Extremistas intensificam tom violento antes do Dia da Posse

“Vamos invadir os prédios do governo, matar policiais e exigir a recontagem", disse um dos apoiadores do presidente em fóruns de extremismo

Rob Kuznia, Curt Devine, Scott Bronstein e Bob Ortega, da CNN
09 de janeiro de 2021 às 13:08
Apoiadores de Trump invadiram o prédio do Capitólio, em Washington D.C.
Apoiadores de Trump invadiram o prédio do Capitólio, em Washington D.C.
Foto: Reprodução/Twitter

"Trump ou guerra. Hoje. Simples assim”.

“Se você não sabe atirar, você precisa aprender. AGORA”.

“Vamos invadir os prédios do governo, matar policiais, matar seguranças, matar servidores e agentes federais e exigir uma recontagem”.

Nas semanas, dias e horas antes do cerco de quarta-feira (6) ao Capitólio pelos fiéis partidários do presidente Donald Trump, os sinais de alerta foram claros: postagens online de grupos de ódio e provocadores de direita conclamavam a guerra civil, as mortes de legisladores importantes e os ataques às forças policiais.

Agora, enquanto a poeira assenta e o país luta para dar sentido à violência que deixou cinco mortos – incluindo um oficial da Polícia do Capitólio dos Estados Unidos – especialistas alertam que os apelos à violência só estão intensificando antes do Dia da Posse, quando o presidente-eleito Joe Biden será empossado como comandante-chefe.

Destaques do CNN Brasil Business:
Veja comparação entre preços da promoção do Magazine Luiza e dos concorrentes
Hapvida propõe fusão com a Intermédica, o que criaria uma empresa de R$ 100 bi
Voo atrasado ou cancelado e overbooking: conheça os direitos dos passageiros

“Estamos vendo conversas desses supremacistas brancos, dos radicais da extrema direita - eles estão se sentindo encorajados neste momento”, afirmou Jonathan Greenblatt, CEO da Liga Antidifamação (ADL), que rastreia e combate o ódio. “Acreditamos que esta violência pode piorar antes de melhorar”.

O caos do dia 6 – que eclodiu durante um protesto para dissuadir o Congresso de certificar os resultados da vitória inequívoca de Biden – mostrou uma perda de controle e súbita quebra do vínculo que por quatro anos manteve Trump, seus apoiadores e a liderança republicana unidos. 

Depois que os arruaceiros derrubaram barricadas, agrediram policiais, quebraram janelas e invadiram o edifício sagrado da democracia (que havia sido invadido apenas uma vez na história, quando foi incendiado pelos militares britânicos invasores em 1814), Trump fez um morno apelo para que eles voltassem para casa – e, de novo, repetiu a mentira de que a eleição tinha sido roubada. Naquela noite, líderes republicanos naquela noite – incluindo o vice-presidente Mike Pence e o líder da maioria no Senado Mitch McConnell – condenaram os manifestantes nos termos mais veementes.

Mas tudo pareceu ter pouco efeito sobre a direita radicalizada.

“Trump SERÁ empossado para um segundo mandato em 20 de janeiro!!", disse uma pessoa no site thedonald.win, um fórum online pró-Trump, na quinta-feira, um dia após o ataque. “Não devemos deixar os comunistas vencerem. Mesmo se tivermos que queimar DC até as cinzas. Amanhã retomaremos DC e retomaremos nosso país!!”

Preocupações antes da posse

John Scott-Railton, pesquisador sênior do Citizen Lab, um grupo da Universidade de Toronto que monitora a segurança cibernética, disse que está “terrivelmente preocupado” com a posse.

“Enquanto o povo em geral ficou horrorizado com o que aconteceu (na quarta-feira) no Capitólio, em certos cantos de conversa de direita o que ocorreu é visto como um sucesso”, afirmou à CNN.

Nos dias e semanas antes do ataque ao Capitólio, sinais de que o protesto poderia se transformar em violência eram abundantes.

A Advance Democracy, Inc., uma agência apartidária de governança, destacou os sinais de alerta nas redes sociais. Nos seis dias que antecederam o evento, por exemplo, havia 1.480 postagens de contas relacionadas à QAnon que faziam referência ao evento e continham termos de violência. Segundo o relatório, vários posts no Parler se referiram a uma guerra, incluindo declarações como “a guerra começa hoje”.

Ali Alexander, um ativista político que organizou comícios pró-Trump, incluindo uma das manifestações que convergiram no gramado do Capitólio na quarta-feira, acusou a esquerda de “tentar nos empurrar para a guerra”. No final de dezembro, Alexander disse a seguidores no Periscope que ele e três congressistas republicanos – os deputados Paul Gosar e Andy Biggs do Arizona e Mo Brooks do Alabama – estava planejando algo grande.

