Muralha viva de 8 mil km pode conter o avanço do maior deserto do mundo

Chamado de Grande Muralha Verde, projeto enfrenta desafios para ser concluído até 2030; iniciativa alcançou apenas 4% da meta no momento

Nell Lewis, da CNN
17 de março de 2021 às 11:29 | Atualizado 17 de março de 2021 às 11:54
Grande Muralha Verde
Grande Muralha Verde
Foto: Reprodução/Great Green Wall

O maior deserto do mundo está crescendo. No último século, o Deserto do Saara se expandiu em mais de 10% e agora cobre uma área de 8,6 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo 11 países no norte da África

A região do Sahel, um cinturão semiárido que atua como uma zona tampão ao sul do deserto, é a mais afetada. A água, já escassa, tem se tornado mais rara. A qualidade do solo se deteriora e a falta de vegetação causa insegurança alimentar. A ONU estima que cerca de 135 milhões de pessoas que dependem dessas terras degradadas estão em risco. 

Mas um plano ambicioso, lançado pela União Africana em 2007, poderá ajudar a conter as areias quentes e proteger as comunidades do Sahel. Até o final desta década, a iniciativa da Grande Muralha Verde espera restaurar 100 milhões de hectares de terra entre o Senegal, no oeste, e Djibouti, no leste, criando uma área de 15 quilômetros de largura e 8 mil quilômetros de comprimento de árvores, vegetação, pastagens e plantas. 

Depois de lutar com financiamento insuficiente e imprevisível, o projeto recebeu um grande impulso em janeiro: US$ 14 bilhões (R$ 78,7 bilhões) em novos financiamentos da França, Banco Mundial e outros doadores – o que contribuiu com quase metade dos US$ 33 bilhões (R$ 185,4 bilhões) estimados pela ONU para atingir a meta em 2030. 

Se concluída por completo, a parede terá mais de três vezes o comprimento da Grande Barreira de Corais, atualmente a maior estrutura viva da Terra. 

A nove anos do prazo final, ainda há um longo caminho a percorrer. Até agora, 4 milhões de hectares de terra foram restaurados – apenas 4% da meta geral – embora isso aumente para quase 20 milhões de hectares quando contadas as áreas fora das zonas oficiais da Grande Muralha Verde. 

Os países tentam uma variedade de medidas de conservação, como reflorestamento, sistemas agroflorestais, criação de terraços e conserto de dunas – uma técnica que impede o movimento da areia por tempo suficiente para permitir que a vegetação natural se estabeleça. Eles também estão tomando medidas para proteger o abastecimento de água, fazendo furos e construindo sistemas de irrigação. 

É relatado que a Etiópia foi o país que mais restaurou até agora, produzindo 5,5 bilhões de plantas e mudas, e plantando mais de 150 mil hectares de terras reflorestadas e 700 mil hectares de terraços – que juntos foram uma área mais de cinco vezes o tamanho de Londres. 

“Levamos mais de uma década para definir os países e todas as estratégias”, disse Elvis Paul Tangem, coordenador da iniciativa Grande Muralha Verde na Comissão da União Africana. “Mas agora lançamos as bases, vimos o que funcionou e o que não funcionou e estamos no caminho certo para atingir nossos objetivos.” 

Entre as maiores lições aprendidas está a importância da colaboração da comunidade, diz Tangem. “Voltamos às comunidades da linha de frente e olhamos exatamente para suas necessidades e os conhecimentos e práticas indígenas que vêm acontecendo há séculos”, disse ele. 

Comunidades

Sarah Toumi, uma ambientalista franco-tunisiana evolvida no recente esforço de arrecadação de fundos da iniciativa, concorda que um projeto tão ambicioso só será possível se os residentes locais o apoiarem totalmente. 

“É muito fácil plantar uma árvore, mas não é fácil cultivar uma”, disse ela à CNN. “É caro em áreas áridas: você tem que regar, tem que cuidar, tem que evitar que os animais comam.” 

Toumi fala por experiência própria após fundar uma organização chamada Acacias for All, que visa restaurar as terras afetadas pela desertificação na Tunísia. A organização plantou mais de 700 mil acácias na região, segundo ela. 

Trazer as comunidades para a iniciativa e demonstrar o valor da restauração tem sido vital para a sustentabilidade do projeto. A organização de Toumi ajuda a ensinar os agricultores a colher as folhas, frutos e goma da planta para que possam viver dela. 

Além da meta da Grande Muralha Verde para a restauração de terras, existe também a meta de criar 10 milhões de empregos no meio rural. Até agora, 335 mil foram criados e o cultivo de frutas e produtos florestais rendeu US$ 90 milhões (R$ 507 milhões), de acordo com a ONU. 

“Trata-se de criar meios de subsistência sustentáveis para as pessoas... para que possam viver pacificamente em seus ecossistemas e preservar suas tradições e preservar suas paisagens”, diz Toumi. 

Promovendo a paz 

À medida que a população cresce rapidamente na região, a restauração de terras combinada com a criação de empregos está se tornando cada vez mais urgente. Em todo o continente africano, mais da metade dos 375 milhões de jovens que ingressarão no mercado de trabalho nos próximos 15 anos viverão em áreas rurais. 

Se não houver emprego para alguém em sua comunidade devido à desertificação e degradação do solo, é provável que migre – o que pode desencadear instabilidade política em todo o mundo, diz Monique Barbut, ex-secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e especial enviado para a biodiversidade ao presidente francês. 

Ao envolver 11 países, a iniciativa pode ajudar a unir os líderes africanos, acrescenta, “trazer de volta a vida àquela região do mundo, o que nos ajudará a estabilizar essa parte da África por motivos políticos”. 

Tangem concorda, observando “a forte ligação entre a gestão dos recursos naturais e a estabilidade política na região”. Depois de concluída, a Grande Muralha Verde pode ajudar a fornecer uma solução baseada na natureza com impacto global. 

(Texto traduzido, leia o original em inglês)