Tradener entra com pedido de recuperação judicial com dívida de R$ 1,7 bi

Empresa afirma que mudanças regulatórias, volatilidade do PLD e decisões judiciais agravaram desequilíbrio financeiro e que busca preservar operações no setor elétrico

Robson Rodrigues, da CNN Brasil, São Paulo
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A Tradener, considerada a primeira comercializadora de energia elétrica do Brasil, entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo um passivo de R$ 1,69 bilhão, segundo ação protocolada nesta terça-feira (20) na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba (PR).

Segundo o documento, à qual a CNN teve acesso, o pedido envolve também as empresas D.G.W. Participações, Fraternita Participações e Tradener Serviços em Energia.

Entre os maiores credores na recuperação judicial aparecem instituições financeiras, comercializadoras e grandes consumidores de energia. Os principais rombos identificados na lista são a Atlas Energia (R$ 132,37 milhões), UBS Brasil Corretora (R$ 92 milhões), Bradesco (R$ 62,6 milhões), Atlantic Nickel (R$ 6,8 milhões), Comerc (R$ 4,52 milhões), entre outras.

O grupo afirma que a crise financeira foi provocada por mudanças regulatórias no mercado livre de energia, aumento da volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), descasamentos entre curvas de carga e geração e decisões judiciais que agravaram a situação operacional da companhia.

A companhia afirma que desembolsou cerca de R$ 180 milhões desde 2024 por causa dessas distorções e estima que apenas em março de 2026 teria prejuízo de aproximadamente R$ 47 milhões caso fosse obrigada a liquidar integralmente diferenças na CCEE segundo as regras atuais.

"Mais do que mera restrição patrimonial episódica, as medidas determinadas passaram a ameaçar concretamente a própria continuidade da atividade empresarial, com potencial de desencadear rescisões em cadeia, perda definitiva da carteira operacional, agravamento exponencial do passivo e esvaziamento completo da atividade econômica que se busca preservar", diz o documento.

A companhia relata que decisões do Tribunal de Justiça do Paraná também agravaram a crise ao suspender efeitos de medidas cautelares anteriormente concedidas e determinar retenção integral de recursos mantidos na CCEE. Segundo a Tradener, isso comprometeu seu fluxo de caixa e elevou o risco de paralisação das operações.

Credores

À CNN, os sócios do escritório Madrona — Luciano Velasque, da área de contencioso, mediação e arbitragem, e Rodrigo Machado, especialista em infraestrutura e direito público —, que representam um grupo de credores, afirmam que o pedido de recuperação judicial já era esperado pelo mercado diante da deterioração do cenário no setor elétrico.

Segundo eles, a medida cautelar obtida pela Tradener para realizar entregas de energia em submercados diferentes dos previstos nos contratos foi recebida com forte resistência pelos agentes do mercado. “É uma ingerência clara no contrato”, afirmou Velasque. Na avaliação dele, a estratégia buscava consolidar no Judiciário o entendimento de que a energia poderia ser tratada de forma uniforme, independentemente das condições originalmente pactuadas entre as partes.

Machado lembra que uma série de comercializadoras já recorreram à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas, mas o histórico mostra que elas não conseguem se reerguer. Para ele, o movimento representa necessariamente uma insegurança estrutural do mercado e levanta dúvidas sobre até que ponto o instrumento da recuperação judicial é adequado para companhias expostas à dinâmica e à velocidade financeira do setor elétrico.

Wagner Ferreira, sócio do escritório Caputo Bastos e Serra Advogados, que também representa parte dos credores, avalia que o caso exige cautela por parte do Judiciário diante dos possíveis reflexos sobre o mercado regulado de energia. Segundo ele, a Tradener mantém contratos com permissionárias, concessionárias de pequeno porte e cooperativas de distribuição, o que pode gerar impactos indiretos nas tarifas pagas pelos consumidores.