Expansão da energia solar elevou risco do mercado livre, diz CEO da Bolt

Segundo Gustavo Ayala, expansão acelerada da fonte solar criou um novo risco de modulação que levou parte das empresas a assumir exposições financeiras incompatíveis com sua capacidade

Robson Rodrigues, da CNN Brasil, São Paulo
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A expansão acelerada da geração solar no Brasil alterou profundamente a dinâmica do mercado livre de energia e contribuiu para a crise financeira enfrentada por diversas comercializadoras nos últimos anos. A avaliação é de Gustavo Ayala, CEO do Grupo Bolt, que atribui parte das dificuldades do setor ao chamado “risco de modulação” provocado pela rápida transformação da matriz elétrica brasileira.

Em entrevista ao Alta Voltagem, programa de TV da CNN, Ayala lembrou que, há cerca de dez anos, a participação da energia solar no sistema era pequena. Com os incentivos ao setor, porém, o país passou por uma expansão acelerada da fonte, chegando a adicionar mais de 1 GW de capacidade instalada por mês em determinados períodos.

Segundo ele, essa mudança criou um novo desafio operacional e comercial para o mercado de energia.

“Essa solar toda causou um risco diferente no setor de ter excedente de energia durante o dia em que o ONS precisa cortar o excesso, enquanto que no final do dia, no pôr do sol, o gerador precisa comprar essa energia para atender seus clientes. E muitas comercializadoras tomaram este risco sem um remédio para essa exposição financeira”, diz Ayala ao explicar o risco de modulação.

De acordo com o executivo, o problema está relacionado ao perfil de geração da fonte solar. Durante as horas de maior insolação, a elevada produção pode gerar excedentes e levar o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) a determinar cortes de geração, conhecido pelo jargão como "curtailment". No fim do dia, quando a produção solar acaba e o consumo permanece elevado, agentes precisam recorrer ao mercado para recompor sua posição, ficando expostos à volatilidade dos preços.

Segundo o executivo, essa dinâmica produziu oscilações muito superiores às esperadas quando diversos contratos foram estruturados. “As oscilações chegaram a ser da ordem de 20 vezes o que havia sido precificado”, disse.

Na avaliação de Ayala, parte das comercializadoras assumiu esse risco sem mecanismos adequados de proteção financeira, o que contribuiu para o aumento das dificuldades enfrentadas por empresas do setor.

Nos últimos anos, uma série de comercializadoras entrou em recuperação judicial ou passou a enfrentar graves dificuldades financeiras. Levantamento realizado pela CNN aponta que os passivos acumulados pelas empresas em crise podem superar R$ 10 bilhões, desencadeando uma ampla reavaliação de risco por bancos, investidores e demais agentes do mercado.

Para o executivo, uma das alternativas para reduzir esse tipo de exposição no futuro é ampliar o uso de sistemas de armazenamento por baterias.

Segundo Ayala, esses equipamentos permitiriam armazenar o excedente de geração durante o dia e disponibilizar energia no período da noite, reduzindo o chamado risco de modulação e suavizando parte da volatilidade que hoje afeta o mercado livre de energia.