Eduardo Bolsonaro reitera críticas à China, mas diz querer encontrar embaixador


Guilherme Venaglia, Murillo Ferrari e Leandro Magalhães Da CNN Brasil, em São Paulo e em Brasília*
19 de março de 2020 às 18:53 | Atualizado 19 de março de 2020 às 19:32
 
O deputado federal Eduardo Bolsonaro reiterou suas críticas à condução da pandemia do coronavírus pelo governo da China nesta quinta-feira (19), em entrevista exclusiva à CNN Brasil

O parlamentar afirmou que se baseou em fontes da imprensa nacional e internacional para afirmar que o regime chinês dificultou a identificação da COVID-19, em situação semelhante ao acidente nuclear da usina de Chernobyl durante o período da União Soviética.

"Todo mundo fala o que eu falei nessa comparação entre Chernobyl e o coronavírus. O Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura, falou isso e também sofreu críticas da embaixada da China no Peru. A China está preocupada em não levar esse questionamento sobre onde veio o vírus ao mundo", disse o deputado.

Eduardo Bolsonaro também fez coro à fala do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de que o embaixador chinês Yang Wanming deve desculpas ao presidente Jair Bolsonaro por uma fala que compartilhou nas redes sociais com críticas ao chefe do governo brasileiro.

"O momento é de colocar bola no chão, exigir um pedido de desculpas porque o presidente não tem nada a ver com isso e lembrar não posso ser cerceado no meu direito de falar", disse o deputado, que reiterou que não se arrependeu e não acredita que deva desculpas ao governo chinês.

"Eu não me arrependi. Na verdade, a nota [divulgada por ele na tarde desta quinta] foi uma nota de esclarecimento e não um pedido de desculpa", afirmou. Ele também afirmou que "dispensa" o pedido de desculpas feito ao embaixador Wanming pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). "Se formos falar de representatividade, eu tenho 25 vezes mais votos que ele [Maia]", disse.

Eduardo Bolsonaro afirmou que sua fala deve ser vista como a de um deputado federal e não como a do filho do presidente da República. "Pessoas tentam se aproveitar politicamente da minha fala para gerar um desgaste no governo. Eu tenho meu senso de responsabilidade, mas eu sou um deputado eleito como todos os outros".

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Diplomacia

Apesar das críticas, o deputado federal afirma que pretende se encontrar com o embaixador para conversar sobre o que chamou de "mal estar". "Acredito que mais cedo ou mais tarde a gente vá se encontrar e passada toda essa turbulência, nós vamos ter uma bate papo bem amistoso", afirmou.

Qu Yuhui, ministro-conselheiro da Embaixada da China, afirmou nesta quinta à CNN Brasil que o país considera insuficientes as falas manifestadas pelo Brasil sobre o imbróglio e que o assunto é acompanhado pelas principais autoridades chinesas, incluindo o presidente Xi Jinping.

“Não era o que queríamos. O Ministério das Relações Exteriores tem que saber de quem partiu a provocação. Essa é a premissa. O que pedimos é um pedido de desculpa do deputado Eduardo Bolsonaro mas não há sinal de que isso será feito”, afirmou.

Comércio

Na entrevista à CNN Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que não acredita que as relações comerciais entre Brasil e China possam ser prejudicadas por esse desentendimento.

"O Brasil e a China têm uma relação madura, uma relação de décadas e esse tipo de relação comporta pontos de diferentes e críticas pontuais. Se a gente parar para ver, quantos parlamentares criticam, por exemplo, os Estados Unidos, que são nosso segundo maior parceiro comercial? E nem por isso se fala em abertura de qualquer tipo de boicote ou retaliação".

Rodrigo Maia não comenta

Procurado sobre as declarações de Eduardo Bolsonaro, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), preferiu não se manifestar e escolheu o líder do PSDB, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), para falar em seu nome.

À CNN Brasil, Sampaio disse que as afirmações de Eduardo Bolsonaro são "inacreditáveis". "O mundo vive uma desaceleração da economia, é inacreditável criar problema com nosso maior parceiro. É no mínimo falta de inteligência. O presidente Rodrigo Maia não atua como primeiro-ministro, e sim como alguém que cria pontes para o bem do país. Agiu bem em pedir desculpas em nome do Parlamento".

Araújo critica embaixador

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, criticou o embaixador da China no Brasil por ter retuitado em sua conta o comentário de um seguidor que chamava a família Bolsonaro de veneno, antes de dizer que as posições de Eduardo não refletem as do governo brasileiro.

Em uma nota divulgada em sua conta no Twitter, Araújo concentra o texto em críticas aos chineses.

"As críticas do deputado Eduardo Bolsonaro à China, feitas também em postagens ontem à noite, não refletem a posição do governo brasileiro. Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele ofendeu o chefe de Estado chinês. A reação do embaixador foi, assim, desproporcional e feriu a boa prática diplomática", escreveu Araújo.

*Colaborou Leandro Rezende, do Rio