Filho de Biden é investigado por questões fiscais, com foco em negócios na China

Após eleição, investigação federal sobre Hunter Biden entra em nova fase. Caso desafia Joe Biden, que se comprometeu com Departamento de Justiça independente

Por Evan Perez e Pamela Brown, da CNN
10 de dezembro de 2020 às 02:57 | Atualizado 10 de dezembro de 2020 às 03:52
Hunter Biden e Joe Biden, em 2013
Foto: CNN/ Reprodução


 

Depois de meses sem movimentações antes da eleição americana, as autoridades federais dos Estados Unidos estão agora investigando ativamente as negociações de Hunter Biden, segundo confirmou à CNN americana uma pessoa envolvida no caso. 

O pai de Hunter, o presidente eleito Joe Biden, não está implicado.

Terminada a eleição, a investigação entra em uma nova fase. Os promotores federais em Delaware, trabalhando com a agência de Investigação Criminal do IRS (serviço de Receita do governo americano) e o FBI, estão tomando medidas para colher evidências, disse fonte citada pela CNN americana.

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Ainda segundo a fonte, as atividades ligadas à investigação foram encobertas nos últimos meses devido às diretrizes do Departamento de Justiça que proíbem ações abertas que poderiam afetar uma eleição.

A CNN contatou o advogado de Biden e a campanha democrata nesta semana, buscando comentários sobre a investigação. Na quarta-feira, eles divulgaram um comunicado reconhecendo que há um processo em curso.

"Eu soube ontem pela primeira vez que o Gabinete do Procurador dos Estados Unidos em Delaware informou meu advogado, também ontem, que eles estão investigando meus assuntos tributários. Levo este assunto muito a sério, mas estou confiante de que uma revisão profissional e objetiva desses assuntos demonstrará que lidei com meus negócios de maneira legal e adequada, inclusive com o benefício de consultores fiscais profissionais ", disse Hunter Biden em um comunicado.

Os investigadores têm examinado várias questões financeiras, incluindo se Hunter Biden e seus associados violaram as leis tributárias e de lavagem de dinheiro em negociações comerciais em países estrangeiros, principalmente na China, de acordo com duas pessoas informadas sobre a investigação.

Algumas dessas transações envolveram pessoas que o FBI acredita já possam ter sido suspeitos de contra-espionagem, um problema comum quando se trata de negócios chineses.

A investigação começou já em 2018, antes da chegada de William Barr como procurador-geral dos EUA, disseram duas fontes à CNN. A existência da investigação representará um teste imediato à promessa de Biden de manter a independência do Departamento de Justiça.

O Sinclair Broadcast Group, um conglomerado de comunicações americano, relatou em outubro que o FBI havia aberto uma investigação criminal sobre Hunter Biden. A CNN descobriu novos detalhes sobre o escopo da investigação, incluindo que ela está focada na China.


Um laptop misterioso

Indícios de que havia uma investigação surgiram depois que o advogado pessoal do presidente Donald Trump, Rudy Giuliani, citou a existência de um laptop que supostamente pertencia a Hunter Biden e disse incluir seus documentos comerciais e outros materiais pessoais.

O FBI tomou posse do laptop no final de 2019, de acordo com um técnico em Delaware que mostrou aos repórteres uma cópia de uma intimação. A intimação é real, de acordo com pessoas ligadas ao caso, mas o FBI e os promotores em Delaware se recusaram a confirmar a existência da investigação.

Não está claro se o conteúdo do laptop é relevante para a investigação federal em andamento.

A CNN havia relatado anteriormente que pelo menos algumas das informações que Giuliani afirma ter vindo do laptop parecem semelhantes às informações que estavam sendo compartilhadas por outras pessoas em 2019 na Ucrânia, de acordo com uma testemunha que o FBI procurou para obter informações.

Os esforços de Giuliani para levantar supostos crimes dos Bidens na Ucrânia no ano passado estiveram no centro do impeachment de Trump. A investigação atual sobre Hunter Biden, porém, parece ser anterior a esses esforços.

O FBI fez contato com um ex-parceiro comercial de Hunter Biden que fez alegações públicas sobre possíveis irregularidades. Na época, o órgão não explicou a razão do depoimento e emitiu comunicado dizendo que "como um assunto geral, quando contatado, o FBI analisa as informações do público para consideração de quaisquer violações das leis federais aplicáveis."

As implicações políticas da investigação já foram um problema nos últimos meses para Barr, que estava sob pressão pública de Trump para tornar as atividades de negócios de Hunter Biden uma questão eleitoral.

Até o momento, a investigação não envolve nenhuma denúncia de irregularidades por parte do presidente eleito, segundo as duas principais fontes informadas sobre o assunto.

