O homem que está preso há 31 anos por crime sem violência envolvendo maconha

Richard DeLisi foi condenado a 90 anos de prisão por ajudar a contrabandear 45 quilos da droga; 1 em cada 5 presos nos EUA foi condenado por crimes com drogas

Eric Levenson, da CNN
28 de novembro de 2020 às 08:27 | Atualizado 28 de novembro de 2020 às 08:50
Richard DeLisi, atualmente com 71 anos, está preso desde 1989
Foto: Reprodução/Departamento Correcional da Flórida

Um homem da Flórida, nos Estados Unidos, que passou 31 anos na prisão por um crime não violento envolvendo maconha poderá ser solto em breve.

Richard DeLisi está preso desde 1989 quando, aos 40 anos, foi condenado sob acusações de extorsão, tráfico de droga e conspiração por concordar em ajudar a contrabandear mais de 45 quilos de maconha da Colômbia para a Flórida. Ele recebeu uma sentença de prisão de 90 anos.

Seu caso recebeu apoio legal do Projeto Último Prisioneiro, uma organização sem fins lucrativos que defende o fim das sentenças de prisão por crimes relacionados à maconha. 

Com 31 anos de prisão, DeLisi é o prisioneiro que há mais tempo cumpre pena por um crime não violento relacionado à droga, de acordo com o grupo.

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DeLisi, agora com 71 anos, pode ser liberado do Centro Correcional de South Bay já em 4 de dezembro, embora o dia exato da liberação ainda dependa de vários fatores, de acordo com a assessora do Departamento de Correções da Flórida, Kayla McLaughlin.

"É incrivelmente maravilhoso saber que estarei em casa com minha família e entes queridos muito em breve", disse DeLisi em um comunicado do Projeto Último Prisioneiro. "Sou grato a todos que estiveram presentes e me ajudaram nesses longos anos."

Sua libertação iminente ocorre no momento em que o público americano aprova cada vez mais a descriminalização e a legalização da maconha para uso medicinal e recreativo. Apesar dessa aceitação crescente, pessoas como DeLisi continuam encarceradas – algumas por décadas – por crimes não violentos com drogas.

Os Estados Unidos têm a maior taxa de encarceramento do mundo e 1 em cada 5 pessoas está atrás das grades foram presas crimes com drogas, de acordo com organização Iniciativa de Política Prisional.

Uma em cada cinco pessoas presas nos EUA foi detida por crimes relacionados às drogas
Foto: Cytis/Pixabay

O sistema de encarceramento em massa do país também é um problema de saúde pública durante a pandemia do novo coronavírus. Com presidiários em celas lotadas e impossibilitados de se distanciarem socialmente, as prisões têm sido consistentemente o local de alguns dos maiores surtos de Covid-19 no país, infectando presidiários, funcionários e visitantes e causando novos surtos em suas comunidades locais.

A idade e os problemas de saúde de DeLisi – ele tem asma, distúrbio pulmonar obstrutivo crônico e diabetes – o tornam um presidiário de alto risco. O Centro Correcional de South Bay, onde ele está detido, teve 421 presos e 87 funcionários com teste positivo para Covid-19, de acordo com dados estaduais.

'Setença doentia'

De acordo com um site criado para ele, DeLisi fez um acordo para transportar a maconha com um amigo contrabandista que era secretamente um informante do governo. DeLisi não foi acusado ou condenado por ato violento.

A esposa, o filho e os pais de DeLisi morreram durante o tempo em que ele esteve na prisão. Ele disse que estava ansioso para se reunir com seus dois filhos vivos e segurar seus cinco netos pela primeira vez.

"Se eu pudesse voltar a 1988, diria ao meu antigo eu para dar mais valor ao tempo que passava com minha família. Aprendi que dinheiro é algo que vem e vai, mas a família é para sempre. Vou levar essa lição para casa e vou aproveitar ao máximo cada momento que ainda terei nesta terra com minha família maravilhosa”, disse.

"Estou tão animado para abraçar meus filhos e netos. Perdi tantos momentos importantes com eles e mal posso esperar para chegar lá e criar memórias preciosas com todos. Estou tão emocionado que este capítulo sombrio da minha vida está finalmente acabando."

Sua filha Ashley não passa o aniversário com ele desde os 3 anos de idade. "Eu só quero abraçar meu pai fora da prisão", disse ela em um comunicado.

Chiara Juster, advogada principal e consultora jurídica do Projeto Último Prisioneiro, expressou descrença pelo fato de DeLisi ter passado tanto tempo na prisão.

“Participamos da libertação de alguém que não poderia merecer mais”, disse ela, chamando a longa sentença por um crime não violento de “uma acusação doentia em nossa nação”.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)