Pandemia de coronavírus desencadeia disputa global por máscaras de proteção


Tim Lister, Sebastian Shukla e Fanny Bobille, da CNN
05 de abril de 2020 às 02:29 | Atualizado 05 de abril de 2020 às 02:39
Máscaras de proteção se tornaram escassas por pandemia de coronavírus

Homem compra máscara de proteção em Los Angeles, na Califórnia; pandemia de coronavírus desencadeou disputa global por suprimentos

Foto: Frederic J. Brown - 22.jan.2020/ AFP/ Getty Images

Uma das consequências do avanço da pandemia do novo coronavírus pela Europa e pelos Estados Unidos é a disputa global por equipamentos médicos, como máscaras e luvas – e vários países acusam os EUA de tentarem sequestrar seus pedidos.

Na França, essa situação foi chamada de “guerre des masques” (guerra das máscaras). Na sexta-feira (3), as autoridades alemãs também fizeram denúncias contra o governo norte-americano.

Andreas Geisel, um funcionário do alto escalão do governo alemão, disse que os EUA cometeram um ato de "pirataria moderna", alegando que uma remessa de 200 mil máscaras destinadas à polícia de Berlim havia sido desviada para os EUA enquanto estava em trânsito em Bangkok, na Tailândia.

“Não é assim que você lida com parceiros transatlânticos mesmo em tempos de crise global. Não devem ser usados métodos do velho oeste”, disse Geisel.

Uma reportagem da mídia alemã disse que a empresa envolvida no pedido de Berlim era a fabricante americana 3M. Mas a 3M disse à CNN na sexta-feira que a empresa "não tem evidências para sugerir que seus produtos foram desviados”. “A 3M não registra nenhum pedido de máscaras da China para a polícia de Berlim", disse a empresa.

A polícia de Berlim disse à CNN que não poderia confirmar se um pedido foi feito para a 3M. A CNN entrou em contato com a Casa Branca e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, mas ainda não obteve resposta.

A invocação do governo americano à Lei de Produção de Defesa dificultou a vida de alguns fornecedores com contratos com outros países. A lei de 1950 concede ao governo amplos poderes durante emergências para direcionar a produção industrial.

O presidente Donald Trump criticou a 3M por tentar exportar equipamentos de proteção. Na quinta-feira (2), ele tuitou: "Nós atingimos a 3M com força hoje depois de ver o que estavam fazendo com suas máscaras. 'Lei P' o tempo todo. Grande surpresa para muitos no governo quanto ao que estavam fazendo – terão um preço alto a pagar!".

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Foto: Sergio Perez - 28.mar.2020/ Reuters

No dia seguinte, a empresa respondeu: "A interrupção de toda exportação de máscaras produzidas nos Estados Unidos provavelmente levaria outros países a retaliar e fazer o mesmo, como alguns já fizeram".

Um funcionário do alto escalão da Casa Branca negou que o governo norte-americano tenha bloqueado a 3M de enviar carregamentos de máscaras para a América Latina e para o Canadá.

À medida que os estoques diminuem e os países embarcam no que uma autoridade francesa chamou de "caça ao tesouro global", os governos relutam em permitir que equipamentos de proteção deixem seus países. Muitos dizem que os preços oferecidos e exigidos por equipamentos de proteção individual (EPI) são exorbitantes.

Na sexta-feira, a ministra das Relações Exteriores da Espanha, Arancha González Laya, disse que um pedido de máscaras já pagas havia sido apreendido na Turquia.

"Há uma remessa de máscaras que, por enquanto, não deixarão a Turquia porque o governo turco entende que é uma prioridade para o tratamento de seus pacientes", disse Arancha.

"O que eles garantem é que, dentro de um período razoável, dentro de algumas semanas, eles disponibilizarão esse material novamente para a Espanha", acrescentou. A CNN solicitou comentários do governo turco.

Escassez na França

Inúmeras autoridades francesas também falaram sobre a dificuldade de garantir entregas, já que outros superaram suas ofertas. O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, falou na quinta-feira sobre as "dificuldades às vezes em acessar os produtos de pedidos que nem sempre são entregues”. “Isso ocorre por uma variedade de razões, incluindo a enorme demanda que chega à China dos Estados Unidos, da Europa e, de fato, do mundo inteiro."

Governadores de duas regiões da França alegaram que clientes americanos – sem especificar quais – tentaram pagar aos fornecedores chineses três ou quatro vezes mais do que o preço acordado para desviar suprimentos críticos.

Renaud Muselier, governador da região Sud, alegou em várias entrevistas que um pedido de uma região francesa havia sido “comprado” pelos americanos e que o avião que deveria voar para a França foi para os EUA.

Homem veste máscara de proteção em frente a hospital em Vannes, França

Homem veste máscara de proteção em frente a hospital em Vannes, França

Foto: Stephane Mahe - 10.mar.2020/ Reuters

Muselier foi questionado pela BFM-TV, afiliada da CNN, se as máscaras haviam sido tomadas pelos americanos nos aeroportos chineses. Ele respondeu: "Exatamente. Há um país estrangeiro que pagou três vezes o valor da carga no hangar. Então as máscaras se foram e a região que as encomendou ficou desamparada".

