“A ditadura continua”, diz à CNN dono do jornal El Nacional da Venezuela

Miguel Henrique Otero afirma que captura de Maduro não trouxe avanço democrático, nem liberdade de imprensa

Renan Fiuza, da CNN Brasil, De São Paulo
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Um mês após a captura do ditador Nicolás Maduro em uma operação conduzida pelos Estados Unidos, a Venezuela segue longe de uma transição democrática real. A avaliação é de Miguel Henrique Otero, presidente-diretor e proprietário do El Nacional, jornal venezuelano fundado em 1943, que foi duramente perseguido pelo regime chavista, teve suas instalações expropriadas e hoje sobrevive apenas no ambiente digital, tentando informar a população e driblar a censura.

“A saída de Maduro foi um fato importante, porque ele é a cabeça da cobra desse regime. Mas o regime continua praticamente intacto”, disse à CNN Brasil.

Para o dono do jornal, passados 30 dias da captura, a prisão não se traduziu em mudanças concretas nos pilares da democracia venezuelana. “Liberdade de expressão, regras do jogo, Estado de Direito: absolutamente nada disso mudou”, afirmou.

O jornalista define o sistema que governa a Venezuela há anos como uma “corporação criminosa que sequestrou um país”. Segundo ele, embora tenha havido comemoração inicial pela retirada de Maduro, o sentimento predominante hoje é de expectativa e frustração, já que o processo de transição política sequer começou.

Otero também relativiza a libertação de presos políticos anunciada após a captura de Maduro. De acordo com ele, menos de 20% dos detidos foram soltos, muitos em liberdade condicional, com restrições severas de deslocamento e sob constante ameaça de nova prisão. “É uma liberdade relativa".

Na avaliação do presidente do El Nacional, as forças repressivas seguem operando normalmente, incluindo órgãos de inteligência como a DGCIM e o Sebin, apontados por organizações internacionais como instrumentos centrais da repressão política no país.

Enquanto os Estados Unidos pressionam por uma transição tutelada e o governo interino tenta se consolidar, Otero resume à CNN Brasil o momento vivido pela Venezuela um mês após a queda de Maduro: o ex-presidente saiu de cena, mas o sistema que ele liderava continua de pé.

Liberdade de imprensa prejudicada

A crise política na Venezuela também se reflete em um cenário de asfixia quase total da liberdade de imprensa. “O jornal foi perseguido, teve suas instalações expropriadas e confiscadas. Mesmo depois de migrarmos para a internet, não conseguimos chegar aos venezuelanos porque somos bloqueados”, contou o dono do El Nacional.

De acordo com Otero, o bloqueio ocorre por determinação direta do órgão regulador estatal, que ordena às operadoras de telecomunicações que impeçam o acesso a sites considerados independentes. A censura, segundo ele, não se limita a veículos nacionais. “Páginas internacionais também são bloqueadas. Infobae, CNN — tudo pode ser censurado.”

O jornalista explica que rádios e canais de televisão operam sob forte controle estatal e que os poucos veículos que tentaram sobreviver no ambiente digital enfrentam bloqueios recorrentes, tornando a informação inacessível para grande parte da população.

Mesmo um mês após a captura de Nicolás Maduro, Otero afirma que não houve qualquer flexibilização na censura. As estruturas responsáveis pela repressão à imprensa continuam intactas, e jornalistas seguem atuando sob risco constante.

Diante desse cenário, parte da população recorre a VPNs e meios alternativos para acessar informações, mas o alcance ainda é limitado. Para Otero, a situação evidencia que a crise venezuelana vai além da troca de nomes no poder.

“A retirada de Maduro foi simbólica. Mas, enquanto o sistema de repressão continuar funcionando, a Venezuela seguirá sem imprensa livre — e sem democracia”, conclui.