Melania Trump “só quer ir para casa”

Enquanto o presidente está ocupado descobrindo uma maneira de permanecer na Casa Branca a primeira-dama está determinando o que levar na mudança

Kate Bennett, da CNN
15 de dezembro de 2020 às 16:02
A primeira-dama dos EUA, Melania Trump
Foto: Pool/CNN

Em meados de novembro, conforme o presidente Donald Trump protestava contra os resultados das eleições, sua esposa, a primeira-dama Melania Trump concordava publicamente com seus sentimentos. Mas, em particular, alguns dias após a contagem final dos estados, a primeira-dama incumbiu uma emissária de descobrir discretamente o que estava disponível para ela em termos de orçamento e alocação de pessoal para a vida pós-Casa Branca.

Enquanto o presidente está ocupado descobrindo uma maneira de permanecer na Casa Branca, mesmo após o fracasso em processos e a decisão do Colégio Eleitoral, a primeira-dama está determinando o que armazenar, o que vai para levar para as propriedades de Trump em Nova York e o que deve ser etiquetado para envio para a casa de Mar-a-Lago em Palm Beach, Flórida.

“Ela só quer ir para casa”, disse outra fonte familiarizada com o estado de espírito de Melania Trump. Questionada sobre como a primeira-dama se sente sobre os rumores de que seu marido pode anunciar uma candidatura para 2024, a fonte acrescentou: “Isso pode não acabar bem”.

Discretamente, a primeira-dama trouxe Marcia Lee Kelly para sua escassa equipe da Ala Leste (a parte residencial da Casa Branca) em abril como uma funcionária especial do governo que poderia adicionar seriedade e experiência. Kelly não recebe salário e atua como voluntária, mas seu trabalho como conselheira especial de Trump foi útil nos meses finais do mandato.

Kelly já havia comandado o Escritório de Administração da Casa Branca e, depois que ficou claro que Trump precisaria se preparar para sua vida pós-Washington, a primeira-dama disse a Kelly para perguntar discretamente a conhecidos da Ala Oeste (a parte governamental da Casa Branca) e a um membro do Escritório de Gestão e Orçamento se havia fundos alocados às ex-primeiras-damas pagos pelo contribuinte, de acordo com duas fontes familiarizadas com as discussões.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania, em Cleveland
Foto: Carlos Barria - 29.set.2020 / Reuters

A resposta curta é não. Embora existam vantagens pós-presidenciais para tais coisas para o comandante-chefe que está deixando o cargo, como verbas para estabelecer um escritório e equipe oficiais e cobrir algumas despesas de viagem, não há nada do governo para qualquer primeira-dama, exceto a irrisória pensão anual de US$ 20 mil por ano, que só é paga em caso de morte do marido. 

A informação reunida por Kelly sobre o orçamento (que não existe) não impediu Melania Trump de direcionar sua energia para partir de Washington. De acordo com discussões com três fontes conhecidas, há atualmente um inventário em andamento sendo feito na própria mobília, arte e itens pessoais da Casa Branca do Trump.

Além disso, a primeira-dama está muito concentrada nos últimos dias em seu legado. Uma coisa que Melania Trump está considerando é um livro, embora provavelmente não seja um livro de memórias. A escrita pós-Casa Branca é uma tradição à qual a maioria das primeiras-damas aderiu. As memórias de Michelle Obama, “Minha História”, e as memórias de Laura Bush, “Spoken from the Heart” ("Dito com o coração”, sem versão no Brasil) foram grandes bestsellers.

Em vez disso, Melania Trump está pensando em um livro centrado em fotos sobre a história da hospitalidade na Casa Branca, ou talvez centrado nos projetos de design que ela concluiu enquanto primeira-dama, de acordo com uma fonte da indústria editorial familiarizada com as discussões preliminares. Melania Trump também fez uma das coisas finais que a maioria das primeiras-damas faz antes de deixar o cargo: selecionar o serviço oficial de porcelana do governo.

