Distanciamento é privilégio da classe média e em favelas na Índia, impossível

Para quem mora nas comunidades carentes, é praticamente impossível manter distância em razão do elevado número de pessoas

Priyali Sur e Esha Mitra, da CNN
30 de março de 2020 às 10:45
Os trabalhadores indianos enfrentam um dilema doloroso: sair para trabalhar e correr o risco de contrair uma infecção, ou ficar em casa e lidar com a fome
Foto: Danish Siddiqui - 30.mar.2020/ Reuters

Por dois dias, Jeetender Mahender, dalit (base da pirâmide social indiana) de 36 anos e funcionário do departamento de saneamento, não deixou a comunidade onde a família dele mora em Valmiki, ao norte de Mumbai, na Índia, exceto para ir ao banheiro.

A situação de Mahender é desesperadora. Na pequena casa onde mora, não tem água corrente ou banheiro, e a comida está acabando. Quando ele não vai ao trabalho, não recebe.

Mahender tenta obedecer ao isolamento nacional de 21 dias determinado pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, com o objetivo de frear a disseminação do novo coronavírus pelo país de 1,3 bilhão de pessoas. A Índia já registrou 1.024 casos confirmados da doença e 27 mortes. “O distanciamento social não é apenas para os doentes, mas para todas as pessoas, incluindo você e sua família”, disse Modi em um discurso à nação na semana passada.

Essa medida pode funcionar para as classes alta e média do país, que conseguem ficar reclusas em seus condomínios e residências, se alimentar dos produtos estocados na dispensa e trabalhar de casa, graças à tecnologia.

Mas o caos que vem assolando a Índia nos últimos dias revelou que, para 74 milhões de pessoas - cerca de um sexto da população - que vivem aglomeradas nas favelas do país, praticar o distanciamento social é física e economicamente impossível.

“As ruas são tão estreitas que quando cruzamos com alguém, não podemos deixar de esbarrar uns nos outros”, afirmou Mahender. “Todos saímos para ir ao banheiro comunitário, e há 20 famílias que vivem perto da minha casa. Vivemos praticamente todos juntos. Se um de nós ficar doente, todos ficaremos”, disse o indiano.

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Ao menos um morador de comunidade de Mumbai já testou positivo para a COVID-19. Enquanto aumenta o pânico nas camadas sociais mais vulneráveis do país, milhares de trabalhadores migrantes tentam sair das favelas e voltar para suas casas nas áreas rurais da Índia, seja por ônibus ou mesmo a pé, podendo levar o vírus para o interior.

Em um discurso em rádio nesse domingo (29), Modi reconheceu o caos que o isolamento total causou aos mais pobres e pediu perdão à população. Mas ele também implorou para que as pessoas entendam que não há outra opção.

1 banheiro para 1.440 pessoas

A busca por água é um dos principais motivos pelos quais os indianos mais pobres precisam sair de casa todos os dias.

Sia, funcionária da área de construção e moradora de uma favela em Gurugram, perto de Nova Déli, acorda às 5h e desobedece ao pedido de Modi para ficar em casa. O motivo? Ela precisa andar 100 metros até um tanque de água que abastece sua comunidade de 70 migrantes.

Ela não é a única. A maioria das mulheres que trabalham em um canteiro de obras na região e moram na favela tomam banho juntas todas as manhãs e coletam a água que será utilizada ao longo do dia. Sem chuveiros ou banheiros em suas casas, a torneira comunitária é a única fonte de água dessas pessoas.

A Missão Índia Limpa, lançada pelo governo indiano em 2014 para melhorar a infraestrutura e acabar com a defecação a céu aberto no país, afirmou que 100% das casas no país agora têm acesso a banheiros.

Mas Puneet Srivastava, diretor político da ONG WaterAid India, disse que o foco do projeto tem sido construir banheiros domésticos, e um número considerável de casas em comunidades carentes não foi incluído.

Em Dharavi, Mumbai, por exemplo, há apenas um banheiro para 1.440 moradores, de acordo com um estudo recente. Além disso, 78% dos banheiros comunitários nas favelas de Mumbai não têm abastecimento de água, segundo uma pesquisa de 2019 da Corporação Municipal da Grande Mumbai

No domingo, o secretário Durga Shanker Mishra, do Ministério de Habitação e Assuntos Urbanos, disse que “100% dos banheiros na Índia estão cobertos. Se as pessoas têm acesso a banheiros particulares nas favelas ou não, não importa. Elas podem usar os comunitários”.

Sania Ashraf, epidemiologista que trabalha com água, saneamento, higiene e doenças respiratórias, disse que a Missão Índia Limpa aumentou o número de banheiros particulares, assim como públicos comunitários ou pagos. Contudo, com a pandemia do novo coronavírus, ter acesso a um banheiro público não adianta se ele não estiver limpo. Além disso, ventilação insuficiente pode reter a contaminação e “facilitar a transmissão do vírus”, disse Ashraf.

Isso é especialmente preocupante diante da evidência de que pacientes doentes eliminam o vírus através das fezes, levantando a possibilidade de transmissão da doença em banheiros comunitários e locais onde há defecação a céu aberto.

