Líbano aprofunda crise com negativa de Hariri para formar governo

Discordâncias entre Hariri, que já foi primeiro-ministro do país, e o presidente Michel Aoun teriam causado desistência de Hariri

Reuters
15 de julho de 2021 às 16:26 | Atualizado 16 de julho de 2021 às 00:26

 

O político libanês Saad al-Hariri abandonou nesta quinta-feira (15) seu esforço de meses para formar um novo governo no Líbano, afetando assim as chances de formação de um gabinete capaz de resgatar o país do colapso financeiro pelo qual passa atualmente. 

O anúncio de Hariri foi feito após um encontro com o presidente do Líbano, Michel Aoun. Segundo Hariri, ficou claro que ele e o presidente não conseguiriam chegar a um acordo, atingido por uma disputa política que tem bloqueado a formação de um governo mesmo com o Líbano afundando em crise. 

Hariri, um ex-primeiro-ministro e principal político muçulmano sunita do país, foi designado em outubro de 2020 para montar um governo após a renúncia do então primeiro-ministro Hassan Diab, ocorrida logo depois da explosão do porto de Beirute. 

A decisão de Hariri é o fim de um processo marcado por meses de conflitos por cargos no gabinete entre ele e o presidente Aoun, chefe de estado que é cristão maronita e aliado do Hezbollah. 

Hariri e Aoun culpam um ao outro pelo fracasso nas negociações. 

"Você não pode me pedir para fazer tudo o que eu posso e não querer sacrificar nada", disse Hariri a uma TV local horas depois de anunciar sua decisão. Segundo Hariri, Aoun insistiu em bloquear grupos minoritários em qualquer possível formação de gabinete, e esse teria sido o principal obstáculo das tratativas. 

Protestos e repercussão

Nesta quinta-feira, logo depois da desistência de Hariri ser anunciada, manifestantes bloquearam estradas próximas a áreas predominantemente sunitas de Beirute. Os bloqueios foram feitos com lixo e pneus, aos quais foi ateado fogo. 

Tropas do Exército foram chamadas para interromper os protestos. Os soldados teriam atirado no ar para tentar dispersar os manifestantes, mas foram recebidos com mísseis. Segundo uma fonte do governo, um soldado ficou ferido. 

O Ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, disse que os líderes libaneses pareciam incapazes de encontrar uma solução para crise criada por eles. Para o francês, o fracasso na tentativa de formar um novo gabinete é mais um terrível incidente a atingir o Líbano. 

O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit, disse que o anúncio de Hariri traria desdobramentos sérios. 

O Banco Mundial descreveu a depressão econômica do Líbano como uma das mais profundas da história moderna. A moeda do país perdeu 90% de seu valor em só dois anos. A pobreza se espalhou e tem havido falta de combustíveis, o que alimenta temores crescentes de agitação social. 

Saad Hariri desistiu de formar um novo gabinete por discordâncias com o presidente do Líbano, Michel Aoun
Foto: Marwan Naamani/Getty Images