Reduzir o consumo nocivo de álcool exige colaboração

Nesta semana, no Rio de Janeiro, um grupo de atores relevantes se reúne com o objetivo de discutir estratégias para reduzir o consumo nocivo de álcool, uma meta na qual a indústria cervejeira tem feito grandes investimentos. A cerveja já é uma bebida de baixo teor alcoólico, e ampliar a oferta de versões com teor reduzido de álcool e sem álcool pode ajudar a diminuir o consumo total de etanol. Pesquisas realizadas no Reino Unido e na Espanha mostram que a maior disponibilidade dessas opções levou parte dos consumidores a substituir cervejas tradicionais por alternativas com menor teor alcoólico, reduzindo o consumo nocivo de álcool nesse processo.
É por isso que a Organização Mundial da Saúde tem incentivado o desenvolvimento e a expansão de bebidas com baixo teor ou sem álcool como forma de reduzir o consumo nocivo de álcool. Embora qualquer bebida alcoólica possa ser consumida de forma abusiva, opções de menor graduação apresentam menos riscos em comparação às de maior teor alcoólico.
No Brasil, o mercado de cerveja sem álcool cresce cerca de 20% ao ano, impulsionado por inovação e por campanhas que promovem essas alternativas. Na última década, o setor cervejeiro brasileiro ampliou de forma significativa seus investimentos em inovação, com o desenvolvimento de novas tecnologias e de um portfólio mais amplo de produtos, incluindo cervejas de menor teor alcoólico, sem álcool e sem glúten. Mais recentemente, a produção de cerveja sem álcool no Brasil cresceu mais de 500% entre 2023 e 2024, evidenciando a velocidade e a escala dessa transformação. Essa combinação de inovação, escala e maturidade de mercado faz do Brasil um dos ambientes mais relevantes do mundo para discutir estratégias eficazes de enfrentamento dos desafios relacionados ao álcool.
Esse avanço tem exigido investimentos significativos em tecnologia, novos equipamentos e desenvolvimento de processos produtivos. O resultado é um mercado com mais opções para o consumidor, permitindo reduzir o consumo de álcool sem abrir mão de sabor ou qualidade.
Os resultados em saúde pública também são claros. Entre 2010 e 2019, a taxa de mortalidade atribuível ao álcool, ajustada por idade, caiu mais de 20%, enquanto os anos de vida perdidos por morte prematura e incapacidade atribuíveis ao álcool diminuíram mais de 18% – uma redução que supera o declínio global geral de mortes e de anos de vida perdidos por morte prematura e incapacidade no mesmo período. Segundo o relatório World Health Statistics 2025 da OMS, embora a maioria dos indicadores de saúde relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável tenha melhorado, “apenas um – a redução do consumo de álcool – está no caminho para atingir a meta de 2030 em nível global”.
No Brasil, os dados de saúde também mostram avanços positivos nos últimos anos. As internações atribuíveis ao álcool caíram 52% entre 2010 e 2023, enquanto o consumo per capita de álcool diminuiu 10,4% entre 2010 e 2019, reforçando a trajetória positiva do país.
A indústria cervejeira tem feito investimentos significativos para reduzir o consumo nocivo de álcool, e os resultados mostram que esses esforços estão funcionando. A experiência também demonstra que as empresas podem oferecer soluções concretas em áreas de interesse coletivo, sobretudo quando a inovação é combinada com iniciativas de consumo responsável.
No Brasil e em todo o mundo, as empresas vêm fortalecendo programas de consumo responsável, com investimentos em educação, conscientização e parcerias voltadas à promoção de comportamentos de consumo mais conscientes. Essas iniciativas complementam a inovação em produtos e contribuem para uma abordagem mais abrangente na resposta aos desafios relacionados ao álcool.
Em todo o mundo, empresas privadas têm papel importante no avanço das metas de saúde pública. A indústria farmacêutica foi essencial para levar as vacinas contra a Covid‑19 ao mercado em tempo recorde, apoiada em décadas de investimento em pesquisa e desenvolvimento. No setor de alimentos, empresas têm investido em inovação agrícola e em alternativas sustentáveis para enfrentar desafios globais de nutrição. Na saúde global, muitas organizações não governamentais são financiadas por patrocínios comerciais, parcerias estratégicas que tornam possível ampliar programas em escala.
A ONU descreve esse tipo de contribuição do setor privado para objetivos públicos como a capacidade de “fazer o bem enquanto se vai bem”. É por isso que a organização adotou uma abordagem de “toda a sociedade” em sua recente declaração política sobre doenças crônicas não transmissíveis, incluindo a redução do consumo nocivo de álcool. A ONU reconhece que cada organização – seja governo, sociedade civil ou empresa – participa do debate público com seus próprios interesses e valores, e que todas podem contribuir de forma positiva para objetivos compartilhados.
Sim, a indústria cervejeira quer prosperar. Mas essa prosperidade anda de mãos dadas com o desenvolvimento de produtos com baixo teor alcoólico e sem álcool, que contribuem para as metas internacionais de redução do consumo nocivo de álcool.
Se quisermos construir sociedades mais saudáveis, precisamos envolver o setor privado como parte da solução. Em um mundo em que os desafios de saúde pública excedem a capacidade de os governos atuarem sozinhos, excluir empresas dispostas a contribuir está longe de ser o melhor caminho.
Uma abordagem equilibrada deve reconhecer os riscos, mas também o potencial de contribuição de todos os atores envolvidos.
Fórum CNN
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