Trabalhadores em risco

Outra razão pela qual os moradores das comunidades não conseguem ficar isolados é porque eles precisam trabalhar. Os trabalhadores migrantes normalmente ganham entre 138 e 449 rúpias indianas (cerca de 1,84 a 5,97 dólares) por dia, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“Eles pertencem a um setor desorganizado e não recebem se não forem trabalhar”, afirmou o economista Arun Kumar. “Redes de fornecimento fecharam. Os empregos se perderam. As pessoas não têm dinheiro para comprar os produtos mais essenciais. E, diferente dos ricos, eles não podem estocar alimentos. Eles compram para o dia, mas agora as prateleiras estão vazias.”

Sonia Manikraj, professora de 21 anos que vive na comunidade de Dharavi, disse: “Tenho que sair para comprar comida e, desde que as lojas aqui passaram a abrir apenas das 11h às 15h e as avenidas são muito estreitas, sempre há muita gente”.

Consequentemente, os trabalhadores enfrentam um dilema doloroso: sair para trabalhar e correr o risco de contrair uma infecção ou ficar em casa e lidar com a fome.

Alguns deles não têm escolha. Funcionários da área de limpeza, por exemplo, são considerados essenciais e foram excluídos do isolamento nacional.

“Eles são convocados ao trabalho todos os dias”, contou Milind Ranade, fundador da Kachra Vahatuk Shramik Sangh, uma organização com base em Mumbai focada em questões trabalhistas. “Algumas pessoas coletam lixo hospitalar e depois voltam e vivem nessas favelas lotadas.”

Eles não recebem qualquer tipo de proteção, como máscaras ou luvas, disse Ranade, e não há uma campanha para educá-los sobre os perigos da transmissão do novo coronavírus. “O que vai acontecer quando eles ficarem doentes?”, questionou.

O pacote de estímulo econômico do governo - de 22,5 bilhões de dólares - inclui cobertura médica de 5 milhões de rúpias (66,45 dólares) por pessoa para os funcionários que estão na linha de frente no combate à doença, como enfermeiras, médicos, paramédicos e funcionários de limpeza em hospitais públicos.

“Pode cobrir os trabalhadores da área de saneamento, mas e todos aqueles que vivem perto deles nas favelas e correm o mesmo risco de contrair a doença?”, ressaltou Raju Kagada, líder do sindicato dos trabalhadores de saneamento em Mumbai.

Arun Kumar afirmou que mais testes de COVID-19 ajudariam. Até 29 de março, a Índia realizou 34.931 testes, segundo o Conselho Indiano de Pesquisa Médica - 19 testes a cada um milhão de pessoas. O economista disse que os testes nos hospitais e laboratórios privados no país custam 4.500 rúpias (60 dólares), enquanto os testes gratuitos nos hospitais públicos são muito limitados.

Mahender trabalha na limpeza de um conjunto residencial em Mumbai e ganha 5.000 rúpias (66 dólares) por mês, que ele usa para sustentar a mulher, três crianças e seu pai de 78 anos. Se ele precisar de assistência médica, não estará coberto pelo pacote econômico.

“Meu celular toca sem parar e os moradores dos prédios que eu limpo me ligam para voltar ao trabalho”, disse ele. “Mas eu tenho que entrar nos edifícios, no lado de fora da casa de cada pessoa e coletar o lixo. Eles não me dão máscaras ou luvas, nem mesmo um sabonete para lavar minhas mãos antes de comer. Eu sei que se não for hoje, eles vão contratar outra pessoa”, contou.

Migrantes querem voltar para casa

Ao longo do fim de semana, milhares dos 45 milhões de trabalhadores migrantes da Índia começaram a longa e árdua jornada de voltar aos seus vilarejos rurais. Com a rede ferroviária do país temporariamente fechada, muitos deles não têm escolha a não ser caminhar centenas de quilômetros.

Trabalhadores migrantes tentam embarcar em ônibus para retornar ao interior do país e fugir da COVID-19
Foto: Adnan Abidi - 29.mar.2020/ Reuters

Há poucas razões para ficar nas cidades grandes. A maioria perdeu o emprego em razão do isolamento, e há um grande risco de contaminação nas favelas.

Pesquisadores do Centro para Sustentabilidade disseram, na semana passada que, enquanto a taxa global de transmissão do novo coronavírus estiver entre dois e três, nas comunidades carentes da Índia, o valor pode ser 20% maior por causa das condições em que a população vive.

Com o êxodo dos moradores das favelas, os governos dos estados de Uttar Pradesh, Bihar e Haryana providenciaram, no sábado, centenas de ônibus para transportar essas pessoas, causando cenas caóticas enquanto milhares chegavam às estações na esperança de conseguir um lugar nos veículos.

No entanto, no dia seguinte, Modi pediu a todos os estados que fechassem suas fronteiras para evitar a importação do vírus em áreas rurais. Agora, as autoridades tentam localizar os milhares de trabalhadores que voltaram às cidades pequenas e vilarejos do país para mantê-los em quarentena por 14 dias.

Sia, que vive em Gurugram, não conseguiu um lugar no ônibus para o interior. Ela não parece contar com muitas opções para fugir da doença na favela onde mora.

“Como nosso emprego parou, não recebo há 20 dias. Ganho 5 dólares por dia. O pouco que ganho ajuda minha família a sobreviver”, disse ela. “Como tudo está fechando, acredito que não temos opção a não ser viver em meio à pobreza e à sujeira da cidade”, lamentou.