Primeiro-ministro do Líbano renuncia após impasse na formação de governo

Mustapha Adib deixou o cargo depois de não conseguir superar divergências políticas; ele havia sido designado para formar novo gabinete no fim de agosto

Tamara Qiblawi, da CNN
26 de setembro de 2020 às 09:01 | Atualizado 26 de setembro de 2020 às 09:51
Mustapha Adib, designado premiê do Líbano no fim de agosto, renunciou após impasse político na formação de gabinete
Foto: Mohamed Azakir - 31.ago.2020/ Reuters

O primeiro-ministro designado do Líbano, Mustapha Adib, renunciou neste sábado (26) ao cargo depois de não conseguir superar um impasse político sobre a formação de um novo gabinete de governo.

Adib foi nomeado como parte de uma iniciativa diplomática do presidente francês Emmanuel Macron para intermediar uma resolução política no país e evitar o colapso do estado depois da explosão no porto de Beirute, em 4 de agosto.

Esse governo deveria supervisionar uma série de reformas que desbloqueariam as doações internacionais prometidas ao Líbano e abririam o caminho para uma conferência de ajuda que Macron disse que agendaria para o final de outubro.

Em entrevista ao site Politico em 1º de setembro, Macron disse que essa iniciativa marcaria a “última chance” da elite política de salvar o sistema político libanês.

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As reservas financeiras do Líbano estão se esgotando rapidamente enquanto o país enfrenta uma de suas piores crises financeiras em décadas. Em entrevista nesta semana, o presidente Michel Aoun disse que o país "iria para o inferno" se as negociações sobre a formação do governo fracassassem.

Ele levantou a possibilidade da falência total e disse que o principal obstáculo das negociações é o Hezbollah, apoiado pelo Irã, e a insistência de seu principal aliado xiita, o Movimento Amal, em nomear o próximo ministro das finanças.

Depois que Adib entregou sua renúncia no palácio presidencial neste sábado, Aoun disse que a iniciativa de Macron ainda estava "em andamento" e que ele permanecia comprometido.

Em uma declaração publicada no Twitter, o ex-primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, culpou pela falha das negociações o fato de o país "permanecendo refém de agendas estrangeiras", em referência ao apoio do Hezbollah pelo Irã. Hariri, que é apoiado pela Arábia Saudita, é um oponente interno do Hezbollah.

Homem joga objeto em protesto em Beirute, no Líbano, após explosão que deixou mortos, feridos e desabrigados na capital do país
Foto: Reprodução/CNN (10.ago.2020)

A elite governante do Líbano está imersa em um impasse político desde o final de outubro de 2019, quando uma revolta popular exigiu o fim do atual sistema de compartilhamento de poder confessional do país, culminando na queda do governo de Hariri.

Nos últimos 11 meses, a moeda do país perdeu cerca de 80% do seu valor, a pobreza aumentou para mais de 50% e a agitação nas ruas aumentou de forma expressiva. Uma explosão que destruiu parte da capital Beirute, em agosto, e deixou mais de 200 mortos aprofundou a crise no país e motivou o êxodo de jovens talentos.

“O Líbano precisa, desesperadamente de um novo governo porque sem isso o país não será capaz de receber a ajuda econômica internacional para resgatar o país da beira do abismo”, disse Lina Khatib, chefe do programa para o Oriente Médio e o Norte da África na Chatham House.

“Este deveria ser um imenso incentivo para os políticos libaneses tentarem chegar um compromisso para formar um novo gabinete de governo. Mas ainda assim eles continuam a priorizar seus próprios interesses em detrimento dos interesses nacionais”, completou Khatib.

“O país se encaminha para um cenário de falência do estado.”

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A iniciativa de Macron de reviver o processo político libanês teve algum sucesso em agosto. A elite governante rapidamente se reuniu para nomear Adib como o sucessor do primeiro-ministro interino Hassan Diab, cujo gabinete caiu após a explosão em Beirute.

Mas a formação ficou estagnada depois que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, impôs sanções a dois aliados importantes do Hezbollah no início deste mês, a primeira vez que os EUA penalizaram parceiros da coalizão.

O Hezbollah e o Movimento Amal – conhecidos localmente como o duo xiita – aumentaram suas demandas para o próximo governo, desafiando a tentativa de Washington de causar uma fissura nas alianças do grupo armado.

Este pequeno país no leste do Mediterrâneo também passa por um surto do novo coronavírus, com seu setor de saúde perto de "ficar sobrecarregado", de acordo com profissionais de saúde. O governo tem resistido até agora aos apelos por um novo lockdown, temendo mais problemas econômicos e protestos.

(Texto traduzido; leia o original em inglês)