Bloqueio de navios pelos sauditas agrava a fome extrema no Iêmen

Mais da metade da população do Iêmen vive em "crise" ou "emergência" alimentar

Nima Elbagir, Barbara Arvanitidis, Angela Dewan, Nada Bashir e Yousef Mawry, da CNN, em Hodeidah
11 de março de 2021 às 15:45 | Atualizado 11 de março de 2021 às 15:47
Criança morre após tratamento contra fome severa
Hassan Ali, de dez meses, que morreu em um hospital em Abs, Iêmen, onde estava sendo tratado por desnutrição
Foto: CNN

Quando Hassan Ali, um bebê de 10 meses, chegou ao hospital, os médicos estavam esperançosos de que poderiam salvá-lo. Afinal, muitas crianças do norte do Iêmen nem conseguem chegar tão longe, famintas não só de comida, mas também do combustível necessário para viajar até o socorro médico.

A CNN observou médicos e enfermeiras sobrecarregados enquanto tentavam dar oxigênio a Hassan, que chegara seis dias antes, mas não estava ganhando peso e lutava para respirar. Poucas horas depois, Hassan morreu.

“Ele é apenas um de muitos casos”, disse o doutor Osman Salah. A enfermaria está cheia de crianças desnutridas, incluindo bebês de apenas algumas semanas.

Todos os meses, a enfermaria pediátrica deste hospital recebe mais pacientes do que sua capacidade de 50 crianças, às vezes o dobro. O doutor Salah conta que cerca de 12 crianças morrem lá por mês. Ele e sua equipe estão esgotados – e não são pagos há mais de meio ano.

O Iêmen chegou ao precipício da fome e voltou várias vezes ao longo de seus seis anos de guerra. Agora, as condições terríveis não vistas há dois anos voltaram aos rincões do país.

Estima-se que 47 mil pessoas vivam com níveis “catastróficos” de insegurança alimentar (ou condições análogas à fome) de acordo com uma análise pela Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), a autoridade mundial em segurança alimentar. Outros 16 milhões vivem em condições de segurança alimentar de “crise” ou “emergência”, segundo a análise. É mais da metade da população do Iêmen.

A situação em rápida deterioração é resultado principalmente de cortes de financiamento que prejudicaram atividades de agências como o Programa Mundial de Alimentos (WFP, na sigla em inglês), que agora luta para atender às necessidades mais básicas de milhões de iemenitas, especialmente no norte do país.

Mas também foi agravada por uma crescente crise de combustível. Funcionários do hospital em Abs, onde morreu o bebê Hassan, dizem que terão que fechar em menos de três semanas se não receberem mais financiamento e combustível para manter seus geradores funcionando. A mesma situação se repete em todo o norte do país.

“Se tivéssemos combustível facilmente disponível no mercado, o número de casos que estamos atendendo no hospital seria muito maior, porque, no momento, há pacientes que ficam em casa, por conta dos desafios e despesas do deslocamento até o hospital”, relatou o doutor Salah.

Como resultado, as crianças estão simplesmente morrendo em suas casas.

 

Um bloqueio amargo

O combustível normalmente chega ao norte do país através do porto de Hodeidah, que era repleto de atividades econômicas nos bons tempos. Mesmo durante a guerra civil em curso no Iêmen, ele tem sido uma porta de entrada dinâmica para a economia de conflito, porta de entrada para alimentos e outros tipos de ajuda de que os iemenitas dependem.

Mas a região do porto agora é uma cidade fantasma. Centenas de caminhões de ajuda alimentar

estão estacionados em uma fila que se estende por quilômetros ao longo de uma estrada empoeirada. Um tanque imenso que geralmente armazena cerca de 2,5 mil toneladas de petróleo está vazio no porto. Ele solta um rangido que ecoa longe mesmo com o toque mais suave.

Caminhões enfileirados em Hodeidah, completamente carregados, mas sem combustível para prosseguir o transporte
Foto: CNN

Os navios de guerra sauditas não permitem que nenhum petroleiro atraque em Hodeidah desde o início do ano, segundo acusam os houthis, o grupo religioso-político que tenta dominar o país. A afirmação é confirmada pelo Programa Mundial de Alimentos. A prática está privando o norte do país do combustível tão necessário. Desde 2015, a Arábia Saudita tem apoiado militarmente o governo do Iêmen, reconhecido internacionalmente, que agora opera no exílio a partir de Riad, e combate os houthis.

Os navios sauditas que patrulham as águas de Hodeidah têm controle sobre quais navios comerciais podem atracar e descarregar sua carga. Algumas mercadorias estão passando – a CNN testemunhou o desembarque de material de ajuda em caminhões no porto depois de ser entregue por navio –, mas não há combustível para entregá-las onde são necessárias.

A CNN obteve documentos do registro de desembarque do porto mostrando que 14 navios foram liberados pelo órgão de verificação e inspeção da ONU para transportar combustível para o país. O site de rastreamento MarineTraffic.com mostra que essas embarcações estão agora paradas no Mar Vermelho entre a fronteira da Arábia Saudita, o Iêmen e a Eritreia, incapazes de descarregar seu combustível.

