A corrida pelos minerais críticos exige também construir demanda
Em artigo à CNN Infra, Rinaldo Mancin argumenta que não basta minerar; é preciso construir demanda para sustentar novos projetos

A corrida pelos minerais críticos tornou-se um dos eixos centrais da nova geopolítica. Países que antes se preocupavam quase exclusivamente com o acesso ao petróleo agora disputam lítio, cobalto, terras raras e cobre com uma urgência estratégica que redefine alianças, fluxos de capital e políticas industriais inteiras.
O debate, porém, tem se concentrado no lado da oferta, nas reservas, nas licenças de exploração e na abertura de minas. Essa ênfase é compreensível, mas insuficiente.
A experiência recente de alguns países oferece um alerta oportuno e rigoroso para o Brasil. A soberania mineral depende menos de acumulação e mais de fluxo. Demonstrar domínio sobre o fornecimento, seja por reservas comprovadas ou por licenças de extração, sem estruturar uma base de consumo doméstico ou mercados de destino garantidos é um erro estratégico clássico.
Na prática, é o equivalente a erguer uma planta industrial sofisticada sem possuir uma carteira de clientes. O resultado é uma estrutura ociosa, vulnerável à volatilidade de preços externos e incapaz de sustentar o ciclo econômico que a mineração, sozinha, não consegue fechar.
Nos últimos anos, os EUA avançaram significativamente nas políticas de minerais críticos. Licenciaram novos projetos de mineração, apoiaram investimentos em processamento e ampliaram iniciativas de estocagem estratégica, como o Project Vault, voltado à criação de uma reserva de minerais críticos e terras raras.
Na União Europeia, houve movimento na mesma direção com o Critical Raw Materials Act e a RESourceEU, estratégias voltadas a ampliar o acesso do bloco a minerais críticos. O resultado, no entanto, ainda é pouco expressivo. Os mercados de minerais críticos estão em desequilíbrio.
A oferta supera a demanda, os preços estão deprimidos e o capital privado reluta em financiar novos projetos. A razão é simples e implacável. Investidores não financiam minas e plantas de processamento de alto custo se não conseguem enxergar compradores confiáveis e de longo prazo.
Sem uma demanda ancorada no mercado interno, os novos projetos ficam vulneráveis à hegemonia asiática nos mercados de minerais críticos. Os players asiáticos lideram a produção e exercem controle discricionário sobre os preços globais.
Ao inundar ou restringir o mercado conforme suas conveniências estratégicas, mantêm os preços em patamares que inviabilizam a competitividade ocidental e tornam qualquer tentativa de independência um risco financeiro proibitivo para o capital privado. Esse tipo de demanda permanece cronicamente ausente.
Isso desestimula investimentos e interrompe a viabilidade econômica de novos projetos. Em 2024, os Estados Unidos responderam por apenas 4,5% do consumo global de níquel, 3,6% de cobalto, 1,7% de terras raras e 3% de gálio.
A União Europeia também enfrenta um gargalo semelhante. Apesar dos compromissos ambiciosos com a transição energética, o bloco detém participação marginal no consumo de minerais brutos ou refinados para processamento industrial.
A UE importa entre 70% e 100% dos minerais críticos que utiliza, mas sua capacidade de refino doméstico é tão limitada que não consegue atuar como polo de demanda capaz de ditar preços ou sustentar novas minas fora do eixo asiático.
Esses números refletem uma estrutura comercial em que tanto os EUA quanto a União Europeia priorizam a importação de bens finais, como baterias prontas e painéis solares, em vez de processar matérias-primas no próprio território.
Essa escolha os torna profundamente dependentes de cadeias de suprimento estrangeiras e pouco relevantes como polos de demanda capazes de sustentar a construção de alternativas globais resilientes.
As compras governamentais para fins de defesa, tratadas como âncora do mercado, também não resolvem o problema. O setor de defesa responde por apenas cerca de 10% das baterias produzidas e por frações ainda menores da maioria dos outros minerais críticos.
Projetos dimensionados para atender exclusivamente às necessidades militares raramente atingem escala suficiente para se tornarem competitivos em custo ou atrair capital privado em volume relevante.
A dominância chinesa nas cadeias de minerais críticos foi construída pela integração vertical entre oferta e demanda, e não apenas pelo controle do lado da oferta. A China garantiu reservas e refino e criou consumidores.
Ao escalar sua indústria de veículos elétricos, como principal vetor e apoiada por pelo menos US$ 230 bilhões em subsídios governamentais entre 2009 e 2023, Pequim gerou uma demanda interna e global capaz de absorver toda a cadeia que havia montado, da mina ao produto final.