Barr disse publicamente que Joe Biden não estava sob investigação, apesar de uma campanha pública de Trump instando Barr a anunciar uma investigação de corrupção envolvendo também o democrata.

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Foco na China

Os investigadores parecem estar focados nas atividades comerciais de Hunter Biden ligadas à China.

Alguns de seus negócios na China são conhecidos publicamente por meio de entrevistas e documentos divulgados em setembro pelos republicanos do Senado.

Depois que seu pai deixou a vice-presidência dos EUA em 2017, Hunter Biden trabalhou para conseguir um acordo com a chinesa CEFC China Energy para investir em projetos de energia dos EUA, de acordo com documentos divulgados pelos republicanos.

Pelo menos um dos assuntos que os investigadores examinaram é um presente recebido em 2017.

Naquele ano, Hunter Biden teria recebido um diamante de 2,8 quilates do fundador e ex-presidente da CEFC, Ye Jianming, após uma reunião de negócios em Miami.

Em 2019, Biden se justificou à revista New Yorkersobre o recebimento do diamante de Ye. Ele disse que se sentiu desconfortável em receber a joia e a deu a outros associados, e que não sabe o que fizeram com ele. "Eu sabia que não era uma boa ideia pegá-lo. Eu apenas me senti estranho", disse o filho de Joe Biden.

Hunter Biden disse, ainda ao New Yorker que o negócio da CEFC fracassou e que ele não considerava Ye um personagem suspeito. Posteriormente, as autoridades chinesas detiveram Ye, em meio a relatos da mídia chinesa sobre alegações de corrupção contra ele.

Também entrevista para a revista, Hunter Biden tornou público seu relato de suas lutas pessoais, incluindo o abuso de drogas e a separação de seu casamento. Durante o processo de divórcio, os advogados de sua ex-mulher citaram um diamante que Biden havia recebido e sugeriram que valia US$ 80.000. Biden disse ao New Yorker que valia cerca de US$ 10.000.

O recebimento de tal presente pode ter implicações fiscais potenciais para Biden e sua entrevista para a New Yorker não descreve como ele lidou com a questão depois disso. Fontes disseram à CNN que os investigadores têm analisado se Biden relatou corretamente sua renda para fins fiscais durante um período de tempo. Embora o diamante inicialmente fizesse parte da investigação, não está claro se o presente continua sendo parte do foco dos investigadores.

Hunter Biden posteriormente atuou brevemente como advogado para representar Patrick Ho, que dirigia uma organização apoiada pela CEFC, e que foi condenado em 2018 por pagar milhões de dólares em subornos a funcionários no Chade e em Uganda para beneficiar os projetos de energia da companhia chinesa nesses países.

Ho foi condenado a três anos de prisão federal. Ele já foi libertado e está de volta a Hong Kong, disse seu advogado.

Hunter Biden esteve também envolvido em um empreendimento comercial chinês anterior que trouxe preocupações para Obama e a equipe de Joe Biden quando estavam na Casa Branca, de acordo com a New Yorker.

Em 2013, Hunter Biden envolveu-se com parceiros americanos e chineses que estavam criando um fundo de investimento chamado BHR Partners para negócios fora da China. Hunter era um membro não remunerado do conselho da BHR e assumiu uma participação acionária depois que seu pai deixou a vice-presidente, relatou a New Yorker.

Um desafio para um novo presidente

Em uma entrevista com Jake Tapper da CNN na semana passada, o presidente eleito Biden prometeu manter um Departamento de Justiça independente, livre de influência política.

"Não vou dizer a eles o que eles têm que fazer e o que não precisam fazer. Não vou dizer, vão processar A, B ou C", disse Biden.

"Esse não é o papel - não é o meu Departamento de Justiça. É o Departamento de Justiça do povo", acrescentou.

“A pessoa ou pessoas que escolhi para dirigir esse departamento serão pessoas que terão capacidade independente para decidir quem será processado e quem não será”, disse Biden.

É quase certo que os republicanos no Congresso aproveitarão a existência da investigação para promover seu argumento de que as atividades de Hunter Biden na China são um sinal do conflito de interesses de seu pai para lidar com a política externa de Pequim.

Também é provável que essa investigação seja um problema que o procurador-geral nomeado de Biden terá de enfrentar durante uma audiência para ser aprovado pelo Senado.

Trump enfrentou um problema semelhante, mas muito mais espinhoso, após assumir o cargo em 2017, quando seu então procurador-geral, Jeff Sessions, rapidamente teve que se recusar a supervisionar a investigação federal da campanha do republicano e possíveis ligações com a interferência russa nas eleições de 2016.

Sessions fez parte da campanha eleitoral do presidente e ele se reuniu com o então embaixador russo, o que passou a fazer parte de investigações do FBI.