A ONU já havia acusado os houthis de desviar centenas de milhões de dólares em impostos sobre combustíveis destinados ao pagamento de funcionários públicos. A ONU reiterou também que as agências ainda precisam operar no norte, onde a necessidade humanitária é maior.

A queda de braços é contínua. Autoridades houthis disseram à CNN que estão sendo multadas em milhões de dólares pelas empresas donas de navios que não podem atracar.

O estoque de combustível do porto de Hodeidah, que está quase seco. O último carregamento a chegar na região foi entregue em 30 de dezembro de 2020
Foto: CNN

Quase três anos atrás, o Conselho de Segurança da ONU criminalizou “intencionalmente o uso da fome de civis como método de guerra” e exigiu que “o acesso aos suprimentos necessários para a preparação de alimentos, incluindo água e combustível” fosse mantido intacto no norte do Iêmen.

O governo saudita não respondeu ao pedido da CNN para comentar o novo bloqueio de combustível e à pergunta sobre se o bloqueio de combustível poderia constituir um método de guerra.

A Organização Mundial de Saúde, que fornece fundos essenciais para hospitais e clínicas, diz que não tem financiamento algum para garantir combustível para realizar seus serviços em todo o Iêmen.

“A partir de março de 2021, a OMS terá que parar de distribuir combustível para 206 instalações em todo o país. Mais de 60% delas são hospitais que fornecem serviços não disponíveis no já frágil nível primário. Isso levará à paralisação de serviços que salvam vidas, como prontos-socorros e unidades de terapia intensiva, incluindo UTIs para  Covid-19. Mais de 9 milhões de pessoas serão afetadas”, disse em um documento compartilhado com a CNN.

Apoiado pela Arábia Saudita, o governo do Iêmen no exílio negou repetidamente vistos para repórteres da CNN entrarem no norte do país após a cobertura jornalística do ano passado que expôs a queda dramática da Arábia Saudita no financiamento humanitário para a guerra. A CNN viajou à noite de barco do leste da África para chegar ao norte controlado pelos houthis, onde um bloqueio saudita contribuiu para um sofrimento em larga escala e enormes desafios à segurança alimentar.

A Arábia Saudita tem como alvo os houthis apoiados pelo Irã no Iêmen desde 2015, com o apoio dos EUA e de outros aliados ocidentais. O país esperava conter a disseminação de poder e influência dos houthis no país apoiando o governo internacionalmente reconhecido do presidente Abdu Rabu Mansour Hadi.

Mas os houthis continuam a atingir alvos sauditas com mísseis e ataques de drones de dentro do Iêmen.

Biden pode virar a guerra?

A dinâmica do conflito, entretanto, parece estar mudando rapidamente. Em fevereiro, o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou uma nova estratégia para o Iêmen, dando impulso à busca por um cessar-fogo e eventual solução política.

Ainda há poucos detalhes concretos de sua política, mas o ponto central de seu anúncio foi a retirada dos EUA do apoio ofensivo à Arábia Saudita.

“Historicamente, os EUA não viram o Iêmen como uma nação independente e soberana por direito próprio. Os EUA trataram o Iêmen como uma extensão da política EUA-Arábia Saudita ou da crise EUA-Irã”, afirmou Munir Saeed, ex-presidente de um grupo pró-democracia do Iêmen chamado TAWQ, em uma entrevista coletiva na semana passada.

Ele saudou a mudança de direção, dizendo que a estratégia de Biden foi a primeira dos EUA a colocar os interesses do Iêmen no centro.

“Lidar com o Iêmen como um país que tem seus próprios problemas e separá-lo dos problemas saudita-iranianos é muito importante para chegar à paz”.

O governo do presidente Barack Obama apoiou a intervenção da Arábia Saudita no Iêmen em 2015 e ofereceu ao reino saudita negócios de armas no valor de mais de US$ 115 bilhões (cerca de R$ 643 bilhões) no total, mais do que qualquer outro governo dos EUA na história das relações EUA-Saudita, de acordo com um relatório do Center for International Policy.

Crise humanitária no Iêmen se intensifica
Foto: CNN

Posteriormente, os EUA impuseram restrições à venda de certas armas para Riad, incluindo munições guiadas com precisão, após relatos de vítimas civis em vários ataques aéreos liderados pela Arábia Saudita. O governo do presidente Donald Trump reverteu algumas dessas restrições, embora tenha enfrentado oposição constante no Congresso.

Como parte de sua nova abordagem, Biden também nomeou um enviado especial para o Iêmen, Tim Lenderking, que acaba de concluir uma visita de duas semanas à região, tentando envolver diferentes partes e reiniciar os esforços de mediação.

Há limitações para o quanto o governo Biden pode alcançar. Em última análise, um cessar-fogo dependerá dos atores iemenitas no local.

Além disso, os houthis mostram pouca vontade em desacelerar, ainda lançando mísseis e ataques de drones contra a Arábia Saudita, que vem respondendo com ataques aéreos. Na semana passada, os houthis afirmaram que também haviam assumido o controle de dez dos 14 distritos do cidade estratégica de Marib, no norte do país.