Esse modelo, da mina ao bem manufaturado, confere à China liderança técnica, poder de precificação e poder de mercado. Enquanto outros países debatem como reduzir a dependência chinesa em minerais, as cadeias inteiras já estão ancoradas em empresas, padrões tecnológicos e capacidades industriais construídas em território chinês.
Construir demanda significa estimular as indústrias que consomem minerais críticos em grande volume em conexão com a política de mineração. O setor de veículos elétricos é o exemplo mais direto.
Enquanto um carro de combustão interna requer cerca de 32 quilogramas de minerais críticos, um veículo elétrico equivalente demanda aproximadamente 210 quilogramas, mais de seis vezes o volume exigido pelo primeiro.
Levar mais veículos elétricos ao mercado atende a uma meta climática e cumpre função estratégica ao estabilizar preços de minerais, justificar investimentos em minas e refinarias e permitir que toda a cadeia de valor opere com previsibilidade.
Incentivos para que indústrias de defesa, semicondutores e manufatura avançada priorizem o fornecimento de minerais de origem confiável criam mercados diferenciados que premiam a procedência responsável.
Padrões de conformidade rastreáveis, com critérios ambientais, sociais e de direitos humanos verificáveis, podem transformar a origem do mineral em ativo comercial e em referência regulatória.
O Brasil parte de uma posição privilegiada. Tem reservas expressivas de lítio, nióbio, grafita, terras raras, cobre e níquel. Conta com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, que confere ao minério aqui processado uma pegada de carbono muito inferior à de concorrentes dependentes de carvão.
Tem ainda um capital reputacional em temas climáticos que, se sustentado por práticas concretas, pode transformar nossos minerais em referência de mineração responsável nas cadeias globais.
São ativos raros, e é importante reconhecê-los. Mas reconhecê-los não é suficiente para fechar o ciclo. O Brasil já deu passos importantes na construção de uma proposta de política de minerais críticos, e o debate internacional travado em outros contextos oferece uma oportunidade valiosa para aprofundá-la.
A experiência de países que avançaram fortemente no lado da oferta mostra que reservas, licenças e capacidade de exportação, embora essenciais, ganham muito mais força quando acompanhadas de uma demanda estruturada.
Incorporar essa dimensão à política pública, com a mesma energia dedicada à gestão dos recursos no subsolo, é o passo seguinte para que o Brasil ocupe posição mais forte nessa nova geopolítica.
Na prática, isso significa avançar em frentes que ainda são tratadas separadamente. Uma delas é o desenvolvimento gradual de uma indústria nacional de manufatura de componentes, como químicos de bateria, ligas especiais e ímãs permanentes para turbinas eólicas, capaz de ampliar o aproveitamento doméstico dos minerais extraídos no país e de adicionar etapas de valor à cadeia já existente.
Outra é a criação de mecanismos de incentivo, como créditos tributários, contratos de longo prazo e compras governamentais estratégicas, que sinalizem ao mercado a existência de um comprador sólido e consistente, capaz de dar previsibilidade a toda a cadeia.
E uma terceira, talvez a mais estrutural, é a integração deliberada entre política de mineração e política industrial.
A soberania mineral se consolida da mina à fábrica, passa pelo laboratório e alcança a política de compras públicas.
O ciclo econômico que a mineração pode ativar se completa quando há um ecossistema industrial capaz de receber, transformar e consumir o que o território oferece.
O Brasil reúne, como poucos países, as condições para construir esse ecossistema. A matéria-prima está no subsolo, a matriz elétrica oferece energia limpa e a credencial climática ainda depende de consolidação.
A experiência recente é um aviso valioso. É possível avançar no lado da oferta e ainda assim ficar para trás na disputa por minerais críticos porque a demanda não foi construída. Capital privado financia o futuro com base em mercados previsíveis, mais do que em reservas geológicas.
Em setores estratégicos, mercados previsíveis resultam de políticas ativas. Com a matéria-prima no subsolo, a energia limpa na matriz elétrica e a necessidade de consolidar sua credibilidade em padrões ESG, o Brasil tem tudo o que precisa. Falta conectar esses ativos a uma política industrial capaz de gerar os consumidores que darão sentido econômico e geopolítico a essa posição.
Não basta ser fornecedor do século XXI. O Brasil precisa ser protagonista no mercado que se forma em torno desses recursos.
*Rinaldo Mancin é engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB), Consultor em Mineração e Sustentabilidade, foi Diretor por 20 anos do Instituto Brasileiro de Mineração.



