Inteligência dos EUA diz que Rússia usou aliados de Trump contra Biden

Relatório do serviço de inteligência também aponta ações do Irã e da China nas eleições americanas de 2020

Zachary Cohen, Marshall Cohen e Katelyn Polantz, da CNN*
17 de março de 2021 às 15:55 | Atualizado 17 de março de 2021 às 17:55
Trump e Biden disputam a Casa Branca
Trump e Biden disputam a Casa Branca
Foto: Carlos Barría/Reuters (Trump) e Jonathan Ernst/Reuters (Biden)

O serviço de inteligência dos Estados Unidos disse em um relatório na terça-feira que o governo russo se intrometeu nas eleições de 2020 com uma campanha de influência “denegrindo” o presidente Joe Biden e “apoiando” o ex-presidente Donald Trump, detalhando uma campanha de desinformação massiva que teve sucesso e foi abertamente abraçada pelos aliados de Trump.

Os objetivos da Rússia não se limitaram a prejudicar a candidatura de Biden e ajudar na tentativa de reeleição de Trump, diz o relatório, já que a inteligência dos Estados Unidos descobriu que Moscou também tentou minar “a confiança pública no processo eleitoral e exacerbar as divisões sociopolíticas nos EUA”.

No geral, o relatório divulgado pelo Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional fornece a avaliação mais abrangente das ameaças estrangeiras às eleições de 2020 até o momento, detalhando extensas operações de influência por adversários dos EUA, incluindo a Rússia e o Irã, que procuraram minar a confiança no processo democrático, além de visar candidatos presidenciais específicos.

Isso também confirma o que foi amplamente presumido, e quase ocultado, no ano passado: Trump e seus aliados mais próximos abraçaram publicamente a campanha de desinformação da Rússia contra Biden, se reuniram com figuras ligadas ao Kremlin que faziam parte dessa campanha e promoveram suas teorias de conspiração.

O relatório disse que a tentativa estrangeira mais agressiva de “enfraquecer” Trump veio do Irã, mas o país não promoveu Biden “ativamente” e seus esforços foram menores do que a operação russa.

Embora o relatório conclua que vários adversários estrangeiros tentaram interferir, o documento também informa que “não há indícios de que qualquer ato estrangeiro tenha tentado alterar qualquer aspecto técnico do processo de votação nas eleições de 2020 nos Estados Unidos, incluindo registro eleitoral, a votação em si, a tabulação dos votos ou relatórios de resultados”.

As informações ecoam o que o braço cibernético do Departamento de Segurança Interna disse um dia após a eleição presidencial de 2020. “Não temos evidência de que nenhum adversário estrangeiro foi capaz de impedir os americanos de votar ou alterar a contagem dos votos”, disse na época a Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura (CISA, na sigla em inglês).

O governo Biden deve anunciar sanções relacionadas à interferência eleitoral já na próxima semana, disseram à CNN três funcionários do Departamento de Estado dos EUA. Eles não divulgaram nenhum detalhe relacionado às sanções esperadas, mas disseram que elas terão como alvo vários países, incluindo a Rússia, a China e o Irã.

Rússia usou pessoas próximas a Trump para espelhar desinformação

Os esforços da Rússia para influenciar as eleições de 2020 apareceram com destaque no relatório, que detalha como “agentes ligados à inteligência russa” foram usados para propagar alegações infundadas sobre Biden para o público americano.

“Um elemento-chave da estratégia de Moscou nesse ciclo eleitoral foi o uso de agentes ligados à inteligência russa para divulgar narrativas de influência – incluindo alegações enganosas ou infundadas contra o presidente Biden – para organizações de mídia dos EUA, funcionários do país e americanos proeminentes, incluindo alguns próximos aos ex-presidente Trump e sua administração”, diz o relatório.

“Ao contrário de 2016, não vimos esforços cibernéticos russos persistentes para obter acesso à infraestrutura eleitoral”, diz o documento.

O relatório concluiu que o presidente russo, Vladimir Putin, estava “ciente e provavelmente dirigiu” a operação para atingir Biden – e dar um impulso a Trump, assim como foi feito na eleição de 2016.

Por exemplo, as agências de inteligência dos Estados Unidos avaliaram que Putin “tinha competência sobre as atividades de Andriy Derkach”, o legislador ucraniano que se reuniu com o advogado de Trump, Rudy Giuliani, e promoveu repetidamente a desinformação contra Biden. Ao vincular Putin diretamente às ações de Derkach, o relatório coloca apenas um grau de separação entre o líder russo e o advogado de Trump.

