Tragédias pessoais de Biden explicam empenho do novo presidente em unir os EUA

Empatia que transborda de Biden foi forjada no horror inimaginável de ter de enterrar sua primeira esposa, uma filha pequena e um filho adulto

Stephen Collinson, da CNN
20 de janeiro de 2021 às 13:54 | Atualizado 20 de janeiro de 2021 às 14:00
O presidente eleito dos EUA, Joe Biden
Joe Biden assumiu seu mandato nesta quarta-feira (20)
Foto: Joshua Roberts - 25.nov.2020 / Reuters


A vida de resiliência de Joe Biden diante da perda insuportável assume um novo significado após seu discurso de posse nesta quarta-feira (20) como 46º presidente dos Estados Unidos.

O destino uniu o novo líder dos Estados Unidos, um homem abalado pela tragédia e que encontrou forças para curar sua própria alma, com uma nação doente e ferida que precisa reunir firmeza semelhante para vencer suas crises pungentes.

A empatia que transborda de Biden foi forjada no horror inimaginável de ter de enterrar sua primeira esposa, uma filha pequena e um filho adulto. 

Assim como ele consolou apoiadores de luto em incontáveis momentos durante sua campanha eleitoral, ele agora assume a dor da nação por mais de 400 mil mortes pela pandemia do novo coronavírus. 

Depois de encontrar uma nova razão para viver após suas próprias perdas, ele desafia os norte-americanos a honrar suas perdas ao se unirem para vencer a batalha e restaurar uma vida normal.

"Sei que são tempos sombrios, mas sempre há luz", disse Biden emocionado, antes de deixar Delaware e partir para a missão para a qual se preparou a vida inteira.

O novo presidente também apresentará novos e ambiciosos planos para combater a deterioração econômica causada por lockdowns, e promete cruzar as fronteiras partidárias para aliviar o acirrado estranhamento político interno do país.

Seu discurso de posse irá simbolicamente virar a página da "carnificina americana" forjada por seu antecessor e também anunciar um novo amanhecer em que a decência será devolvida ao Salão Oval.

Em um momento de angústia nacional, ele buscará reacender a chama da crença americana de que amanhã pode ser melhor que hoje. Ao assumir as responsabilidades do cargo, Biden, nas palavras de um de seus poetas irlandeses favoritos, Seamus Heaney, buscará criar um momento em que "a esperança e a história rimam".

Depois que um sistema político projetado para impedir um poder incontrolável resistiu ao ataque do presidente Donald Trump, o novo presidente será capaz de afirmar a sobrevivência da democracia norte-americana - ainda que a posse ocorra por trás de cercas de ferro patrulhadas por milhares de soldados.

Com as vacinas oferecendo a possibilidade de que a pandemia comece a diminuir ainda neste ano, Biden também pode imaginar a perspectiva de dias melhores ao seu alcance.

Além disso, a posse de Kamala Harris, a primeira mulher, a primeira negra e a primeira de origem sul-asiática a ser vice-presidente dos Estados Unidos, trará progresso para a luta por justiça racial e igualdade de gênero.

A primeira tarefa de Biden em seu retorno a Washington foi coordenar uma vigília comovente ao pôr do sol sob um céu púrpura no Lincoln Memorial para os que se foram, algo nunca feito por Trump, que negou a pandemia e parecia acreditar que homenagear os mortos macularia sua imagem.

O evento solene, que contou com a presença da enfermeira de Michigan, Lori Marie Key, que cantou "Amazing Grace", ressaltou as promessas de Biden de restaurar a decência ao centro do poder, ao mesmo tempo em que busca nutrir a alma maltratada do país.

Sob o olhar marmóreo da estátua de Abraham Lincoln, que assumiu o cargo talvez na única época em que os Estados Unidos estavam mais divididos do que hoje, linhas de luzes se estendiam como lápides em direção ao distante Monumento a Washington.

A gravidade dos desafios de Biden

Novos presidentes normalmente usam seus discursos de posse para curar as feridas de eleições amargas, para reafirmar os valores de fundação dos Estados Unidos e para inspirar o país a se unir em um esforço nacional importante.

"A única coisa que devemos temer é o próprio medo", disse Franklin Roosevelt, cuja herança da Grande Depressão em 1933 é o equivalente moderno mais próximo de Biden.

Enquanto trabalhava em seu próprio discurso de posse, Biden teve de contemplar uma pandemia que nunca esteve pior, uma distribuição das vacinas que está confusa, uma economia pulverizada por lockdowns e uma geração de crianças que perderam meses importantes de aulas presenciais.

Seus desafios se tornaram ainda mais críticos desde a eleição, já que a recusa de Trump em admitir a derrota e a tentativa de roubar a vitória de Biden, bem como uma insurreição contra o Congresso, atacaram a legitimidade de Biden e expuseram uma insurgência nacionalista branca que representará uma ameaça contínua à segurança e à democracia dos EUA.

Embora a famosa frase de Roosevelt possa ressoar na abordagem da pandemia conduzida por Biden, o estado político fragmentado da nação lembra os esforços frenéticos de Lincoln para mantê-la unida durante sua posse em 1861.

"Nós não somos inimigos, mas sim amigos. Não devemos ser inimigos. Embora a paixão possa ter nos afetado, ela não deve romper nossos laços de afeto", advertiu o 16º presidente, meses antes do início da Guerra Civil.

Os atuais abismos dos Estados Unidos sugerem ainda mais sinergia entre Biden e seu momento da história.