Manifestantes a favor de Donald Trump
Apoiadores de Donald Trump protestam em frente ao capitólio
Foto: REUTERS/Mike Theiler

“Era para criar um ímpeto e gerar pressão e, então, no dia seguinte, mudar os corações e mentes das pessoas do Congresso que ainda não haviam decidido ou que viam toda aquela gente do lado de fora e pensavam: ‘Não posso estar do lado oposto dessa multidão’”, disse Ali, que insistiu, entretanto, que não tenha pedido violência.

A CNN procurou os escritórios dos três congressistas, mas apenas Biggs respondeu, com uma declaração de um porta-voz negando que ele tenha trabalhado de alguma forma com Alexander ou qualquer manifestante.

“O congressista Biggs não tem conhecimento de ter ouvido falar ou se encontrado com o Senhor Alexander em nenhum momento – muito menos de ter trabalhado com ele para organizar parte de um protesto planejado”, disse o porta-voz. “Ele não teve nenhum contato com manifestantes ou arruaceiros, nem encorajou ou fomentou a manifestação ou protestos. Ele estava concentrado em sua pesquisa e nos argumentos para trabalhar dentro dos limites da lei e estabelecer precedentes para restaurar a integridade de nossas eleições e garantir que todos os norte-americanos – independentemente da filiação partidária – possam novamente ter total confiança em nossos sistemas eleitorais”.

Agências emitiram avisos antes do cerco

Várias organizações que monitoram o extremismo online emitiram avisos antecipadamente.

Em 4 de janeiro, a ADL publicou uma longa postagem em seu blog detalhando ameaças de violência relativas ao comício que se aproximava.

“Em resposta a um usuário que se perguntou o que aconteceria se o Congresso ignorasse a ‘evidência’ de que o presidente Trump venceu a eleição, um usuário escreveu: “Invadir o Capitólio’'", diz a postagem do blog da ADL.

O post continuou a dizer que, embora não tivesse conhecimento de quaisquer ameaças credíveis de violência planejadas para 6 de janeiro, “se o passado é alguma indicação, a combinação de uma presença extremista nos comícios e a natureza acalorada da retórica sugere que a violência é uma possibilidade”.

Também em 4 de janeiro, uma análise de risco feita pela empresa de segurança G4S afirmou que “a retórica atual sugere que haverá participantes com intenções violentas, incluindo grupos de milícias armadas” entre 6 e 20 de janeiro, data da posse.

Leia também:
Com impeachment, democratas tentam evitar nova candidatura de Trump em 2024
Veículo com bombas foi encontrado próximo ao capitólio, nos Estados Unidos
Invasão ao Capitólio uniu EUA, avalia presidente da Ipsos

A análise citou vários posts nas últimas semanas defendendo a violência no site de direita thedonald.win, incluindo uma do final de dezembro que dizia: “Teremos que alcançar uma vitória tática real, como invadir e ocupar o Congresso, para ter o efeito pretendido”.

Outro disse: "Patriotas que AINDA, NESTE MOMENTO, são covardes demais para tolerar a violência, são parte do problema”.

Especialistas em segurança disseram que ficaram intrigados com a resposta direta da polícia.

“É surpreendente o porquê do policiamento muito menos agressivo”, disse Jonathan Wood, diretor de análise de risco global da Control Risks, com sede em Londres. “Muitos analistas de segurança ficaram surpresos com a falta de segurança e de uma resposta de segurança robusta”.

Policiais pegos de surpresa

Policiais federais e locais insistem que não faziam ideia de que o cerco aconteceria.

“Não houve inteligência que sugerisse que haveria uma violação do Capitólio dos EUA”, disse o chefe de polícia de DC, Robert Contee, em uma entrevista coletiva no dia seguinte.

Steven A. Sund, que renunciou ao cargo de chefe da Polícia do Capitólio dos EUA em meio a críticas sobre a aparente falta de preparo para lidar com a multidão violenta, disse em um comunicado que o departamento tinha um plano robusto para lidar com “atividades previstas da Primeira Emenda”. A Primeira Emenda garante o direito de se expressar e se manifestar, entre outras coisas.

“Mas, não se enganem: esses distúrbios em massa não foram atividades da Primeira Emenda, foram um comportamento criminoso desenfreado”, continuou.

Manifestantes pró-Trump invadem Capitólio
Manifestantes pró-Trump invadem Capitólio
Foto: Leah Millis/Reuters

Quanto à segurança no Dia da Posse, o Serviço Secreto divulgou um comunicado dizendo que seus planos para o evento estão em construção há muito tempo.

“A posse do presidente dos Estados Unidos é um elemento fundamental de nossa democracia”, disse a agência em um comunicado. “A segurança e proteção de todos os participantes da 59ª posse presidencial é de extrema importância”.

Robert Dodge, presidente de serviços de risco corporativo da G4S (que emitiu o alerta de 4 de janeiro) disse nos meses que antecederam 6 de janeiro, viu “muita retórica preocupante e hostil, que em nosso mundo chamamos de indicador de ameaça”.

Ele acrescentou que o edifício do Capitólio dos EUA parecia não ter a fortificação adequada.

