Cientistas da Polônia descobrem a primeira múmia egípcia grávida

Pesquisadores encontraram pequeno pé no abdômen da múmia ao analisarem tomografia de corpo que, originalmente, acreditavam ser de um sacerdote

Lianne Kolirin, da CNN
30 de abril de 2021 às 15:14 | Atualizado 30 de abril de 2021 às 19:40

Cientistas da Polônia descobriram recentemente que uma múmia egípcia que antes se acreditava ser um sacerdote tratava-se, na verdade, de uma mulher grávida. A descoberta, a primeira do tipo em qualquer lugar do mundo, foi feita por membros do Projeto Múmia de Varsóvia.

A equipe, que desde 2015 tem trabalhado para examinar minuciosamente múmias humanas e de animais do Egito Antigo no Museu Nacional de Varsóvia, descobriu a verdadeira identidade do corpo após detectar um pequeno pé no abdômen da múmia.

De acordo com Marzena Okarek-Szilke, antropóloga e arqueóloga da Faculdade de Arqueologia da Universidade de Varsóvia, ela e seus colegas já haviam concluído suas pesquisas e se preparavam para enviar suas descobertas para publicação.

"Demos a última olhada nas imagens, com meu marido Stanislaw, um arqueólogo do Egito, e notamos uma imagem familiar para pais de três crianças no abdômen da mulher falecida: um pé minúsculo”, disse à agência de notícias estatal polonesa PAP.

Wojtek Ejsmond, um dos três co-fundadores do Projeto Múmia de Varsóvia, disse à CNN que a múmia foi trazida para a Polônia em 1826 por Jan Wezyk-Rudzki.

Tomografia computadorizada permitiu que cientistas localizassem pé de feto no abdômen da múmia
Foto: Projeto Múmia de Varsóvia

 

Naquela época, acreditava-se que era uma mulher, mas a visão mudou durante a década de 1920, quando uma inscrição no sarcófago foi traduzida para revelar o nome de um sacerdote egípcio, Hor-Djehuty. 

Embora pertença à Universidade de Varsóvia, a múmia foi emprestada ao museu desde 1917, onde está em exibição.

Durante sua pesquisa, a equipe encontrou algumas pistas interessantes. Usando tomografia computadorizada, de forma que as bandagens da múmia não precisavam ser removidas, eles descobriram que o corpo tinha uma estrutura esquelética delicada.

Uma análise mais detalhada convenceu os pesquisadores de que o corpo era feminino, pois não havia sinal de um pênis. Uma visualização 3D do corpo mostrou claramente cabelos longos e cacheados, e seios mumificados, de acordo com a equipe.

A múmia, que faz parte de uma coleção da Universidade de Varsóvia, está emprestada ao Museu Nacional de Varsóvia desde 1917
Foto: Projeto Múmia de Varsóvia

Outras investigações

Ejsmond disse à CNN que os pesquisadores acreditam que a mulher tenha morrido com idade entre 20 e 30 anos e que o feto teria entre 26 e 30 semanas de gestação.

"Não sabemos a causa da morte – será objeto de novas investigações", disse ele.

Uma das maiores dúvidas dos cientistas é por que o feto – cujo sexo não foi determinado – permaneceu no local já que órgãos internos eram rotineiramente removidos antes da mumificação.

"Toda essa descoberta chamou nossa atenção para a questão de por que não foi removido", disse Ejsmond. "Não sabemos por que foi deixado lá. Talvez tenha havido um motivo religioso. Talvez eles pensaram que o bebê não tinha alma ou que ficaria mais seguro no outro mundo. Ou talvez fosse porque era muito difícil remover uma criança nessa fase do útero sem causar danos graves."

Quando Wezyk-Rudzki originalmente trouxe a múmia para a Polônia, no século 19, ele sugeriu que ela havia sido encontrada nos túmulos reais em Tebas. Mas os arqueólogos não têm certeza sobre este ou qualquer um dos antecedentes da múmia.

'Estrutura esquelética delicada' fez pesquisadores suspeitarem que múmia era de uma mulher
Foto: Projeto Múmia de Varsóvia

Ejsmond explicou: "Não temos certeza se isso é verdade. Era muito comum as pessoas fornecerem origens falsas aos arqueólogos para aumentar seu valor e importância porque parecia melhor, então devemos ter muito cuidado com essas declarações. Não há motivos para confirmar."

Isso também pode explicar, parcialmente, porque a múmia está envolta em uma tumba com o nome de um sacerdote.

"Este é um dos assuntos mais complexos", disse Ejsmond. “Sabemos que antigamente os caixões eram reutilizados. Às vezes, os túmulos eram roubados para que pudessem ser reutilizados”, explicou.

"Durante os séculos 18 e 19 túmulos de múmias foram roubados e negociantes de antiguidades estavam substituindo corpos."

De acordo com Ejsmond, estima-se que cerca de 10% das múmias nas coleções do museu podem estar nos caixões errados.

A equipe, que está investigando uma coleção de cerca de 40 múmias humanas e de animais, agora espera colher micro amostras do corpo para estabelecer a causa da morte.

As descobertas foram publicadas no Journal of Archaeological Science.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)