Neve fica verde na Antártica — e as mudanças climáticas vão piorar

Temperaturas mais quentes nas áreas de geleiras colaboram para proliferação de algas; tendência é que elas se espalhem ainda mais nos próximos anos

Amy Woodyatt da CNN
23 de maio de 2020 às 07:13
O pesquisador Matt Davey colhe amostras de algas da neve em Ilha Lagoon, Antártica, em 2018.
Foto: Divulgação/Matt Davey

É provável que a neve verde criada pelas algas florescendo na Península Antártica se espalhe com o aumento das temperaturas resultante das mudanças climáticas. Essa é a opinião de especialistas que criaram o primeiro mapa em larga escala dos organismos e seus movimentos.

Dados de satélite coletados entre 2017 e 2019, combinados com medições no solo em dois verões na Antártica, permitiram aos cientistas mapear as algas microscópicas enquanto elas brotavam na neve da Península Antártica.

De acordo com os cientistas, as temperaturas mais quentes podem criar ambientes mais "habitáveis" para as algas, que precisam de neve úmida para crescer.

A alga da neve verde é microscópica quando medida individualmente. No entanto, ao crescerem simultaneamente, os organismos pintam a neve num tom verde brilhante que pode até ser visto do espaço, como contaram pesquisadores em um estudo publicado na revista Nature Communications na quarta-feira (20). 

Pesquisadores da Universidade de Cambridge e da British Antarctic Survey usaram dados de satélite da Agência Espacial Europeia com medições da Baía Ryder, Ilha de Adelaide, Península de Fildes e Ilha King George.

Manchas de algas verdes na neve podem ser encontradas ao longo da costa antártica, geralmente em áreas "mais quentes", onde as temperaturas médias ficam um pouco acima de zero graus Celsius durante os meses de verão do Hemisfério Sul (novembro a fevereiro).

A Península Antártica é a parte da região que sofreu o aquecimento mais rápido na última parte do século passado, segundo os especialistas. Temperaturas extraordinariamente altas foram registradas em fevereiro, quando uma onda de calor de nove dias derreteu a ponta norte do continente no início deste ano.

Os cientistas identificaram 1.679 tipos de algas verdes na superfície da neve, cobrindo uma área de 1,9 km² — o que equivale a um sumidouro de carbono de cerca de 479 toneladas por ano. Um sumidouro de carbono é um reservatório que absorve mais carbono do que libera.

Para os especialistas, os organismos se expandirão à medida que as temperaturas globais aumentarem.

“À medida que a Antártica se aquece, prevemos que a massa geral de algas da neve aumentará, pois a propagação para terrenos mais altos superará significativamente a perda de pequenas manchas de algas nas ilhas", afirma o doutor Andrew Gray, principal autor do artigo, e pesquisador da Universidade de Cambridge.

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Gray disse à CNN que o aumento da temperatura criaria ambientes mais "habitáveis" para as algas. Outro fator importante na distribuição dos organismos é a populações de aves, cujos excrementos atuam como fertilizantes para acelerar o crescimento.

Como as populações de aves (principalmente os pinguins) são afetadas pelas temperaturas mais quentes, "as algas da neve podem perder fontes de nutrientes para crescer", disse ele. Um aumento das algas também pode levar a mais derretimento da neve.

“Ela causa escuridão — uma brotação verde de algas na neve reflete cerca de 45% da luz atingida, enquanto a neve fresca reflete cerca de 80% da luz, aumentando a taxa de derretimento da neve em uma área com mais algas", explicou.

Os pesquisadores descobriram que quase dois terços das algas estavam em pequenas ilhas baixas. De acordo com eles, à medida que a Península Antártica esquenta devido ao aumento da temperatura global, essas ilhas podem perder a cobertura de neve e as algas no verão. No entanto, em termos de massa, a maioria dessas algas são encontradas em áreas onde elas podem se espalhar por áreas mais altas quando a neve derrete.