras ligadas ao bolsonarismo ganham força no cenário nacional. Entretanto, o maior desafio é unificar a direita em torno de uma candidatura já no primeiro turno, para que em um eventual segundo turno tenha força competitiva.

A engrenagem que conecta tudo isso é a governabilidade. O presidencialismo de coalizão entrou em mutação: o Congresso, empoderado por mecanismos orçamentários e pela fragmentação partidária, tornou-se protagonista. Emendas e controle de fatias do orçamento conferem ao Legislativo um poder de veto e de agenda que muitos já chamam de "parlamentarismo informal". A cada impasse, cresce a tentação do recurso ao Judiciário, e a crise entre Poderes passa a ser parte da rotina institucional.

Se a direita vencer, tende a priorizar uma agenda liberal na economia, além de pautas de costumes mais conservadoras. Essa combinação pode reduzir incertezas para o mercado, mas acirrar tensões com movimentos sociais e, possivelmente, com o STF. O teste decisivo será a capacidade de unir as diversas correntes do campo conservador – do liberalismo ortodoxo ao bolsonarismo raiz – sem imobilizar a agenda.

Se a esquerda permanecer, deve insistir na inclusão social, no Estado como indutor do desenvolvimento e numa política externa ativa. O nó central seguirá sendo o Congresso: aprovar reformas estruturais exigirá concessões expressivas ao centro, com custo político e orçamentário. O governo terá de reverter percepções negativas em economia e segurança e aprimorar sua comunicação para recuperar confiança – desafio que não se resolve só com dados positivos, mas com melhora palpável no cotidiano do eleitor.

O que não muda

Persistem a polarização afetiva, limitando consensos e uma visão de longo prazo; a crise fiscal é estrutural: sem reformas e escolhas difíceis, 2027 em diante ameaça colapsos recorrentes de orçamento; o protagonismo do Legislativo veio para ficar, exigindo do próximo presidente mais negociação e mais previsibilidade na execução; a agenda social urgente – segurança, saúde, educação, produtividade e informalidade – continuará exigindo políticas de Estado, não só de governo.

A encruzilhada de 2026, portanto, vai além do duelo esquerda-direita. É sobre restaurar confiança, baixar a temperatura do conflito e pactuar uma agenda mínima. A pergunta de fundo é menos "quem vence?" e mais "com que pontes?". Sem pontes, não há travessia.