“A Senhora Trump está focada em seu papel como primeira-dama. Na segunda-feira (7), ela revelou seu esforço mais atual para preservar a Casa Branca ao anunciar a conclusão do pavilhão de tênis. Ela também revelou recentemente uma nova peça de arte no recém-reformado Rose Garden. Seu escritório acaba de mostrar a decoração de Natal deste ano. Sua agenda continua cheia com seus deveres como mãe, esposa e primeira-dama dos Estados Unidos”, disse a chefe de gabinete da primeira-dama, Stephanie Grisham, à CNN.

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Uma transição suave

Segundo uma fonte, Melania Trump está agora focada em Mar-a-Lago, garantindo uma transição suave de Washington para ela e seu filho de 14 anos, Barron. Ele deve terminar seu ano escolar na Flórida e não na elegante escola pública de Maryland que frequentou nos últimos três anos. Embora Trump ainda não tenha admitido a vitória do adversário Joe Biden - confirmada pelo Colégio Eleitoral nesta segunda-feira (14) -, Melania Trump já está supervisionando os embarques de itens pessoais da Casa Branca para Mar-a-Lago e para sua cobertura na Trump Tower em Nova York.

Tham Kannalikham, a decoradora de interiores que Trump contratou em 2017 para redesenhar os aposentos pessoais da residência executiva da Casa Branca quando eles se mudaram, tem se concentrado nas últimas semanas na “casa” de Trump em Mar-a-Lago, disse uma fonte. Isso inclui supervisionar a pintura, novos tecidos e fornecer assistência para uma reforma estética do espaço que agora será a residência permanente da família.

Também estão ocorrendo pequenas reformas nos banheiros, embora nada de grande possa ser construído na propriedade sem um processo de licença, já que Mar-a-Lago é um marco histórico nacional e a permissão do conselho da cidade para alterar a fachada ou adicionar cômodos é improvável. As pequenas reformas foram planejadas e estão em andamento desde antes da eleição, de acordo com uma fonte.

Para uma família acostumada com vários andares de cobertura em Manhattan, como é a residência na Trump Tower, muita coisa será reduzida para residir em Mar-a-Lago. Por isso, a primeira-dama estaria agora ajustando ainda mais os aposentos privados, onde, como na Casa Branca, ela tem sua própria suíte e camarim. A morada de Mar-a-Lago tem cerca de 280 metros quadrados na construção principal da propriedade, uma proporção generosa para muitas famílias, mas um espaço relativamente diminuto após viver na mansão de 5 mil metros quadrados da Casa Branca.

“Será como ficar em um bom hotel em tempo integral", disse Laurence Leamer, autor de "Mar-a-Lago: Inside the Gates of Power at Donald Trump's Presidential Palace” (“Mar-a-Lago: Dentro dos portões do poder no palácio presidencial de Donald Trump”, sem edição no Brasil).  “Tudo bem por um tempo, claro, mas você consegue imaginar Donald Trump sentado ali por seis meses do ano? Ela vai começar a se sentir confinado muito rapidamente”.

A primeira-dama dos EUA, Melania Trump, durante a Convenção Nacional Republicana 2020
Foto: Reprodução - 25.ago.2020 / Reuters

Isso sem falar do fluxo constante de sócios do clube que passam pela porta da frente do ex-presidente toda vez que vão da piscina para a sala de jantar, ou do spa para o pátio.

“Será a coisa mais estranha”, contou Leamer, sugerindo que, se Trump é tão rico quanto afirma ser, ele deveria fechar o clube e manter a mansão inteira como sua casa.

Uma fonte com conhecimento dos preparativos para a chegada de Trump em janeiro disse que há atualmente “uma presença maciça do Serviço Secreto agora”, em Mar-a-Lago, já que os elementos de segurança estão sendo avaliados para a proteção de longo prazo de Trump.

Melania Trump vê Mar-a-Lago como um refúgio tranquilo de sol, solidão e autocuidado.

“Os pais dela também têm uma suíte lá, não muito longe dos aposentos da família”, contou Leamer, que passou bastante tempo em Mar-a-Lago como hóspede de vários membros do clube. Viktor e Amalija Knavs, pais de Melania, passam muito tempo em Mar-a-Lago, e têm feito isso por grande parte das duas décadas que sua filha está com Donald Trump.

