Encontro no Alasca entre EUA e China marca um início amargo de novas relações

No primeiro dia de negociações, autoridades norte-americanas e chinesas trocam acusações que podem dificultar laços mais estreitos entre os dois países

Análise de James Griffiths, da CNN
19 de março de 2021 às 11:29 | Atualizado 19 de março de 2021 às 22:09

Quando foi revelado pela primeira vez que funcionários do alto escalão dos Estados Unidos e da China se reuniriam no Alasca esta semana, houve um certo grau de otimismo que isso poderia marcar o início de um novo relacionamento entre os dois países, após um colapso quase completo durante o ano final do mandato do presidente Donald Trump.

No mês passado – após uma ligação entre o presidente Joe Biden e o líder chinês Xi Jinping –, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, que participa da cúpula no Alasca, disse que, “nos últimos anos, as relações China-EUA se desviaram do caminho normal e enfrentaram as maiores dificuldades desde o estabelecimento das relações diplomáticas”.

Wang pediu um recomeço, e a mídia estatal chinesa especulou que um “momento do Alasca” poderia fornecer a oportunidade exatamente para isso.

Mas, à medida que a cúpula se aproximava, ambos os lados começaram a sinalizar que qualquer espaço para acordos era pequeno, minimizando as chances de progresso real. Isso culminou com o embaixador da China nos Estados Unidos, Cui Tiankai, dizendo na quinta-feira (18) que não tinha “grandes expectativas” para as negociações no Alasca.

Reunião entre o embaixador chinês Cui Tiankiai e o secretário de Estado dos EUA Anthony Blinken no Alasca
Foto: Pool

No entanto, Cui pode ter ficado surpreso com o início amargo dessas conversas. Depois que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, leu os comentários preparados para jornalistas convidados a assistirem à abertura da reunião, na qual ele prometeu levantar “profundas preocupações” que o Governo Biden tinha com algumas ações chinesas, o principal diplomata de Pequim, Yang Jiechi, pressionou imediatamente a voltar atrás nas decisões.

Yang alertou os EUA para pararem de se intrometer nos “assuntos internos” da China e disse que eles deveriam “parar de promover sua própria democracia no resto do mundo”, acrescentando que muitos norte-americanos “na verdade têm pouca confiança na democracia dos Estados Unidos”.

Seus comentários foram muito além dos dois minutos que as autoridades norte-americanas afirmaram ter concordado antes das negociações, e Blinken insistiu em emitir uma réplica enquanto a mídia ainda estava presente, com os chineses o acusando de ser “condescendente” quando seus colegas dos EUA reclamaram de “arrogância”.

Em um artigo publicado horas depois do ocorrido na emissora estatal chinesa CCTV, o lado dos EUA estava “excedendo seriamente o limite de tempo” em seus comentários iniciais e “provocando disputa” ao lançar “ataques irracionais” sobre as políticas interna e externa da China.

No entanto, as reuniões a portas fechadas parecem ter sido mais adequadas. Após o término da primeira sessão, um funcionário da Casa Branca disse a repórteres que as negociações foram “substantivas, sérias e diretas”.

“Usamos a sessão, assim como tínhamos planejado, para delinear nossos interesses e prioridades e ouvimos o mesmo de nossos colegas chineses”, pontuou.

Espera-se que o conjunto final de negociações, iniciado nesta sexta-feira (19), se estenda até o final da noite no Alasca.

‘Maior teste geopolítico’

Desde antes de Biden ser eleito no ano passado, apesar do desejo de reiniciar as relações com Washington, Pequim deixou claro o que quer em seus próprios termos.

Embora a reputação global da China tenha sido prejudicada pela pandemia do novo coronavírus, o país emergiu em grande parte ileso economicamente. No campo político, o Partido Comunista está ainda mais seguro do que nunca, como demonstrado pelas novas repressões em Xinjiang e Hong Kong.

Desde 2010, a China clama por um “novo modelo de relações entre as principais potências”, sendo estrutura para uma relação mais equilibrada que foi amplamente rejeitada por Washington. Mas talvez Biden seja o primeiro presidente norte-americano a enfrentar uma China que se vê em igualdade de condições com os EUA e não se contenta em desempenhar o papel de parceiro menor.

Em um editorial no início deste mês, o jornal estatal China Daily destacou que “havia grandes esperanças de que (o Governo Biden) trabalharia com a China para colocar as relações bilaterais em um caminho mais positivo”.

Embora Pequim tenha deixado claro que prefere um relacionamento estável, os movimentos agressivos do governo Trump também demonstraram que o país pode resistir a muito do que os EUA têm a oferecer, sejam tarifas comerciais, sanções ou pressão diplomática.

