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    Otan estende seus tentáculos para o Pacífico

    Aliança militar do Atlântico Norte amplia laços com o Japão, ampliando tensão com a China e elevando os riscos de confrontos em meio à questão da independência de Taiwan

    Militares norte-americanos e japoneses participam de exercício conjunto; países estreitam os laços para conter ascensão chinesa
    Militares norte-americanos e japoneses participam de exercício conjunto; países estreitam os laços para conter ascensão chinesa David MAREUIL/Anadolu Agency via Getty Images

    Fábio Mendesda CNN

    Os últimos anos foram de acirramento político-econômico entre dois grandes blocos de países: o chamado Ocidente (personificado nos Estados Unidos, Canadá e União Europeia) e a dupla China-Rússia. O avanço ganhou contornos dramáticos com a invasão da Ucrânia pelas forças armadas russas, mas também resvala na delicada questão de Taiwan.

    Um fato que trouxe novos elementos para essas disputas geopolíticas, que já vêm sendo chamadas por alguns de “nova Guerra Fria“, foi o anúncio de que o Japão pretende abrir um “escritório de ligação” com a Otan, a poderosa aliança militar encabeçada pelos Estados Unidos e países europeus. “Já estamos em discussões, mas nenhum detalhe foi finalizado ainda”, disse o ministro das Relações Exteriores japonês, Yoshimasa Hayashi, em maio.

    Caso se concretize, será a primeira vez que um escritório de ligação seria instalado na Ásia. Vale lembrar que Otan é a sigla para Organização do Tratado do Atlântico Norte. Ou seja, a aliança militar estenderia seus tentáculos para além da sua área de influência previamente determinada.

    Um estreitamento de relações entre a Otan e o Japão tem um alvo claro: a China, quem expandindo sua influência política, econômica e militar por todo o mundo. Nas últimas duas décadas, intensificou o financiamento em infraestrutura em diversos países em desenvolvimento na América Latina e Ásia, mas, principalmente na África. Também criou novos laços com os países insulares no pacífico, região que tem sido negligenciada pelos Estados Unidos nos últimos anos.

    Em paralelo, a China ampliou consideravelmente seu poderio bélico, incluindo sua carteira de ogivas nucleares. Elevou seu número de porta-aviões e também de caças, tanques e outros veículos. Hoje, é o segundo país com mais gastos anuais em defesa, atrás somente dos Estados Unidos.

    Essa influência econômica e militar tem animado cada vez mais a China a apertar o cerco contra Taiwan, país visto por Pequim como uma mera “província rebelde” desde 1949. Desde então os dois países lutam pela primazia de serem reconhecidos pelos demais países como a “única China”.

    Taiwan obteve o apoio da maior parte dos países até os anos 1970, quando uma reaproximação entre Estados Unidos e o governo chinês, como forma de isolar a União Soviética, fez com que a ilha perdesse este favoritismo. A “única China” passou a ser a de Pequim e não a de Taipé.

    O regime de Xi Jinping não descarta uma invasão militar caso a ilha declare oficialmente sua independência. Nos últimos anos, contudo, os Estados Unidos e Europa têm ampliado as parcerias comerciais com Taiwan, embora eles reconheçam oficialmente o regime de Pequim como a “única China”.

    Territórios em disputa

    Como se não bastasse, Pequim reivindica o controle sobre vários territórios banhados pelo chamado Mar do Sul da China, incluindo ilhas que hoje fazem parte do Japão. Esses e outros fatores transformam a região do Pacífico em uma panela de pressão que precisa ser manuseada com muito cuidado.

    “A China tem aumentado as forças navais próximas ao Japão e ela reivindica as Ilhas Senkaku, que é uma cadeia de ilhas desabitadas controladas pelos japoneses”, comenta o internacionalista Rodrigo Reis. “E o Japão, além de tudo, anunciou recentemente os planos para o seu maior reforço militar desde a Segunda Guerra Mundial”.

    Coreia do Norte testa lançamento de míssil balístico intercontinental; país é mais uma peça no complicado tabuleiro do Pacífico / 17/05/2023 KCNA via REUTERS

    Reis admite que a movimentação japonesa afeta a estabilidade na região, mas que é um reflexo claro da invasão da Ucrânia pela Rússia. “A guerra teve repercussões que foram muito além da fronteira na Europa, fazendo com que vários países repensem questões militares e de segurança”. Ele cita como exemplo o fato de Finlândia e a Suécia, países tradicionalmente neutros, buscarem adesão à Otan.

    Leonardo Leão, especialista em direito internacional, destaca outro país com participação importante na movimentação de peças neste tabuleiro. “É importante salientar que toda essa movimentação da Coréia do Norte com armas nucleares, além da China em ascensão na questão bélica, acabou fazendo com que o Japão retomasse seu programa militar, como não era visto desde a época da Segunda Guerra”.

    A realização intensa de exercícios militares no Pacífico por parte não só da China, Rússia e Coreia do Norte mas também dos países ocidentais fez com que o Japão precisasse tomar medidas mais efetivas no campo geopolítico. “O Japão está se posicionando na região e a forma que ele está fazendo isso é estando mais próximo da Otan, demonstrando que eles e a Coreia do Sul possuem aliados fortes no Ocidente”.

    Leão lembra ainda que a presença de Austrália e Nova Zelândia, países historicamente alinhados com o Ocidente, reforçam essa cadeia de proteção. “É mais uma questão de demonstração de força.”

    O analista não acredita, no entanto, em uma escalada de violência no mesmo contexto do que acontece hoje na Europa, em que a Rússia respondeu com uma invasão à aproximação da Ucrânia com a Otan e a União Europeia. “Hoje, em que pese a animosidade histórica entre Japão e China, é uma região muito mais estável política e diplomaticamente que a relação que existia entre a Rússia e a Ucrânia”.