Na volta de sua viagem ao Golfo, Lenderking disse à CNN que a Arábia Saudita e seu governo iemenita aliado estavam prontos para concordar com um cessar-fogo, e pediu aos houthis que encerrassem seus ataques transfronteiriços a Marib.

“Eles estão prontos para se sentar para negociar o fim do conflito com todas as partes relevantes, incluindo o Ansarallah, às vezes chamado de houthi, durante o qual o acesso aos portos e outras questões poderiam ser tratadas e resolvidas rapidamente”, afirmou, usando o nome formal do grupo, em uma resposta por email às perguntas da CNN.

Quando questionado sobre o apoio dos EUA à Arábia Saudita enquanto o país estava bloqueando as entregas de combustível para Hodeidah, Lenderking disse que a situação era “complexa”.

“No que diz respeito ao combustível, precisamos deixar claro onde está o problema”, disse. Ele mencionou a acusação da ONU contra os houthis de que eles desviaram impostos de combustível destinados a pagar a servidores iemenitas para financiar seu esforço de guerra como a principal razão para barrar o abastecimento.

“Na verdade, o Ansarallah desviou [o dinheiro dos impostos do combustível] para seu esforço de guerra, que ele continua a financiar com receitas de importações desviadas e receitas portuárias”.

Lenderking disse que os EUA estão pedindo ao governo do Iêmen que trabalhe com a ONU em torno do impasse para garantir que a ajuda continue a fluir para onde é necessária e que a falta de combustível não piore a situação.

No Iêmen, a CNN se encontrou com Mohammed Ali Al-Houthi, um importante líder houthi, que disse que seu grupo estava disposto a vir à mesa de negociações, mas queria ver mais ações dos EUA antes de confiar em Biden.

“Em primeiro lugar, o presidente Biden era parceiro do presidente Obama, e durante esse tempo eles declararam que iriam se juntar à coalizão contra nosso país. Eles também concordaram e deram luz verde para que a coalizão continuasse perpetuando a matança em nosso país”, acusou.

“A confiança é criada por ações, não por palavras. A confiança deve surgir por meio de decisões. Até agora, não vimos nenhuma decisão concreta sendo tomada”.

Pedido da agência de ajuda por ação agora

Uma solução política, ou pelo menos um cessar-fogo inicial, contribuiria muito para resolver os problemas de segurança alimentar do país.

“Em resumo, até o fim da guerra, estamos fazendo o que podemos para salvar vidas. Mas o Iêmen precisa de paz”, disse a porta-voz do Programa Mundial de Alimentos (WFP na sigla em inglês), Annabel Symington.

Em abril do ano passado, o WFP foi forçado a cortar a cada dois meses a entrega de ajuda alimentar para 8 milhões de pessoas no norte do Iêmen. Agora, espera levantar US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 10,6 bilhões), o que será suficiente apenas para evitar a fome em larga escala.

Mohammed, um menino gravemente desnutrido de 6 meses, no Centro Terapêutico do Hospital Abs
Foto: CNN

O WFP e a maioria das agências não sabem quanto dinheiro receberão este ano, mas o quadro não parece promissor. Um grande evento de arrecadação em 1º de março conseguiu menos da metade dos US$ 3,85 bilhões (cerca de R$ 21,5 bilhões) que a ONU estima que precisa apenas para manter o país alimentado e funcionando.

Philippe Duamelle, o representante do Iêmen para a UNICEF, está fazendo um apelo urgente para que os doadores aumentem suas promessas, alertando que 2,3 milhões de crianças menores de 5 anos no Iêmen deverão sofrer de desnutrição aguda este ano, um aumento de 16% em relação a 2020.

“As crianças do Iêmen não podem esperar, temos de ajudá-los e salvá-los agora. A situação se deteriorou significativamente, e precisamos reverter essa tendência já”, disse.

Mas, assim como acontece em todos os desastres humanitários, há vislumbres de esperança. No distrito de Harf Soufian, que em janeiro caiu na categoria de fome “catastrófica”, outra bebê de 10 meses, mesma idade de Hassan Ali, segue lutando por sua vida.

Zahara, de 10 meses, nos braços da mãe no Hospital Rural Harf Soufian, onde se tornou uma célebre história de sucesso
Foto: CNN

Zahra foi vista pela reportagem no colo da mãe, chupando os dedos, no Hospital Rural Harf Soufian. Todos os funcionários estavam entusiasmados com sua história de sucesso.

Quando a bebê chegou ao hospital, pesava apenas 5 quilos, o que a coloca entre os 5% de peso mínimo para meninas, de acordo com os padrões de crescimento da OMS. Em apenas quatro dias, ela engordou 400 gramas, uma proeza nada fácil para um bebê de um bairro de pessoas famintas.

“Ela está melhorando”, contou o Adnan Abdul-Rahman, examinando um registro de seu ganho de peso.

“O difícil é trazer as crianças para cá. Mas, quando as famílias podem trazê-los aqui, isso faz diferença”.

O jornalista Abdelrahman Khalid contribuiu para esta reportagem. 

(Texto traduzido e adaptado. Leia o original em inglês).