Pai de menino morto durante fuga da Síria fala dos 10 anos de guerra

Em entrevista à CNN, Abdullan Kurdi lembra horrores do país e imagem do filho morto, que correu o mundo em 2015

Da CNN
16 de março de 2021 às 02:26 | Atualizado 16 de março de 2021 às 06:35

A guerra civil na Síria completou 10 anos nesta segunda-feira (15) deixando mais de 500 mil mortos e cidades completamente destruídas.

Abdullah Kurdi, pai do menino Allan, um dos símbolos do conflito - que morreu afogado aos 3 anos em 2015, após um naufrágio enquanto a família tentava fugir do país pelo mar Mediterrâneo - conversou com a CNN sobre como superou a perda.

A ideia era fugir para a Europa e de lá encontrar a irmã, que mora no Canadá. Foi uma tentativa de sobreviver à violência e à pobreza do país depois que Kobani, cidade onde moravam, foi totalmente destruída nos combates contra o estado islâmico. Abdullan perdeu, além do garoto, a mulher, Rehan, de 35 anos, e o outro filho, Galip, de 5.

 

Só ele escapou. Ele conta que o barco virou de repente, estava escuro e que, em segundos, perdeu a família.

"Coisas muito horrorosas aconteceram. Crianças morreram. Coisas muito horrorosas. A minha convicção é de que Deus mandou um recado ao povo, ao mundo, de que devemos amar uns aos outros", avalia, sobre o caos no país.

Com a comoção pelo filho, cujo corpo foi fotografado em uma praia e estampou jornais, sites e matérias de TV pelo planeta, Kurdi esperava que algo mudasse.

"Todo mundo se comoveu. O mundo todo se comoveu. Passou um mês, dois meses, três... E, lamento, tudo voltou a como era. Infelizmente", lamenta Abdullah, que se casou novamente, vive em Erbil, no Curdistão iraquiano, e se dedica a Allan Kurdi Foundation, que cuida de crianças refugiadas.

"Depois que meus filhos morreram, dediquei minha vida para as crianças. Não tinha mais filhos, então disse que toda criança que sofre, tudo que não pude proporcionar aos meus filhos vou dar para as crianças necessitadas do mundo inteiro", afirma.

Segundo a Agência para Refugiados das Nações Unidas (ACNUR), cerca de 80 milhões de pessoas ainda estão nessa situação de incerteza, `s espera de ajuda. Desses, 6,6 milhões são sírios, a maior população de migrantes no mundo.