Primeiras Escolhas

O Brasil precisa abandonar o ciclo eleitoral e partir para a realidade. Com Lula eleito, há uma mudança de eixo de poder que se desloca para a centro-esquerda e que irá contemplar os partidos e nomes que estiveram ao lado do vencedor nas eleições. Assim, longe de preferências políticas, é preciso olhar para as escolhas longe do julgamento e perto das ideias e rumos que cada um pode desempenhar em sua pasta, pois isso irá orientar as políticas públicas de nosso país pelos próximos quatro anos.
A escolha mais esperada era do nome que irá conduzir a pasta da Fazenda. A opção foi por Fernando Haddad. Com este movimento, Lula indica que vai seguir na estratégia do seu primeiro mandato. Ali também houve a escolha de um nome político, Antônio Palocci, para comandar o Ministério. Isto nos fornece alguns importantes sinais.
Haddad deve atuar como interlocutor dos assuntos econômicos no plano político. Sua habilidade no trato parlamentar será o caminho do governo para encaminhar as reformas que deseja e os ajustes que precisa para implementação de suas políticas. A parte técnica, assim como em 2003, ficará nas mãos do secretariado da Fazenda, com nomes que devem preservar os aspectos sociais das políticas econômicas, mas também outros que oferecem trânsito e diálogo com o mercado.
Não há dúvida que o futuro Ministro da Fazenda possui as credenciais para a missão política confiada por Lula. Se terá sucesso, é outra história. Porém, é preciso lembrar que Haddad realizou a aproximação com Alckmin, ao construir a interlocução para a construção da chapa presidencial e destravou os caminhos para a reaproximação de Marina Silva durante o período eleitoral. Por ter sido ministro e prefeito de São Paulo, conhece os trâmites e articulações necessárias para construir soluções no parlamento – exatamente a missão ministerial confiada ao futuro ocupante da Fazenda.
José Múcio, escolhido para a Defesa, é conhecido por possuir trânsito em todos os grupos políticos de Brasília. Esteve no PFL, PSDB e PTB. Foi da base do governo Fernando Henrique e depois abriu espaço no governo Lula, quando se tornou ministro, antes de ser indicado para o TCU. Sua habilidade e postura conciliadora se tornaram um ativo importante, tornando-se um nome bem aceito também pelos militares para devolver um comando civil ao Ministério da Defesa – um sinal importante em tempos delicados, especialmente quando militares da ativa e reserva deixarão os cargos em postos civis.
Ficou claro que Lula optou na Fazenda e na Defesa por nomes de habilidade política, com experiência na negociação e capazes de distensionar o ambiente e criar soluções. Isto indica que devem ser ministro que tendem a permanecer em suas cadeiras por todo o governo. No Itamaraty, a opção foi pelo jogo seguro, por um nome de carreira, alguém que já exerceu a função de Chanceler. O Embaixador Mauro Vieira já foi o titular brasileiro nas Nações Unidas, Washington e Buenos Aires. Excessivamente ponderado, possui trânsito com embaixadores bolsonaristas, sem ter pedido vínculos políticos com a esquerda. Com a saída da Apex do Ministério, perderá uma agência importante para o novo MDIC, porém com maior apreço pela diplomacia tradicional, terá mais conforto para tocar o Itamaraty de forma habitual. Tem tudo para atravessar os quatro anos de mandato de Lula sem sobressaltos. Mais uma pasta com alto grau de previsibilidade.
Na pasta da Justiça, a escolha de Flávio Dino já era esperada. Governador duas vezes, foi também Juiz Federal, presidindo a Associação Nacional de Juízes Federais. É irmão do subprocurador-geral da República, Nicolao Dino, que já foi cotado para ocupar a PGR. Como Senador eleito, não fica claro se Dino tem planos de passar os quatro anos no Ministério da Justiça, porém terá muito trabalho na pasta, que abriga órgãos como a Polícia Rodoviária Federal, notoriamente aliada fiel de Bolsonaro.
Por fim, mas não menos importante, foi a escolha de Rui Costa para a Casa Civil. Mais um nome político, de tendência articuladora, que pode ajudar tanto na coordenação do ministério, afinal foi Governador da Bahia por duas vezes, e no diálogo no Congresso Nacional.
Até o momento, os nomes escolhidos foram aqueles esperados, sem qualquer novidade. Longe das paixões, é preciso preparar o país para os novos caminhos que devem ser percorridos. Estas primeiras escolhas de Lula mostram previsibilidade, sem qualquer guinada brusca, com claros sinais para os agentes políticos, econômicos e também para a arena internacional.
Fórum CNN
Os artigos publicados pelo Fórum CNN buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo.
Os textos publicados no Fórum CNN não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
Sugestões de artigos devem ser enviadas a forumcnn@cnnbrasil.com.br e serão avaliadas pela editoria de especiais.
