Apoio de ex-presidente deve dar sobrevida a Benítez no Paraguai, diz analista

Os principais grupos políticos de oposição no Paraguai articulam um pedido de impeachment contra o mandatário por má gestão da pandemia do novo coronavírus

Matheus Prado, da CNN, em São Paulo
07 de março de 2021 às 14:44
Presidente do Paraguai, Mário Abdo Benitez
26.fev.2019 - Presidente da República do Paraguai, Mário Abdo Benitez.
Foto: Alan Santos/PR

Mario Abdo Benítez, presidente do Paraguai, está em uma situação política delicada. A população do país sul-americano está indo às ruas desde sexta-feira (5) para protestar contra a gestão da pandemia realizada pelo mandatário e pedir que ele renuncie ao cargo que foi eleito para exercer em 2018.

Os dois principais grupos políticos de oposição no Paraguai, a Frente Guasú, do ex-presidente Fernando Lugo, e o Partido Liberal, articulam inclusive um pedido de impeachment do presidente. Tudo indica, no entanto, que Benítez deve se segurar à frente do país, pelo menos por agora.

Isso porque, para o movimento opositor ter votos suficientes no Congresso para derrubar Benítez, seria necessária a adesão de uma facção do Partido Colorado --o mesmo do atual chefe do executivo-- liderada pelo ex-presidente Horacio Cartes. Algo que Estela Ruíz Díaz, jornalista e analista de política paraguaia, entende que não vai ocorrer.

"Cartes tem o controle da Câmara dos Deputados para iniciar o processo de impeachment", diz Estela. "Mas não vai fazê-lo. E para isso pediu a mudança de alguns membros do Executivo, algo que o presidente fez ontem: Juan Villamayor, então Chefe de Gabinete, e Eduardo Petta, ministro da Educação, que são os maiores críticos do ex-presidente, saíram."

Benítez e Cartes até são considerados rivais, representando alas diferentes da direita do país. Mas na última crise política paraguaia, durante a polêmica sobre a venda de energia de Itaipu a uma empresa brasileira, em 2019, foi o apoio de Cartes e sua facção, chamada Honor Colorado, que já havia impedido o afastamento de Benítez. 

"Na verdade, Mario Abdo Benítez é um prisioneiro político do ex-presidente, já que Cartes tem votos para demiti-lo", diz. Estela explica, no entanto, que ele também tem bons motivos para garantir a permanência do seu sucessor no cargo, além das já conhecidas tradições partidárias, que dificultam o processo.

"Se Benítez cair, o vice-presidente Hugo Velázquez permanece e pode se tornar adversário de Cartes nas eleições presidenciais de 2023", afirma. "Além disso, o próprio Cartes tem seus problemas, nomeadamente a acusação de envolvimento com contrabando de cigarros para o Brasil."

Em caso de remoção de Benítez do cargo, analistas entendem que o seu carrasco poderia ser exposto por vingança. Vale lembrar, inclusive, que o atual presidente do Paraguai tem ótima relação com o chefe do executivo brasileiro, Jair Bolsonaro.