Futuro sem rosto e sob máscaras pode ser uma ameaça à segurança 

O uso em massa de máscaras pode complicar investigações, já que o reconhecimento facial é uma parte cada vez mais importante no rastreamento de criminosos

Por Luke McGee, da CNN em Londres
11 de maio de 2020 às 05:30
Mulher de máscara espera o metrô na estação Sumaré, em São Paulo
Mulher de máscara espera o metrô na estação Sumaré, em São Paulo. Ao fundo, a obra "Estação Sumaré", de Alex Flemming, ganhou máscaras
Foto: Nelson Almeida - 6.mai.2020/AFP/Getty Images

Alguns países já começam a sair lentamente do isolamento, deixando cada vez mais claro que estamos muito longe da sociedade que éramos antes do coronavírus.

Para a surpresa de muitos políticos, cidadãos ocidentais obedeceram com rigor às instruções de não sair às ruas. Os esforços de isolamento foram tão eficazes em alguns países que os governos estão pensando em como aumentar gradualmente as restrições sem assustar as pessoas. Nos últimos dias, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson apresentou uma alternativa para deixar os cidadãos mais tranquilos ao sair do isolamento: usando máscaras.

“Como parte da saída do lockdown, as coberturas faciais serão úteis", opinou Johnson no início deste mês, alegando que as máscaras ajudarão a dar ao público "confiança de que podem voltar ao trabalho".

Mas a perspectiva de uma nova sociedade na qual as pessoas escondem seus rostos tem implicações abrangentes para o crime e a segurança, bem como para a interação social.

“O principal problema do uso de máscaras de forma generalizada é que algumas pessoas podem querer cobrir o rosto por razões nefastas. Agora dá para fazer isso sem causar estranhamento, mas e depois?", questionou Francis Dodsworth, professor sênior de criminologia da Universidade de Kingston, perto de Londres.

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A afirmação pode soar exagerada para alguns países asiáticos que sofreram com a SARS e outros surtos, onde as máscaras são usadas há mais de uma década. Mas já estão surgindo evidências de crimes cometidos por criminosos mascarados nos Estados Unidos e na Europa.

Um caso bastante sério ocorreu na Espanha. O Ministério do Interior espanhol revelou no mês passado que havia prendido um terrorista do Estado Islâmico que supostamente estava escondido na cidade de Almería, no sul, desde que fugiu da Síria. De acordo com o relatório da polícia, ele havia adaptado seu comportamento por causa da pandemia, saindo pouco de casa. Ao sair, “sempre usava máscara para evitar ser detectado".

Reconhecimento facial vira nova arte

Especialistas disseram que o uso de máscaras em massa pode de fato complicar as investigações criminais, já que o reconhecimento facial é uma parte cada vez mais importante no rastreamento de criminosos.

Seres humanos são muito bons em reconhecer rostos familiares e os algoritmos de reconhecimento facial vêm melhorando na identificação de padrões. Mas o uso de máscaras acrescentou uma nova dor de cabeça nesse trabalho.

“Relatos de testemunhas podem ser problemáticos. Mesmo quando várias delas presenciam o mesmo crime, uma vê alguém com bigode e chapéu, enquanto outra descreve o mesmo criminoso com barba e óculos de sol", exemplificou Dodsworth.

Às vezes, as imagens de câmeras de segurança são a única evidência em uma investigação, de acordo com Eilidh Noyes, professora de psicologia cognitiva na Universidade de Huddersfield, no norte da Inglaterra.

“No momento, não sabemos exatamente como as máscaras faciais afetarão a precisão da identificação de faces humanas ou de algoritmos", admitiu.

Uma empresa chinesa divulgou que desenvolveu um software que pode identificar com precisão as pessoas, mesmo que estejam usando máscaras. No entanto, os especialistas acreditam que estamos longe de ter uma norma para todas as circunstâncias.

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“Acho que é importante não usarmos apenas um algoritmo específico, porque cada um tem seus próprios defeitos e qualidades. Ainda precisamos fazer muito mais pesquisas", explicou Noyes.

Rostos obscuros criam outros problemas para as forças policiais, principalmente quando se tenta definir o que é um comportamento suspeito. Foi apenas no ano passado que lugares como Hong Kong e França aprovaram leis tornando ilegal ocultar o rosto durante um protesto.

