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José Pimenta

José PimentaDiretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional na BMJ Consultoria

Europa hesita, Mercosul avança: quando cautela vira custo estratégico

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Muito já se escreveu sobre o acordo de associação entre o Mercosul e a União Europeia. Uma negociação que se estende por mais de duas décadas e que, ao longo desse período, foi analisada sob múltiplas lentes: seus potenciais benefícios e riscos, os setores mais favorecidos ou pressionados, as correntes de comércio que tenderiam a crescer ou a se retrair, entre outros prismas. Trata-se, sem dúvida, de um dos capítulos mais longos — e mais simbólicos — da história recente do comércio internacional.

Esse debate, contudo, não pode ser dissociado de uma realidade mais ampla. Mercosul e União Europeia são regiões historicamente interligadas por laços políticos, migratórios, econômicos, financeiros e de investimento. São vínculos que remontam a séculos, assumindo diferentes formas em diferentes países, e que, sobretudo ao longo do século XX, se consolidaram como relações estruturantes em termos econômicos e institucionais. O acordo, portanto, não nasce no vazio: ele é expressão contemporânea de uma relação econômica e política já densa, relevante e madura.

Alguns números ajudam a dimensionar essa realidade. Atualmente, Brasil e União Europeia mantêm uma corrente de comércio em torno de US$ 80 bilhões por ano, com tendência de crescimento consistente. A União Europeia é hoje o segundo maior destino do agronegócio brasileiro, desempenhando papel central na absorção de produtos com elevado grau de exigência sanitária e regulatória. Para além do comércio, o bloco europeu figura entre os principais pilares do investimento estrangeiro no país (IED) com um estoque que se aproxima de US$ 400 bilhões, concentrado sobretudo em setores de média-alta e alta intensidade tecnológica da indústria de transformação (energia, química, farmacêutica) e serviços avançados.

Tenho defendido, em textos recentes, a necessidade de o Brasil aperfeiçoar sua política de comércio internacional. Isso passa por ampliar sua capilaridade negociadora, fortalecer laços estratégicos e adotar uma inserção mais pragmática no sistema internacional — uma agenda que, por diferentes razões, não foi plenamente consolidada nas últimas décadas, mas que parece ganhar novo impulso no contexto atual. É à luz dessa discussão que o acordo Mercosul–União Europeia deve ser analisado.

O ponto central é claro e objetivo: a consolidação do acordo criaria uma das maiores áreas integradas de comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas e aproximadamente 20% do PIB global. Em um ambiente internacional marcado pelo recrudescimento do protecionismo, pela fragmentação de cadeias produtivas e pelo uso crescente do comércio como instrumento geopolítico, um acordo dessa magnitude enviaria uma mensagem inequívoca ao sistema internacional: ainda há espaço para integração econômica, harmonização regulatória e expansão estratégica do comércio e dos investimentos.

Ademais, o valor simbólico desse movimento não é trivial. Em um momento em que medidas restritivas se multiplicam — mais de 2.500 barreiras ao comércio foram introduzidas globalmente desde a pandemia —, um acordo entre dois grandes blocos democráticos sinaliza que a cooperação econômica permanece não apenas desejável, mas necessária. Trata-se de afirmar que, apesar das tensões, assimetrias e disputas distributivas, é possível construir regras comuns e previsíveis para o comércio internacional.

É justamente nesse contexto que chama atenção a decisão europeia de postergar, mais uma vez, a assinatura do acordo, agora sinalizada para janeiro de 2026. Mesmo após a aprovação de salvaguardas agrícolas adicionais, concebidas para responder a pressões internas de setores sensíveis, a UE optou por adiar a formalização do entendimento. A mensagem que emerge desse movimento é menos técnica e mais política: a dificuldade europeia em transformar discurso estratégico em decisão concreta.

Esse adiamento tem custos. Ao hesitar, a União Europeia perde uma oportunidade relevante de consolidar uma relação estratégica com o Mercosul em um momento de redefinição do comércio internacional. Em um cenário de competição regulatória, de disputas por acesso a mercados e de reconfiguração de cadeias globais de valor, atrasos desse tipo não são neutros. Eles abrem espaço para que outros países avancem, ocupem terreno e aprofundem sua presença econômica e política na região.

Há, contudo, um elemento frequentemente negligenciado nesse debate: o Mercosul não está parado. O adiamento europeu ocorre em paralelo a um movimento claro do bloco sul-americano de diversificação de parcerias e aceleração de diálogos comerciais - algo inédito, até então, nessa magnitude. Estão em curso negociações ou entendimentos exploratórios com países e regiões da Ásia, do Oriente Médio, da América Central e do próprio continente americano. O sinal é inequívoco: o Mercosul busca ampliar suas opções, reduzir dependências e fortalecer sua autonomia estratégica no comércio internacional.

Esse movimento reforça uma tendência mais ampla no próprio desenho das negociações comerciais globais. Saímos de uma era marcada por mega-acordos amplamente liberalizantes para um momento em que os acordos são, sobretudo, geoeconômicos e geopoliticamente orientados. O Mercosul–União Europeia se insere exatamente nesse novo paradigma: menos ideológico, mais pragmático, mais atento à realidade das economias nacionais e às disputas globais contemporâneas.

Mais do que projeções sobre crescimento de exportações, o verdadeiro ganho está na redefinição de parâmetros: de inserção internacional, de previsibilidade regulatória e de articulação entre política comercial e estratégia de desenvolvimento. Em um mundo que discute não apenas com quem fazer comércio, mas de que forma estruturar relações comerciais, esse é um ativo central.

Que, para além de salvaguardas, cronogramas e postergações, o acordo Mercosul–União Europeia seja compreendido como aquilo que de fato representa: um teste de visão estratégica. Para a Europa, a decisão de avançar — ou hesitar — diz muito sobre seu papel futuro no comércio global. Para o Mercosul, a mensagem já parece clara: integrar-se, diversificar parceiros e seguir adiante, mesmo quando a cautela do outro lado começa a se transformar em custo. 2026 promete ser o ano da consolidação de diversos acordos no comércio internacional - que Mercosul e União Europeia possam selar de vez essa parceria histórica.

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