A primeira-dama também sabe que Mar-a-Lago é o único lugar onde seu marido pode encontrar uma fatia dos elogios que provavelmente exigirá depois de passar quatro anos sob os olhos do público.

“Ela sabe que ele não é o tipo de ex-presidente que se refugia em uma vida tranquila, escrevendo suas memórias ou pintando quadros”, contou uma das fontes, referindo-se aos hábitos pós-Casa Branca de Barack Obama e George W. Bush.

“Os membros do clube irão fortalecer seu ego”, acrescentou Leamer, observando a lealdade das pessoas de Palm Beach que são sócias de Mar-a-Lago, muitos dos quais apoiaram Trump durante sua presidência.

Uma fonte familiar acrescenta que os rituais do clube quando Trump faz uma de suas visitas frequentes “sempre” incluem ouvir o hino “God Bless America” quando Trump e Melania Trump entram no salão de baile ou no pátio externo para a hora do jantar.

“É ... esquisito”, confessou a fonte sobre a forma como o cantor do clube noturno de Mar-a-Lago muda de uma lista de reprodução de músicas animadas de Andrew Lloyd Webber para um hino patriótico, e todos se levantam quando Trump desce para jantar.

No sábado, no comício da Geórgia, Trump disse à multidão que aguardaria ansiosamente pela vida pós-Casa Branca em Mar-a-Lago.

“Eu iria para a Flórida ... Eu pegaria leve”, afirmou.

Empreendimentos futuros

As perguntas da primeira-dama sobre fundos para um escritório e funcionários indicariam que ela está pensando em estabelecer um escritório oficial depois da Casa Branca, como a maioria das primeiras-damas faz, para continuar as iniciativas ou metas políticas iniciadas enquanto seus maridos estão no cargo. Uma fonte confirmou que Melania Trump está pensando na ideia de manter sua plataforma "Be Best" destinado a ajudar as crianças, mas outra pessoa próxima a ela disse que não foram determinados planos firmes de como ou quando isso pode acontecer. O escritório da Ala Leste de Melania Trump teve aproximadamente 12 pessoas e foi a menor equipe da história moderna.

Quanto à porcelana Trump oficial, a primeira-dama recentemente selecionou padrões e cores para centenas de peças, que é o procedimento padrão para uma primeira-dama de saída do governo.

A porcelana oficial da presidência tradicionalmente permanece na Casa Branca como parte da coleção oficial. É algo que remonta ao presidente James Monroe, pode ser utilizada por futuros governos. No entanto, uma fonte familiarizada com o pedido disse que Melania Trump não está contando com a Associação Histórica da Casa Branca para pagar a conta do conjunto, o que não é um requisito, mas uma opção.

O último governo a não usar fundos das Associação Histórica da Casa Branca para a porcelana oficial foi o Reagan, observa a fonte, que confirma que a associação “não esteve envolvida em um projeto de aquisição relacionado à porcelana Trump”.

Um serviço de porcelana oficial do governo não é um empreendimento barato.

Estado da Casa Branca em abril de 2015.

A porcelana Obama, cujo planejamento teve início em 2011, foi entregue em 2015. Sua cor inspirada nas águas azuis do Havaí. Foram 320 configurações de 11 peças cada, custando mais de US$ 350 mil. A seleção de porcelanas de Laura Bush totalizou 4.500 peças e também chegou a seis dígitos. (Bush ordenou um ambiente adicional menos formal de 75 lugares para usar para entretenimento na residência privada, que não foi pago pela Associação Histórica da Casa Branca.)

Melania Trump optou muitas vezes por emprestar peças do conjunto oficial de porcelana Clinton para seus eventos na Casa Branca, incluindo os dois jantares de Estado hospedados por Trump. Há 300 talheres de pratos de ouro brilhantes e ornamentados e louças selecionadas por Hillary Clinton quando ela era a primeira-dama.

Se a escolha pessoal de Trump reflete a ostentação da era Trump, apenas o futuro dirá.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).