Índia: Covid-19 dispara diante de variantes, aglomerações e falta de atendimento

Só na última semana, o país foi responsável por 38% dos casos globais do novo coronavírus, de acordo com a Organização Mundial da Saúde

Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo*
28 de abril de 2021 às 20:45
Mercado lotado em Mumbai; Índia superou 100 mil casos diários de Covid-19
Mercado lotado em Mumbai, na Índia; país superou a marca dos 100 mil casos diários de Covid-19
Foto: Niharika Kulkarni - 5.abr.2021/Reuters

O número de casos e mortes em decorrência da Covid-19 na Índia vem crescendo exponencialmente nos últimos dias. A falta de oxigênio, suprimentos médicos e equipes hospitalares agravou o número de novas infecções pela doença.

Nesta quarta-feira (28), o país registrou 360.960 novos casos, 3.293 óbitos e superou a marca de 200 mil mortos por Covid-19. Com a atualização, o número de infecções desde o início da pandemia na Índia chegou a quase 18 milhões.

Só na última semana, o país foi responsável por 38% dos casos globais do novo coronavírus, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em sua atualização epidemiológica semanal, a OMS revelou que na semana anterior ao domingo (25), a Índia registrou 2.172.063 novos casos.

Ao menos 300 mil pessoas foram diagnosticadas com Covid-19 por dia na semana passada, acarretando sobrecarga nas instalações de saúde e crematórios.

Segundo o prefeito da Corporação Municipal de Delhi do Norte (NDMC, na sigla em inglês), os crematórios da capital da Índia têm incinerado mais de 600 corpos diariamente. O número oficial de mortos em Delhi supera mais de 300 por dia.

Festivais religiosos e ida aos hospitais

O médico brasileiro Francisco Paquet Santos, da Gujarat Ayurveda University, na Índia, afirmou em entrevista à CNN que um dos principais motivos da piora da pandemia no país se deu por conta de festivais religiosos ocorridos nos últimos meses.

“Boa parte do aumento de casos no país se deve a dois grandes festivais religiosos que aconteceram entre fevereiro e abril. O Holi, festival religioso com manifestações mais profanas de divertimento e o Khumba Mela, de caráter mais religioso. Todos os vídeos que recebemos mostram que 90% das pessoas presentes estavam sem proteção e em grandes aglomerações,” disse Santos.

O médico disse também que os próprios hábitos culturais indianos impedem métodos de distanciamento social e que é comum ver pessoas sem máscaras nas ruas.

“Aglomerações acontecem recorrentemente em mercados públicos, hospitais e locais de comida de rua, não há gente usando a máscara corretamente nestes lugares. Na primeira onda houve mais respeito ao distanciamento por excesso de propaganda, mas não se consegue reverter práticas sociais de séculos em seis meses de propaganda.”

Variantes contagiosas e baixas taxas de vacinação

Já de acordo com a OMS, além das aglomerações em massa, variantes contagiosas e baixas taxas de vacinação, o aumento de mortes e casos estão atrelados à ida desnecessária de pessoas aos hospitais.

O porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, afirmou que menos de 15% das pessoas infectadas com Covid-19 na Índia realmente precisam de cuidados hospitalares e menos ainda vão precisar de oxigênio.

"Atualmente, parte do problema é que muitas pessoas correm para o hospital, também porque não têm acesso a informações, embora o monitoramento de cuidados domiciliares possa ser gerenciado com muita segurança", disse Jasarevic.

Segundo ele, os centros comunitários devem examinar e fazer a triagem dos pacientes e fornecer conselhos sobre cuidados domiciliares seguros, enquanto as informações também são disponibilizadas por linhas diretas ou painéis.

Subnotificações

Embora os números oficiais já sejam alarmantes, especialistas apontam que o cenário real pode ser ainda pior que o divulgado.

De acordo com um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, o número de 17,6 milhões de casos divulgados pela Índia pode ser até 30 vezes maior, chegando a quase meio bilhão de infecções.

As mortes, que oficialmente estão na casa das 200 mil, também estariam subnotificadas. O número real pode ser de 400 mil ou de quase 1 milhão no pior cenário, afirmam os pesquisadores.

