Pence não descarta 25ª Emenda para destituir Trump da presidência, diz fonte

Isso exigiria que o vice e uma maioria do Gabinete votassem para remover Trump devido à sua incapacidade de “cumprir os poderes e deveres de seu cargo”

Jim Acosta e Pamela Brown, da CNN
10 de janeiro de 2021 às 11:16 | Atualizado 10 de janeiro de 2021 às 11:19
Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos
Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos
Foto: CNN (06.jan.2021)

O vice-presidente Mike Pence dos Estados Unidos não descartou um esforço para invocar a 25ª Emenda e quer preservar a opção no caso o presidente Donald Trump fique mais instável, disse uma fonte próxima ao vice-presidente. A 25ª Emenda destitui o presidente de seu cargo.

A fonte disse que há alguma preocupação dentro da equipe de Pence de que haja riscos de invocar a 25ª Emenda ou mesmo de um processo de impeachment, já que Trump poderia tomar algum tipo de ação precipitada colocando a nação em risco.

Até a noite de sábado (9), Trump e Pence ainda não haviam se falado desde a invasão de quarta-feira (6) no Capitólio dos Estados Unidos que deixou cinco pessoas mortas, incluindo um oficial da Polícia do Capitólio, outra fonte disse à CNN. O presidente também não fez nenhum comentário público repudiando as ameaças de morte postadas nas redes sociais contra Pence.

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Pence finalmente “teve um vislumbre da vingança do POTUS”, disse uma fonte, usando a sigla para Presidente dos Estados Unidos.

Duas fontes familiarizadas com o assunto dizem que Trump está zangado com Pence e o vice, por sua vez, está decepcionado e triste com o presidente.

Trump colocou Pence em uma posição impossível, pedindo-lhe que anulasse os resultados das eleições durante a sessão conjunta do Congresso na quarta-feira. Quando Pence explicou que não poderia fazer isso e enviou uma carta aos membros do Congresso dizendo que seguiria a Constituição, Trump usou seu comício para incitar a multidão, dizendo-lhes que marchassem no Capitólio.

Sobre seu vice-presidente, ele disse: “Mike Pence, espero que você se defenda pelo bem de nossa Constituição e pelo bem de nosso país, e se não o fizer, ficarei muito decepcionado com você, estou dizendo. Não estou ouvindo boas histórias”. 

Como a CNN relatou anteriormente, assessores do vice-presidente ficaram indignados por Trump não ter perguntado como Pence estava, enquanto ele e sua família fugiam da multidão que atacava o Capitólio.

É a primeira vez que Pence discorda de Trump publicamente. O vice, que é ex-governador de Indiana, sempre foi um dos maiores defensores do presidente, muitas vezes suavizando sua retórica grossa e fazendo lobby por suas prioridades silenciosamente e nos bastidores no Capitólio, ao mesmo tempo apoiando vocalmente o presidente em comícios durante a campanha.

Por enquanto, a fonte próxima ao vice-presidente disse que Pence e seus conselheiros esperam fornecer uma ponte para o próximo governo e fazer o máximo possível para ajudar a equipe do presidente eleito Joe Biden na preparação para lidar com a pandemia do coronavírus.

Mas, segundo a fonte, ficou claro esta semana que é necessário manter a opção da 25ª Emenda na mesa com base nas ações de Trump.

Invocar a 25ª Emenda exigiria que Pence e uma maioria do Gabinete votassem para remover Trump do cargo devido à sua incapacidade de “cumprir os poderes e deveres de seu cargo”. Trata-se um passo nunca dado.

Trump poderia contestar sua decisão com uma carta ao Congresso. Pence e o Gabinete teriam então quatro dias para contestar carta de defesa e o Congresso então votaria. É necessária uma maioria absoluta de dois terços, geralmente 67 senadores e 290 membros da Câmara para removê-lo permanentemente.

Na quinta-feira, fontes próximas ao vice disseram que era “altamente improvável” que Pence tentasse invocar a 25ª Emenda. As fontes disseram que parecia que tal esforço acabaria sendo malsucedido. Pence não havia discutido a invocação da 25ª Emenda com nenhuma autoridade do gabinete, de acordo com o que disse anteriormente um membro do governo à CNN.

O líder democrata do Senado, Chuck Schumer, disse durante uma entrevista coletiva no início desta semana que ele e Pelosi tentaram ligar para Pence para invocar a emenda para destituir Trump do cargo, mas eles foram colocados em espera por 25 minutos e então foram informados de que Pence não falaria ao telefone.

Os democratas da Câmara planejam apresentar sua resolução de impeachment na segunda-feira, quando a Câmara se reunirá novamente. O último rascunho da resolução de impeachment, obtido pela CNN, inclui um artigo por “incitamento à insurreição”.

O Comitê de Regras da Câmara deve se reunir na segunda ou terça-feira para aprovar uma regra que governaria o debate para uma resolução de impeachment e o projeto do deputado democrata Jamie Raskin para criar um novo mecanismo para invocar a 25ª Emenda.

De acordo com esse cronograma, uma votação de impeachment é possível até meados da próxima semana.

Um número crescente de legisladores vem pedindo que o presidente seja destituído do cargo por impeachment ou pela 25ª Emenda. Até agora, os pedidos vieram em grande parte de democratas, mas pelo menos um republicano no Congresso, o deputado Adam Kinzinger, de Illinois, também aderiu.

O senador republicano Pat Toomey, da Pensilvânia, disse no sábado que acha Trump "cometeu ofensas impicháveis”, mas o senador (que não vai concorrer à reeleição em 2022) não tem certeza de que tentar destituir o presidente do cargo com apenas alguns dias restantes de seu mandato é o caminho certo.

No entanto, em um memorando para outros senadores na sexta-feira, o líder da maioria Mitch McConnell indicou que o mais cedo que o Senado pudesse aceitar qualquer artigo de impeachment aprovado pela Câmara provavelmente seria logo após o término do mandato de Trump, dizendo que o Senado não pode considerar os artigos durante o recesso.

Já que os republicanos dificilmente realizarão um julgamento antes de 20 de janeiro, os democratas do Senado poderão realizar um julgamento depois que Trump deixar o cargo, uma vez que oficialmente obtiverem a maioria.

A Casa Branca instou a Câmara a não avançar com o impeachment em um comunicado na sexta-feira (8). “Como disse o presidente Trump ontem, este é um momento de cura e unidade como uma nação. Um impeachment politicamente motivado contra um presidente com 12 dias restantes em seu mandato servirá apenas para dividir ainda mais nosso grande país”, disse o vice-secretário de imprensa Judd Deere.

Zachary B. Wolf, Clare Foran, Lauren Fox, Manu Raju, Jeremy Herb e Daniella Diaz contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).