'Não é um ambiente seguro': Thierry Henry explica boicote às redes sociais

Sua decisão segue uma recente onda de abusos racistas online contra jogadores negros de futebol

Ben Church e Darren Lewis, da CNN Internacional
27 de março de 2021 às 06:15
Thierry Henry
Foto: Getty Images

O jogador de futebol da França Thierry Henry diz que espera que sua decisão de se afastar das redes sociais inspire outras pessoas a se levantarem contra o racismo e o bullying online.

O ídolo do Arsenal e do Barcelona e algoz da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2006 anunciou na sexta-feira (26) que excluiria suas contas nas redes sociais até que as empresas de tecnologia começassem a fazer mais para responsabilizar os usuários por suas ações.

Em abril de 2019, jogadores profissionais de futebol na Inglaterra e no País de Gales boicotaram as redes sociais por 24 horas, mas Henry é indiscutivelmente o nome mais relevante no esporte a implementar um boicote de longo prazo.

Sua decisão segue uma recente onda de abusos racistas online contra jogadores negros de futebol.

O jogador do Rangers, Kemar Roofe, e a dupla do Manchester United Anthony Martial e Fred são apenas alguns dos jogadores que recentemente receberam mensagens racistas em suas contas em redes sociais.

Henry, que tem 2,3 milhões de seguidores no Twitter, disse a Darren Lewis, da CNN Internacional, que, embora as redes sociais tenham muitos benefícios, alguns usuários optam por publicações preconceituosas.

"Não é um ambiente seguro", disse Henry à CNN americana. "Eu queria tomar uma posição ao dizer que é uma ferramenta importante que, infelizmente, algumas pessoas transformam em uma arma porque podem se esconder atrás de uma conta falsa."

Ele acrescentou: "Não estou dizendo que não é bom ter uma conta nessas plataformas, estou apenas tentando dizer que precisam ser locais seguros."

"Basicamente, eu fiz o que senti e espero que isso possa inspirar as pessoas a fazerem a mesma coisa se elas se sentirem da mesma maneira."

Inspirado em Muhammad Ali

Henry, de 43 anos, diz que se inspirou em ex-atletas, como o boxeador Muhammad Al , que falava abertamente sobre questões sociais e tópicos como a Guerra do Vietnã. "Muhammad Ali não queria ir para a guerra, ele não esperou para ver se todos estavam com ele, era o que ele sentia", disse Henry.

"Por favor, entenda que não estou nem perto desse calibre [...] mas eu disse a mim mesmo: 'Thierry, é assim que você se sente.' É isso que vou fazer. Para mostrar que, obviamente, não estou feliz com a forma como as coisas estão acontecendo nas redes sociais. "

Henry, que recentemente deixou o cargo de técnico do Montreal, diz que o racismo no futebol foi um problema ao longo de sua carreira e já havia falado sobre os abusos que sofreu como jogador.

"As coisas estão um pouco melhores no estádio, mas agora o problema mudou para as redes sociais, onde as pessoas podem se esconder", comenta. “Você sempre pode dizer: 'Oh, é difícil rastrear quem é.' Você fecha essa conta, eles podem abrir outra. Então, você apenas remove o problema.”

O ex-jogador francês Thierry Henry
Foto: Brad Smith/Getty Images

"Esse problema já se arrasta há muito tempo e não é um ataque a ninguém. Trata-se de tornar o lugar mais seguro."

Ao falar sobre o abuso que ele e outras figuras públicas negras receberam online, Henry diz estar ciente de que o problema do assédio na internet afeta a todos.

Ele diz que se preocupa com a presença de sua filha nas redes sociais e quer que as plataformas tratem o abuso online com o mesmo "vigor" com que lidam com as questões de direitos autorais.

"Quando você vê um comentário ruim em uma rede social, embora tenha um milhão de bons, você vai se concentrar no ruim, porque é isso que vai doer", disse ele, observando o efeito tóxico que essas mensagens podem ter na saúde mental de alguém.

"Às vezes você tenta descobrir. O que devo fazer? Quem sou eu? É o que eles estão dizendo, certo? É verdade? Eu sou assim? Imagine uma criança se fazendo essas perguntas que eu, às vezes, tenho dificuldade para lidar."

“Eu quero ver ação” 

No ano passado, o Facebook e o Instagram anunciaram que formariam uma equipe para combater o racismo e outras formas de discriminação em suas plataformas e avaliar o preconceito racial em seus algoritmos.

Em um comunicado publicado nesta sexta-feira (26), um porta-voz de uma empresa do Facebook disse: "não queremos abuso discriminatório no Instagram e o removemos quando o encontramos”.

"Entre outubro e dezembro do ano passado, tomamos medidas em relação a 6,6 milhões de peças de conteúdo de discurso de ódio no Instagram, das quais 95% encontramos antes que alguém nos relatasse.”

Quando questionado sobre o que estava fazendo para prevenir o abuso racista em sua plataforma, o Twitter direcionou a CNN americana para sua recente declaração, que destacou algumas das medidas implementadas.

"Comportamento racista, abuso e assédio não têm absolutamente nenhum lugar em nosso serviço. No Twitter, proteger a saúde das conversas públicas é essencial para nós, e isso significa garantir que o Twitter seja um lugar seguro para se expressar e acompanhar a conversa sobre futebol, sem medo de abuso ou intimidação. "

Desde a morte de George Floyd no ano passado, os órgãos dirigentes do futebol lançaram campanhas de conscientização sobre o racismo. Na Premier League, da Inglaterra, os times se ajoelham antes de cada jogo. 

Apesar disso, ainda são feitos apelos para que os detentores do poder, tanto nas redes sociais quanto no futebol, atuem mais na prevenção e na punição de mensagens racistas.

Tendo passado grande parte de sua carreira enfrentando esses problemas e estando ciente de que era um problema para as gerações anteriores, Henry diz que é hora de ver uma mudança real.

"Já cansei de falar, cansei de ouvir, quero ver ação. Quero ver como podemos erradicar isso e como podemos seguir em frente", disse ele.

“Falar obviamente não está funcionando muito. Há muita conscientização, muitas campanhas, mas ainda está acontecendo, então agora eu quero ver os responsáveis, os grandes nomes, aparecerem e explicarem”.

Mais cedo na sexta-feira, o secretário de Cultura da Grã-Bretanha, Oliver Dowden, em uma resposta no Twitter a Henry, disse: "ninguém deveria ter que desligar a mídia social por causa de abusos".

Dowden acrescentou: "as empresas de mídia social devem fazer mais para lidar com isso e estamos introduzindo novas leis para responsabilizar as plataformas. Isso é complexo e devemos acertar, mas estou absolutamente determinado a combater o abuso racista online."