Depois que Biden afirmou ter feito uma ligação “robusta” com Xi no mês passado, a mídia estatal chinesa enquadrou a discussão de forma muito diferente. Xi demonstrou rejeitar as preocupações de Washington sobre Xinjiang, Hong Kong e Taiwan, dizendo que “o lado dos EUA deve respeitar os interesses centrais da China e agir com prudência”.

Pequim pode ter esperado um relacionamento mais parecido com o que teve durante a última passagem de Biden no governo, na presidência de Barack Obama, cuja retórica em ser duro com a China e um suposto “pivô para a Ásia” não teve muito efeito sobre os dois países. Os laços econômicos, de acordo com os críticos, contribuem muito para restringir as ambições territoriais chinesas.

Blinken, por sua vez, deixou claro que isso não está nas cartas. Ele chamou a relação EUA-China de “o maior teste geopolítico do século 21” e, antes do encontro do Alasca nesta semana, reuniu os aliados de Washington na região contra Pequim.

Uma ruga extra nas negociações vem com o julgamento de dois canadenses detidos na China sob acusações de espionagem. Michael Spavor e Michael Kovrig foram detidos, em 2018, depois que os EUA solicitaram a extradição do executivo canadense Meng Wanzhou da Huawei.

O julgamento de Spavor começou na sexta-feira em Dandong, China, enquanto as autoridades se reuniam no Alasca. Anteriormente, tanto Blinken quanto Biden solicitaram a Pequim para libertar os dois homens, cuja detenção de Ottawa e Washington consideram arbitrária e política, e fazê-la – potencialmente após uma condenação que salvou a face e sentença de cumprimento de pena – poderia ser um sinal fácil de boa vontade de Pequim.

Segundo a mídia estatal chinesa e as autoridades canadenses presentes no local, o julgamento de Spavor terminou em questão de horas. Uma declaração no site do Tribunal Popular Intermediário de Liaoning Dandong disse que um veredicto seria anunciado “em uma data posterior, de acordo com a lei”. O julgamento de Kovrig está previsto para começar na segunda-feira (22).

Frente unida

Essa boa vontade pode estar em falta, no entanto, dependendo de quão grandes esperanças eram de Pequim indo para a cúpula no Alasca.

De sua parte, Washington deixou claro esta semana que não estava preparado para fazer concessões. Falando em Tóquio, Blinken prometeu que os EUA “recuarão, se necessário, quando a China usar coerção ou agressão para conseguir o que quer”.

Seu homólogo japonês, Toshimitsu Motegi, respondeu que “a ordem internacional livre e aberta é grandemente desafiada pelas tentativas de mudar o status quo pela força e pelo progresso do sistema autoritário”. Ele ainda acrescentou que Tóquio e Washington concordaram com a necessidade de responsabilizar Pequim.

Uma mensagem semelhante foi entregue em Seul dias depois, onde o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, disse que seu país e os EUA “continuarão a agir juntos em desafios compartilhados”.

Enquanto Trump desfrutava de relações aparentemente positivas tanto com Moon quanto com o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, suas políticas em relação aos aliados dos EUA na região eram muitas vezes imprevisíveis. Oscilava entre intensificar a cooperação em algumas frentes, enquanto ameaçava forçar o Japão e a Coreia do Sul a pagar pelas bases das tropas norte-americanas nos respectivos países ou pelas tarifas comerciais.

Em seu discurso esta semana, Moon pareceu criticar Trump quando saudou o “retorno da diplomacia e aliança” com os EUA.

Esses laços mais fortes podem ser uma preocupação para Pequim, cujos movimentos agressivos ao longo de suas fronteiras marítimas e terrestres abalaram muitos vizinhos. A Índia, em particular, estabelece uma parte neutra na relação EUA-China, pois se aproximou muito mais de Washington em meio a confrontos de fronteira com as forças chinesas no Himalaia.

Este mês, Biden se reuniu virtualmente com os líderes do Japão, Índia e Austrália, um grupo conhecido informalmente como o Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad). Mais tarde, os quatro emitiram uma declaração conjunta – vista como direcionada a Pequim – dizendo que estavam “comprometidos com um Indo-Pacífico livre, aberto, seguro e próspero”.

Embora não seja uma aliança militar formal como a Otan, o Quad é considerado por alguns como um contrapeso potencial à crescente influência chinesa e alegada agressão na região da Ásia-Pacífico. Há sugestões que a inclusão da Coreia do Sul poderia fortalecer ainda mais a aliança.

O agrupamento foi denunciado por Pequim como um bloco anti-China. Mas é um bloco que, se traduzido em uma aliança mais coesa, poderia ter um efeito real de influenciar a política chinesa.

Com as negociações no Alasca parecendo improváveis de resultar em laços mais estreitos entre Washington e Pequim, os líderes da China podem estar apreensivos com o que isso poderia acarretar.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)