Esses tipos de conexões Trump-Rússia foram o que levou à investigação do advogado especial Roberto Mueller sobre um possível conluio nas eleições de 2016. Mas desta vez, o relacionamento estava aberto para todos.

A CNN reportou anteriormente que Giuliani e outros aliados do ex-presidente se uniram publicamente a figuras ligadas ao Kremlin como Derkach e outros, mesmo quando o governo dos Estados Unidos advertiu que estavam espalhando mentiras. Giuliani não respondeu imediatamente ao contato da CNN na terça-feira.

O relatório foi um repúdio indiscriminado às muitas narrativas falsas promovidas por meios de comunicação de direita, incluindo alegações sobre os negócios de Biden na Ucrânia e a fraude eleitoral generalizada. O relatório disse que a Rússia tentou “lavar narrativas de influência [...] por meio de organizações de mídia dos EUA”, mas não citou os meios de comunicação específicos envolvidos.

No entanto, as descobertas também destacam involuntariamente os limites da capacidade do governo dos Estados Unidos de combater a intromissão estrangeira.

Konstantin Kilimnik, descrito no relatório como um agente de influência russa, e uma organização que postava ofensas deliberadas, também mencionada no relatório, são acusados de reincidência – por intromissão em 2016 e novamente em 2020. Kilimnik foi indiciado em 2018, mas permaneceu seguro na Rússia. Doze pessoas da organização foram sancionadas, mas as operações online continuaram.

Ainda assim, os democratas foram rápidos em destacar que as descobertas do serviço de inteligência dos EUA ressaltam as advertências dos legisladores nos meses que antecederam a eleição de novembro.

“O relatório do serviço de inteligência divulgado hoje ressalta o que todos nós já sabíamos - que a Rússia interferiu para apoiar o ex-presidente Trump, prejudicou o presidente Biden e minou a confiança em nosso processo eleitoral. Por meio de agentes, a Rússia conduziu uma operação de inteligência bem-sucedida que infiltrou no círculo mais próximo do ex-presidente”, disse o deputado Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, em um comunicado na terça-feira.

O senador Mark Warner, presidente democrata do Comitê de Inteligência do Senado, também destacou que a Rússia “despendeu esforços reais” interferindo nas eleições de 2016 e 2020.

“Este relatório destaca os esforços contínuos e persistentes de nossos adversários para influenciar nossas eleições, sobre as quais todos os americanos devem ser informados. A Rússia, em particular, despendeu esforços reais, não apenas em 2020, mas também em 2016, como todos lembramos, para influenciar os resultados das eleições”.

Campanha secreta de influência do Irã

O relatório também descreve como o Irã realizou uma “campanha de influência secreta multifacetada” visando as eleições.

Especificamente, o relatório diz que os esforços do Irã “visavam minar as perspectivas de reeleição do ex-presidente Trump – embora sem promover diretamente seus rivais – minar a confiança do público no processo eleitoral e nas instituições americanas, e semear divisão e exacerbar as tensões sociais nos Estados Unidos”.

A China também é mencionada, mas em um contexto muito diferente do da Rússia e do Irã.

“Avaliamos que a China não moveu esforços de interferência e que considerou, porém, não mover esforços de influência destinados a mudar o resultado da eleição presidencial dos Estados Unidos”, afirma o relatório.

Essa descoberta parece minar as afirmações do governo Trump de que Pequim estava interferindo na eleição para ajudar Biden a vencer, uma mensagem que as principais autoridades disseminaram por meses antes de novembro, provocando reação dos democratas, que os acusavam de tentar equivocar a ameaça representada pela China e pela Rússia.

O relatório, no entanto, afirma que havia algumas opiniões conflitantes dentro do serviço de inteligência sobre as ações da China, citando uma “visão minoritária” de que alguns funcionários da inteligência têm confiança “moderada” de que a China deu “pelo menos alguns passos” para prejudicar a candidatura de Trump.

Em uma declaração na terça-feira, a Diretora de Inteligência Nacional do governo Biden, Avril Haines, chamou a influência estrangeira maligna de um “desafio duradouro que nosso país enfrenta”.

“Esses esforços dos adversários dos Estados Unidos buscam exacerbar as divisões e minar a confiança em nossas instituições democráticas. Enfrentar esse desafio contínuo requer uma abordagem de todo o governo baseada em um entendimento preciso do problema, que o serviço de Inteligência, por meio de avaliações como essa, se esforça para fornecer”, disse ela.

*Kylie Atwood, da CNN, contribuiu para essa reportagem

(Texto traduzido, clique aqui e leia o original em inglês)