“Será que as pessoas que se aproximam do Capitólio viram um nível adequado de barreiras físicas, de barreiras psicológicas, como sinais dizendo não cruze esta linha ou você será preso?", questionou. “Você viu as janelas de vidro sendo quebradas. Por que algumas delas não foram reforçadas? Parece que houve alguns ameaças sérias de segurança física que foram deixados para a polícia do Capitólio mitigar”.

Varridos pela desinformação

Não são apenas os elementos marginais que foram arrastados pelo fervor atual. Misturando-se à multidão de grupos de milícias, nacionalistas brancos e teóricos da conspiração de alto nível no gramado do Capitólio na quarta-feira, estavam outros cidadãos que fizeram a viagem para questionar a certificação da eleição.

Uma era a moradora do Texas e ex-candidata a prefeita Jenny Cudd, cujo slogan de campanha foi simplesmente "Jenny para Prefeita".

Depois de protestar contra o que ela descreveu como fraude eleitoral e uma eleição roubada, ela pediu a morte daqueles que cometeram traição.

“Tudo o que precisamos é de um enforcamento em praça pública, e então as pessoas começarão a agir da maneira certa. Acho que seria útil se ainda tivéssemos o pelotão de fuzilamento para a pena de morte”, disse Cudd. “Veremos se haverá um enforcamento público em nosso futuro porque esse ainda é considerado um jeito válido de morte por traição".

Cudd postou um vídeo na noite anterior aos protestos, no qual falou sobre como o dia seguinte seria um "tumulto".

“Não sei o que vocês pensam sobre uma revolução, mas sou totalmente a favor”, afirmou. “Ninguém realmente quer guerra, ninguém quer derramamento de sangue, mas o governo trabalha para nós e infelizmente parece que eles se esqueceram disso, muito; então, se uma revolução é necessária, que seja”.

Donald Trump discursou para apoiadores nesta quarta-feira (6)
Donald Trump discursou para apoiadores nesta quarta-feira (6)
Foto: CNN Brasil (6.jan.2021)

A rede de notícias de direita OANN postou uma foto de Cudd no Twitter na tarde de quarta-feira, mostrando-a dentro do Capitólio, usando uma bandeira Trump como uma capa. Naquela noite, ela postou um vídeo de seu hotel, onde bebeu uma cerveja e sufocou as lágrimas enquanto conduzia seus seguidores sobre o que havia acontecido naquele dia.

“O momento em que Pence nos traiu foi quando decidimos invadir o Capitólio”, disse.

Na sexta-feira, Cudd disse a uma agência de notícias de TV local que ela não fez nada ilegal.

“Eu subi mesmo os degraus e daí vi uma porta aberta para o Capitólio”, contou. “Eu, pessoalmente, não destruí nada, destruí nada”.

Em resposta a um pedido de comentário da CNN na sexta-feira, Cudd mandou uma mensagem de texto com um link para um vídeo dela mesma repetindo uma versão da declaração que ela fez para o meio de comunicação local, dizendo: “a cultura do cancelamento está em pleno vigor” e que ela recebeu “várias ameaças de morte, junto com milhares de avaliações de uma estrela” para sua empresa.

Joel Finkelstein, diretor do Network Contagion Research Institute da Universidade Rutgers, disse que conspirações na web cresceram de sites menores e obscuros como o 8kun, frequentado por adeptos do QAnon, a sites mais populares como Facebook, Twitter e Instagram. O resultado, disse ele, é que muitas das pessoas atraídas pelos protestos de quarta-feira não eram extremistas, mas sim norte-americanos comuns que não entenderam que haviam sido enganados.

“São nossos vizinhos: eles são nossos vizinhos e amigos”, contou. “São pessoas que todos conhecemos. Eles estavam fazendo isso no Facebook. Eles estavam fazendo isso no Twitter. As ameaças à nossa democracia não vêm apenas do 8chan. E não estão vindo apenas da QAnon”.

Algumas das conversas mais violentas nas redes sociais refletem o que parece ser uma hostilidade crescente para com os líderes republicanos por parte dos apoiadores de Trump.

“Tenho quase certeza de que ver Pelosi e Mitch escroto balançando os corpos em uma corda vai trazer mais atenção do gado que normalmente não segue ou se preocupa com política”, disse um comentarista na quarta-feira no thedonald.win.

Como as forças policiais começaram a agir com mais peso sobre grupos extremistas de direita (o líder dos Proud Boys, Henry “Enrique” Tarrio foi preso pela polícia de DC antes do protesto de 6 de janeiro), os especialistas estão percebendo uma antipatia crescente pela polícia nesses círculos, que tendem a se considerar aliados de homens e mulheres uniformizados.

“Isso cria uma situação muito perigosa”, pontuou Cassie Miller, analista de pesquisa sênior do Southern Poverty Law Center. “Porque não só pode haver encontros violentos com os esquerdistas, mas também aumenta o potencial de que haverá um confronto violento com os policiais também”.

Yahya Abou-Ghazala da CNN, Nelli Black, Blake Ellis, Drew Griffin, Melanie Hicken e Benjamin Naughton contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido, leia o original em inglês).