A agressiva aplicação da lei que está na raiz dos protestos violentos

Dan Wang, da CNN
20 de junho de 2020 às 13:18 | Atualizado 20 de junho de 2020 às 13:18
Delegacia é incendiada em Minneapolis durante protestos pela morte de George Floyd, em 28 de maio de 2020
Foto: CNN

Nos protestos que eclodiram nos EUA em resposta à morte de George Floyd, vimos exemplos preocupantes de policiais usando força excessiva. Eram policiais empurrando manifestantes (incluindo um idoso), puxando estudantes universitários para fora de carros e até mesmo confrontando repórteres apenas por fazerem seu trabalho.

Um desses incidentes aconteceu no final do mês passado, quando a polícia de Charleston, Carolina do Sul, prendeu um manifestante de 23 anos em uma praça no centro da cidade. Givionne Jordan Jr., ou “Gee”, foi acusado de desobedecer uma ordem legal e passou uma noite na prisão local, segundo o site do Departamento de Polícia de Charleston.

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Um vídeo que circula nas mídias sociais mostra a polícia prendendo Gee, um homem negro, simplesmente por protestar pacificamente – ele expressava amor por todas as pessoas e compreensão pela polícia, dizendo: "Eu não sou seu inimigo".

O chefe de polícia de Charleston, Luther Reynolds, defendeu os policiais, dizendo ao jornal Charleston Post and Courier: "Pedimos especificamente a eles várias vezes para dispersar... Dissemos que, se não dispersassem, seriam presos.” Reynolds também disse que o vídeo viral de dois minutos não mostrava todo o protesto no parque.

No entanto, foi perturbador e chocante assistir Gee detido com força por expressar uma esperança sincera de se conectar com policiais apenas poucas semanas depois que os policiais de Minneapolis mataram George Floyd sob custódia. Sem falar dos vídeos que frequentemente contradizem os relatos da polícia sobre os eventos.

Isso é mais do que um exemplo singular de policiamento agressivo. Para entender como um protesto se torna violento, o vídeo da prisão em Charleston é essencial. Em geral, os manifestantes não são os primeiros a instigar a violência: evidências esmagadoras mostram que os protestos violentos geralmente surgem quando as autoridades iniciam uma ação.

Depois de anos de análise, os pesquisadores publicaram em 2009 o maior banco de dados público de mais de 23 mil eventos de protesto nos EUA entre 1960 e 1995. Entre esses eventos de protesto, 17.494 não tiveram presença policial, dos quais 1.194, ou menos de 7%, se tornaram violentos. Por outro lado, a pesquisa constatou que a polícia estava presente em 6.099 protestos, dos quais 2.316, ou 38%, ficaram violentos (como o que aconteceu com Gee), segundo a análise.

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Para esclarecer: a violência é definida como força física usada por um humano em outro humano com a intenção de prejudicar, incapacitar ou matar.

A complicação na era das mídias sociais (na qual somos inundados com vídeos virais de repórteres e espectadores) é que é fácil perder o contexto. A brevidade do momento introduz ambiguidade, abrindo a porta para interpretações errôneas e suposições questionáveis por comentaristas do Twitter e de notícias. É difícil obter um exemplo tão claro de desencadear eventos como a prisão aqui mencionada.

Mas o que vemos no vídeo é a materialização das conclusões de um extenso corpo de pesquisa sociológica baseada em evidências, focada na compreensão de demonstrações – violentas e não violentas. A prisão de “Gee” Jordan é um exemplo de como a polícia desencadeia a violência em uma manifestação pacífica.

Sociólogos e cientistas políticos estudam há muito tempo as consequências da repressão por parte da polícia. Os resultados são quase idênticos em muitos estudos de protestos em todo o mundo, estabelecendo uma série de verdades universais.

Primeiro, a violência não é um objetivo estratégico da maioria dos manifestantes. De fato, a violência dos manifestantes nos EUA vem se tornando menos frequente desde a década de 1960. O objetivo de um protesto é ser ouvido, porque os outros caminhos disponíveis para alcançar mudanças sociais simplesmente não estão causando impacto.

Pode ser que a votação seja ineficaz ou o Congresso não esteja levando um problema a sério. Em muitos casos, os manifestantes escolhem a desobediência civil para interromper o status quo, como aconteceu nos protestos sentados de Greensboro contra as leis da era Jim Crow, nos anos 60, até as manifestações, dias décadas depois, da luta contra  a Aids em Wall Street.

O segundo ponto, mostrado pela minha própria pesquisa com Alessandro Piazza, professor da Universidade Rice, é que, à medida que os protestos aumentam, a probabilidade de violência entre os manifestantes diminui.

Isso ocorre porque o objetivo do protesto é atrair atenção por meio da sua unidade e do número de manifestantes, e não da força física. Houve manifestações contra a brutalidade policial e em apoio ao Black Lives Matter em todos os 50 estados norte-americanos, em centenas de cidades que variam de Sandpoint, Idaho, a Decatur, Alabama . Como observou o ex-presidente Barack Obama, há amplo apoio à reforma – uma diferença fundamental em relação aos protestos que usam de violência.

O terceiro ponto é que, quando a polícia usa a violência contra manifestantes, isso pode aumentar a agressividade no momento e precipitar mais violência em futuros protestos.

Essa tendência coloca os manifestantes atuais em uma posição especialmente perigosa, porque também sabemos que a polícia tem maior probabilidade de iniciar uma repressão violenta quando os manifestantes pacíficos são na maioria afro-americanos ou quando os manifestantes falam sobre brutalidade policial. Os raros casos de protestos violentos são frequentemente iniciados por pequenos grupos marginais que não são alinhados às causas centrais do movimento. Estamos vendo várias evidências desse fenômeno.

A maior incógnita é se a violência nas margens terá um efeito positivo ou negativo a longo prazo. Vimos esse caso nas últimas décadas de protestos contra a crueldade animal. Atos de violência na década de 2000 por grupos mais radicais diminuíram muito o apoio público ao objetivo geral do movimento de erradicar testes antiéticos em animais.

É mais importante do que nunca entender os fatos sobre os protestos que assistimos nas telas. A provocação iniciada pelas forças policiais é amplamente responsável por confrontos físicos em nossas ruas hoje, assim como em protestos no passado.

Os policiais devem se lembrar de que seu principal dever é proteger o público – missão incorporada ao código de ética dos departamentos de polícia. Pesquisas mostram que apelos autoritários à ação (incluindo os tweets do presidente Donald Trump e o pedido do senador Tom Cotton de enviar as tropas para conter o povo) podem contribuir para transformar protestos pacíficos em confrontos.