Profissionais de saúde e cientistas na Índia há muito alertam que as infecções por Covid-19 e mortes relacionadas são significativamente subnotificadas por várias razões, incluindo infraestrutura deficiente, erro humano e baixo número de testes.

As testagens têm aumentado muito após a primeira onda, mas, mesmo assim, a verdadeira extensão da segunda onda que está devastando a Índia é provavelmente muito pior do que os números oficiais sugerem

Mesmo antes da pandemia, a Índia já tinha um problema crítico de subnotificação de mortos entre os seus cidadãos.

A infraestrutura de saúde pública subfinanciada do país resulta que, mesmo em tempos normais, apenas 86% das mortes em todo o país sejam registradas nos sistemas governamentais. E apenas 22% de todas as mortes registradas têm uma causa oficial, certificada por um médico, de acordo com o especialista em medicina comunitária Hemant Shewade.

A maioria dos indianos morre em casa ou em outros lugares, não em um hospital, então os médicos geralmente não estão presentes para determinar a causa da morte — um problema que se agravou na segunda onda, com hospitais sem espaço. Sem ter para aonde ir, cada vez mais pacientes da Covid estão morrendo em casa, em ambulâncias ociosas, em salas de espera e fora de clínicas lotadas.

Também existem problemas logísticos, como falta de informação na base de dados nacional ou erro humano. E essas questões são ainda mais graves nas áreas rurais.

Testes insuficientes

A capacidade de teste da Índia aumentou desde a primeira onda. Na mesma época do ano passado, o país estava testando menos de meio milhão de pessoas por dia. Agora, "eles estão fazendo cerca de 2 milhões de testes por dia", disse a cientista-chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS), Soumya Swaminathan.

Mas, segundo a cientista, "isso ainda não é suficiente porque a taxa média nacional de testes positivos é de cerca de 15% — em algumas cidades, como Déli, é de até 30% ou mais", disse. "Isso significa que há muitas pessoas por aí que estão infectadas, mas que não foram detectadas por causa da capacidade de testagem. Só saberemos mais tarde qual é o número real de pessoas infectadas."

Existem algumas razões para essa insuficiência de testes, de acordo com Bhramar Mukherjee, professor de bioestatística e epidemiologia da Universidade de Michigan. A mais óbvia é que, um paciente assintomático — com a chamada "infecção silenciosa" — pode simplesmente não saber que foi infectado, portanto, nunca fazer o teste.

Existem também diferentes estruturas de notificação de casos em diferentes cidades e estados, e os testes podem ser menos acessíveis nas áreas rurais. Os residentes mais pobres podem não ter condições de se afastar do trabalho ou da sua residência para fazer o teste.

Mas pesquisas sorológicas, que testam a existência de anticorpos no sistema imunológico para indicar se alguém foi exposto ao vírus, dão aos cientistas uma medida melhor de quantas pessoas podem estar infectadas na realidade.

Pesquisas nacionais anteriores mostraram que o número dessas pessoas é "pelo menos 20 a 30 vezes maior do que o relatado", disse Swaminathan, da OMS.

Quando aplicada aos últimos números relatados na terça-feira (27), essa estimativa pode elevar o total de casos na Índia para mais de 529 milhões.

Ajuda internacional

No último domingo (25), os Estados Unidos e a União Europeia anunciaram medidas para auxiliar a Índia.

Os norte-americanos fornecerão matéria-prima para a produção de vacinas contra a Covid-19, equipamentos médicos e equipamentos de proteção. Além disso, os EUA buscavam opções para fornecer à Índia geração de oxigênio e suprimentos relacionados.

Também está no radar dos EUA enviar ao país doses da vacina da AstraZeneca, que não estão sendo utilizadas, dado que o imunizante não tem autorização para uso.

Durante o final de semana, Reino Unido, França e Alemanha também prometeram ajuda.

A Comissão Europeia, por meio do Mecanismo de Proteção Civil, tenta enviar oxigênio e remédios para a Índia.

*(Com informações da CNN Internacional e Reuters)