De acordo com Dodsworth, agora a polícia precisa entender as motivações das pessoas para cobrir seus rostos, o que não é simples.

“Já é difícil de definir o que torna um comportamento suspeito. A polícia terá que equilibrar os conselhos de saúde pública e de segurança para justificar o ato de parar alguém e revistá-lo."

Dado que a polícia em grande parte do mundo já foi criticada por ser desnecessariamente dura durante a pandemia, qualquer novo critério será uma preocupação para grupos minoritários que já têm mais probabilidade de serem parados, questionados e até mortos pela polícia.

Adaptação a novas pistas

De todas as medidas de prevenção da Covid-19, a cobertura em massa de rostos está entre as mais problemáticas.

As máscaras não são obrigatórias na maioria dos países ocidentais, graças a preocupações com direitos humanos e invasão de privacidade, e há um estigma geralmente ligado a pessoas que usam coberturas faciais. É possível que agora o preconceito mude para aqueles que não usam máscaras.

“Estão pedindo para as pessoas ficarem isoladas e usarem máscaras. Normalmente, se você está sozinho e vê alguém com uma máscara, pode ficar preocupado e se afastar dela. Mas hoje está menos claro se e quando você deve ter medo", notou Dodsworth.

Nos EUA, Jorge Elorza, prefeito de Providence, em Rhode Island, chegou ao ponto de dizer que os cidadãos deveriam "envergonhar publicamente" quem estiver sem máscara "para que eles se toquem".

Mas o fato é que o uso de máscaras por criminosos violentos pode deixar os cidadãos ainda mais tensos. A incapacidade de ver o rosto de alguém oculta pistas emocionais cruciais nas quais os humanos confiam para sobreviver.

“Quando você vê um rosto, faz duas coisas ao mesmo tempo. Você tenta descobrir a identidade: conheço essa pessoa? Como eu a conheço? E ao mesmo tempo você tenta ler as emoções desse sujeito", explicou Noyes.

“O reconhecimento de emoções é importante do ponto de vista evolutivo, pois nos ajuda a avaliar ameaças e também pode facilitar interações sociais positivas. Isso é verdade tanto para as pessoas que conhecemos bem como para as que nunca vimos".

Se o uso de máscaras for amplo e irrestrito, ele inevitavelmente afetará a maneira como os humanos interagem e pode levar a uma maior tensão entre as pessoas, com implicações de segurança individual.

“Por razões de sobrevivência, você precisa saber quais são as intenções de alguém quando o vê. Ser incapaz de fazer isso com facilidade tornará naturalmente as pessoas mais cautelosas e defensivas, o que, infelizmente, pode levar a confrontos violentos em alguns casos", detalhou Ian H. Robertson, professor de psicologia do Trinity College Dublin.

Evidentemente, mudar para uma sociedade sem rosto será algo de grandes proporções para as nações ocidentais. Como Dodsworth disse, podemos inicialmente ficar extremamente desconfiados dos outros. “Não é familiar para nós culturalmente e podemos nos adaptar a isso evitando as pessoas", afirmou.

Entretanto, ele acrescenta que toda a esperança não está perdida. “Crimes predatórios estão ficando cada vez mais raros e podemos encontrar outras maneiras de ler as pessoas."

Kate Gray, da Universidade de Reading, na Inglaterra, especializada em processamento de emoções, acha que as pessoas provavelmente se adaptarão em pouco tempo. “Acredito que em breve nos acostumaremos a captar sinais sociais e emocionais da voz e da linguagem corporal", disse.

Assim, embora o uso de máscaras seja comum há anos em alguns países asiáticos, a adoção em massa entre os ocidentais será uma grande mudança para os cidadãos que valorizam as liberdades pessoais e não estão acostumados à mão pesada dos governos.

A prontidão com que os povos adotaram medidas de confinamento sem grandes questionamentos sugere que, se a cobertura do rosto se tornar comum, a mentalidade do rebanho poderá surgir. Daí haverá uma nova grande incógnita: como os países vão lidar com populações mais tensas na presença do outro, com suspeitas de seus concidadãos?