Contactado pela CNN, Muselier direcionou as perguntas ao Ministério das Relações Exteriores da França, que afirmou quinta-feira que estava analisando os relatos.

Jean Rottner, governador de outra região francesa, Grand Est, ecoou as observações de Muselier, dizendo à rede de rádio francesa RTL que era uma batalha diária para garantir as compras. "É verdade que os americanos chegam no aeroporto, pagam três ou quatro vezes mais pelos pedidos que fizemos. Por isso é necessário lutar." Contactado pela CNN, o escritório de Rottner não detalhou suas afirmações.

Um terceiro governador, Valérie Pécresse, de Île-de-France, disse que a busca por máscaras era uma caça ao tesouro global. "Fizemos um pedido, mas não conseguimos finalizá-lo porque outros estavam dispostos a pagar três vezes o preço de mercado", disse Pecresse à rede de rádio Franceinfo. Ela não identificou quem seriam os "outros".

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Uma região francesa, Centre Val de Loire, disse à CNN que seu pedido foi desviado para o aeroporto de Zhengzhou devido ao congestionamento no aeroporto de Xangai. Várias regiões francesas disseram que tiveram problemas para garantir suprimentos. A Bourgogne Franche Comté encomendou 4 milhões de máscaras, mas está usando dois fornecedores diferentes, caso um não entregue.

Não está claro qual entidade dos EUA – federal, estadual ou comercial – poderia ter tentado se apossar dos pedidos destinados à França. A CNN entrou em contato com o Departamento de Saúde e Serviços Sociais dos EUA, mas não recebeu resposta. A embaixada dos EUA na França, que fala apenas pelo governo federal, disse que os EUA "não compraram máscaras da China destinadas à entrega na França".

O caso brasileiro

O governo do Brasil também afirmou que a demanda dos EUA está sugando toda a demanda de suprimentos disponível. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse na sexta-feira: "Nossas compras [de máscaras], que esperávamos concluir para podermos reabastecer [os profissionais da saúde], muitas falharam".

Ele acrescentou que os EUA estavam enviando grandes aviões de carga para a China para levar equipamentos médicos de proteção ao país.

"O mesmo aconteceu com os respiradores", disse Mandetta. "Nós compramos e eles entregaram a primeira parte. A segunda, mesmo com um contrato, tudo assinado, com o dinheiro pronto para pagar, eles [China] disseram que não tinham mais.”

Autoridades espanholas e francesas dizem que os gargalos logísticos na China agravaram o problema do envio de EPI. O ministro da Saúde da Espanha, Salvador Illa, disse a um comitê parlamentar em Madri na semana passada que todo mundo estava tentando comprar da China. "O mercado é louco e a logística é difícil", afirmou.

Pedidos bloqueados

Enquanto isso, os governos estão requisitando o que podem - testando relacionamentos e alianças existentes. No mês passado, o governo francês disse que estava requisitando todas as máscaras que estavam sendo feitas no país.

Uma empresa francesa, Valmy SAS, foi obrigada a desviar um pedido de EPI destinado ao Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, um cliente regular. Um representante da empresa no Reino Unido disse à CNN que o pedido havia sido bloqueado por funcionários da alfândega na costa francesa.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou por várias semanas que a acumulação e a escassez de equipamentos de proteção estão deixando médicos e enfermeiros "perigosamente mal equipados" para cuidar de pacientes do COVID-19. Há um mês, seu diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus disse que os preços das máscaras cirúrgicas aumentaram seis vezes, os respiradores N95 mais do que triplicaram e os vestimentas duplicara.

"Os suprimentos podem levar meses para serem entregues, a manipulação do mercado é generalizada e os estoques geralmente são vendidos pelo maior lance", disse ele. E a demanda só se multiplicou desde então.

Vários governos europeus alertaram sobre a dificuldade de obter equipamentos de proteção para os profissionais de saúde. Na Alemanha, o primeiro-ministro da Baviera, Markus Söder, disse na quinta-feira que a Alemanha precisaria de "bilhões de máscaras" para combater o coronavírus.

Spahn disse querer que a Alemanha se torne menos dependente de máscaras feitas em outros países. "Devemos nos tornar mais independentes do mercado mundial, para a segurança de nossos cidadãos. Essa é uma das lições dessas semanas", escreveu no Twitter.

Na Espanha, os sindicatos reclamaram da falta de equipamentos de proteção para os profissionais de saúde. Na semana passada, Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Emergências e Alertas de Saúde, disse: "Embora o acesso a equipamentos de proteção individual seja suficiente, é verdade que pode haver momentos críticos". Ele afirmou que os EPIs são uma mercadoria global escassa e não havia disponibilidade fácil.

O ministro da Saúde da Espanha, Salvador Illa, disse na semana passada: "Não estão sendo produzidas máscaras suficientes para o mercado global; não estão sendo produzidos ventiladores suficientes", afirmou Illa. Ele também criticou os atrasos em um programa conjunto da União Europeia para comprar EPI.

França, Espanha, Alemanha e Reino Unido tentam acelerar a produção doméstica de EPIs com a escassez global. Mas isso não é algo que pode acontecer da noite para o dia nos volumes agora necessários, pois o coronavírus consome os recursos hospitalares em todo o mundo.