Vale do Lítio completa três anos com desenvolvimento e gargalos em MG

De 2023 para cá, foram atraídos R$ 6,9 bilhões em investimentos privados, com estimativa de cerca de 6 mil empregos gerados no Vale do Jequitinhonha

Daniela Mallmann, da CNN Brasil, em Belo Horizonte
Compartilhar matéria

Lançado em 2023, o projeto Vale do Lítio é resultado da articulação de diversos órgãos do estado de Minas Gerais e municípios, para desenvolver as cidades do Norte e Nordeste do estado em torno da cadeia produtiva do lítio. Políticas públicas com foco na atração de empresas e investimentos, qualificação de mão de obra, incentivo à tecnologia e fornecimento de infraestrutura são os pilares do projeto.

O Vale do Lítio é composto por 17 municípios que abrigam a maior reserva de lítio do país: Araçuaí, Salinas, Itinga, Divisa Alegre, Águas Vermelhas, Cachoeira de Pajeú, Coronel Murta, Francisco Badaró, Fruta de Leite, Itaobim, Jenipapo de Minas, Novorizonte, Pedra Azul, Ponto dos Volantes, Rubelita, Taiobeiras, Virgem da Lapa.

Entre elas, Araçuaí, com pouco mais de 34 mil habitantes, é uma das principais cidades do Vale do Jequitinhonha, fica há mais de 500 quilômetros de distância da capital mineira, Belo Horizonte. Historicamente marcada pelos baixos índices de desenvolvimento social, pobreza e seca, a região é considerada o epicentro da extração de lítio no Brasil.

A CBL (Companhia Brasileira de Lítio) já opera na região há 34 anos. O mineral é extraído da Mina da Cachoeira, em galerias subterrâneas de cerca de 300 metros de profundidade e que se estendem por quase 20 quilômetros de extensão. A extração do lítio no local tem potencial para acontecer por mais 40 anos.

Segundo o Governo do Estado, a região sempre teve o potencial de desenvolvimento em torno do mineral, mas o projeto do Vale do Lítio surgiu de fato após o aumento da demanda internacional e mudanças na legislação brasileira que flexibilizou a exportação do lítio. Em maio de 2023, o Governo mineiro lançou o projeto na Nasdaq, maior bolsa de valores do mundo, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, permitindo o avanço econômico de municípios da região em diversas frentes.

"O Vale do Jequitinhonha é uma região de Minas Gerais comindicadores econômicos um pouco pior do que a média do estado, então a gente observou uma oportunidade de termos uma ação integrada do Governo de Minas para levar mais oportunidades para população da região. Então nós temos cursos de formação, de mão-de-obra, trilhas do futuro. Começamos um trabalho de identificar as necessidades de infraestrutura e procurando trazer oportunidades de agregação de valor na cadeia produtiva do lítio especialmente pra região, então temos mais de R$13 milhões sendo investidos em projetos de pesquisa.", declarou Frederico Amaral e Silva, Secretário Adjunto do Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais.

Uma das multinacionais que escolheu o Vale do Lítio para atuar foi a canadense Sigma Lithium, que instalou a planta de exploração em 2023 e hoje é uma das principais fornecedoras de materiais pré-químicos essenciais para a transição energética. Mas em contrapartida, diversos projetos sociais são aplicados para o desenvolvimento da região e da população do Vale.

"Dentro do nosso processo de licenciamento ambiental vem algumas condicionantes que incluem algumas necessidades para que as empresas façam esses projetos sociais para que as pessoas de fato da região tenham essas oportunidades", acrescentou Frederico.

Ainda segundo o governo do estado, o PIB (Produto Interno Bruto) do Vale do Jequitinhonha alcançou R$ 12,56 bilhões em 2023, de acordo com os últimos dados divulgados pelo IBGE. Entre as cidades com atividades minerárias ligadas ao lítio, Araçuaí e Itinga, o PIB dobrou após o lançamento do projeto, com aumento de 108,1% e 91,3% entre 2021 e 2023, respectivamente

No mesmo período, o PIB per capita de Araçuaí cresceu 122,7% e Itinga 109,5%. Além disso, em números absolutos, Araçuaí apresentou o maior PIB per capita da região (R$ 31,5 mil), superando até mesmo municípios como Téofilo Otoni, que possui uma população quatro vezes maior.

“Minas Gerais tem convertido o potencial do lítio em resultados diretos para a população do Jequitinhonha, com mais empregos, rendas e oportunidades. Observamos também uma diversificação na economia, uma vez que, a partir dos investimentos atraídos, outros setores, como serviços e comércio, também se tornam janelas de oportunidades para empreendedores da região”, afirma a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa.

A partir do projeto Vale do Lítio, o Governo de Minas, por meio da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais), já destinou mais de R$ 13,2 milhões em projetos ligados ao mineral crítico. Grande parte das pesquisas são desenvolvidas pela UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri) na própria região.

Desde a implementação do Vale do Lítio, em 2023, foram atraídos R$ 6,9 bilhões em investimentos privados, com previsão de cerca de 6 mil empregos gerados. Dentre os aportes recentes está o investimento de R$ 220 milhões da empresa indiana Altman na CBL (Companhia Brasileira de Lítio) para a ampliação das operações da planta de refinaria da empresa localizada em Divisa Alegre, no Norte de Minas.

De acordo com os dados divulgados pela Secretaria de estado de Desenvolvimento Econômico, 9.410 novas empresas foram abertas entre janeiro de 2023 e março de 2026 nos 17 municípios prioritários do Vale do Lítio. Em 2024, Minas Gerais bateu recorde na produção do metal, foram produzidas 944 mil toneladas de lítio, montante quase quatro vezes maior que o registrado em 2023. Mas apesar do crescimento, o Vale do Litio ainda se depara com desafios e gargalos.

"Nós temos trabalhado para melhoria da malha rodoviária da região do entorno para escoamento da produção, mas também os grandes desafios que talvez sejam não só mineiros mas nacionais, de agregar mais valor nessa cadeia produtiva, almejando quem sabe, ter a produção de baterias aqui no estado de Minas Gerais. Então temos desafios de financiamento para empresas, algumas questões de desenvolvimento tecnológico, etapas de mineração, mas especialmente para agregação de valor e verticalização na cadeia produtiva almejando quem sabe produzir baterias aqui no Brasil." concluiu Frederico.