Apesar de décadas de agravamento da polarização nacional, o presidente eleito ainda pensa que pode recrutar seu antigo colega republicano no Senado, Mitch McConnell, para aprovar elementos de sua agenda legislativa e um novo plano de estímulo para combater a pandemia.

Muitos democratas estão totalmente céticos. Além disso, os republicanos que vivem com medo de Trump e de seus 74 milhões de eleitores não têm motivos para fazer da presidência de Biden um sucesso. 

Mas a aposta antiquada de Biden, a de construir um governo com base em concessões em um momento em que tal sentimento não é muito incentivado, foi atraente para muitos eleitores cansados das guerras partidárias de Washington.

Trump tentou retratar a longa carreira de Biden como um risco durante a campanha, mas seus mais de 50 anos de experiência em Washington podem ajudá-lo a reestruturar a fraca resposta federal contra a Covid-19 e tirar o país de um pesadelo.

Uma jornada improvável

Ao colocar sua mão sobre a Bíblia nesta quarta-feira e fazer o juramento de posse, Biden completa uma jornada política e pessoal que parecia fadada a ficar aquém da Casa Branca.

O homem, que já foi um dos mais jovens senadores da história dos Estados Unidos, se torna, aos 78 anos, o presidente mais velho do país.

Esse dia nunca teria chegado se Biden tivesse seguido seus instintos iniciais e desistido da cadeira recém-conquistada no Senado dos Estados Unidos pelo estado de Delaware, que obteve em 1972 logo depois que sua esposa e filha morreram em um acidente de carro.

Biden passou meses ao lado de seus filhos sobreviventes, Beau e Hunter, enquanto eles lentamente se recuperavam de ferimentos graves. No fim dos anos 1980, ele passou por suas próprias crises de saúde com um aneurisma cerebral que quase o matou. Mas ele se recuperou.

A tragédia voltaria à vida de Biden novamente em maio de 2015, quando Beau, um veterano da Guerra do Iraque e estrela em ascensão do partido democrata, morreu de câncer no cérebro.

Biden sempre viu Beau como uma versão melhor de si mesmo. O presidente eleito, emocionado, confessou na quarta-feira: "Senhoras e senhores, só tenho um arrependimento: ele não estar aqui, porque deveríamos apresentá-lo como presidente".

A morte de Beau acabou convencendo Biden a não concorrer pela indicação do partido democrata em 2016 contra Hillary Clinton, por conta da preocupação com a resistência emocional de sua família para uma corrida eleitoral.

Mas o destino o chamou de volta à arena política, por causa da presidência aberrante de Trump e do equívoco do comandante em chefe sobre a condenação das marchas dos supremacistas brancos em Charlottesville, Virgínia.

"Joe Biden tem um coração que cura. Ele já passou por muita coisa", disse o ex-vice-presidente Al Gore a Anderson Cooper, da CNN, na noite de terça-feira (19).

Um homem mudado

Biden é hoje um político muito mais disciplinado do que foi durante grande parte de sua carreira.

Em seu retrato no livro "What It Takes - The Way to the White House" (O que é necessário: o caminho para a Casa Branca, sem edição no Brasil), um relato da campanha presidencial de 1988 pelo falecido Richard Ben Cramer, Biden era um político sedutor, com um sorriso deslumbrante, estilo alegre e altivo e tinha a autoconfiança de que a presidência era seu destino.

Mas a campanha de Biden em 1988 desapareceu em meio a um escândalo de plágio. Em 2008, ele desistiu depois de um fraco desempenho nos cáucuses de Iowa.

Mesmo quando foi escolhido por Barack Obama como seu candidato a vice-presidente, muitos dos assessores mais jovens em torno do futuro presidente consideraram Biden uma caricatura de língua solta - uma impressão que ele fortaleceu ao aumentar sua longa lista de gafes políticas. 

Mas a administração firme da Lei de Recuperação conduzida pelo vice-presidente Biden (o que aumentou seu pedigree na corrida pela presidência desta vez) conquistou admiradores e, após oito anos de lealdade a Obama, ele era amado e respeitado na Casa Branca.

Agora, já desacelerado pela idade, Biden deixou as ruidosas declarações iniciais que reviravam os olhos do Comitê de Relações Exteriores do Senado para trás e demonstrou uma habilidade política inesperada.

Há apenas um ano, parecia que suas ambições políticas iriam afundar novamente, após péssimos resultados nas disputas de indicação em Iowa e New Hampshire. Porém, com a persistência que já é sua marca registrada, ele se ergueu com uma grande vitória na Carolina do Sul, o que o levou à indicação do partido democrata e à presidência.
Sua maneira de lidar com o comportamento sem precedentes de Trump durante uma transição traiçoeira é fruto da sabedoria conquistada em décadas de altos cargos e da disposição de subverter seu próprio ego para o bem da nação, algo que também é outra diferença gritante com o presidente que hoje deixa o cargo.

Sua campanha também se beneficiou da redução de um cronograma de viagens exaustivo.

Mas toda vez que ele precisava mostrar seriedade e equilíbrio (como nos debates contra Trump e na Convenção Nacional Democrata) Biden discursava, mostrando um novo estilo moderado de falar, o que provavelmente já era uma prévia de sua eloquência presidencial e foi moldado por suas tragédias e sua redenção.

Essa durabilidade diante de angústias pessoais é a força que finalmente leva Biden a seu tão esperado destino nesta quarta-feira: o Salão Oval. E é exatamente por isso que ele pode ser o homem certo para um momento norte-americano tão crítico.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).