Acordo de Paris completa cinco anos em meio a pressões crescentes

Temperatura terrestre já subiu 1,2 ºC e está encaminhada para chegar a 3ºC até o fim do século

Área desmatada na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará
Área desmatada na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará Foto: Amanda Perobelli/Reuters (11.set.2019)

Reuters

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Cinco anos atrás, quando o Acordo de Paris para enfrentar a mudança climática foi adotado, as reservas de carbono em ecossistemas como florestas tropicais, áreas úmidas e mangues costeiros não eram vistas como parte importante da solução.

Atualmente, autoridades e ambientalistas dizem que os objetivos para limitar o aumento de temperatura global não podem ser alcançados sem a ajuda da natureza.

Antes da Cúpula da Ambição Climática das Nações Unidas para marcar o quinto aniversário do Acordo de Paris neste sábado (12), que será online devido à pandemia da Covid-19, eles disseram que as ameaças a plantas, à vida selvagem, à vida humana e ao clima devem ser combatidas em conjunto. 

“É hora que a natureza tenha um papel mais proeminente nas discussões e soluções para o clima”, disse Brian O’Donnel, diretor da Campanha Pela Natureza, que trabalha com cientistas, indígenas e grupos conservacionistas. 

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“Os líderes globais não podem mais lidar com as crises do clima e da biodiversidade sozinhos se queremos ser bem-sucedidos na resposta a elas”, acrescentou ele em comunicado. 

Foi observado que cientistas estimam que proteger os ecossistemas do planeta poderia prover até um terço da redução de emissões de gases necessárias até 2030 para atingir a meta do pacto de Paris. 

Sob o acordo, quase 200 países concordaram em limitar o aumento médio da temperatura global para menos de 2ºC (idealmente para 1,5ºC) acima do que era nos tempos pré-industriais.

Mas a Terra já aqueceu cerca de 1,2ºC e está encaminhada para chegar a 3ºC no fim deste século, disse a ONU nesta semana. 

Foi acelerado nos últimos anos o entendimento do papel crucial dos ecossistemas terrestres e marítimos sobre a absorção do carbono emitido pelas atividades humanas —principalmente ao queimar combustíveis fósseis —e para moderar um aquecimento planetário possivelmente catastrófico. 

Em 2019, um relatório de ciência climática da ONU disse que a maneira que o mundo usa a terra, e como a comida é produzida e consumida, teria que mudar para frear o aquecimento global —ou a segurança alimentar, saúde e biodiversidade estariam em risco. 

Zac Goldsmith, o ministro britânico do Clima e Meio Ambiente Internacionais, disse que a natureza foi “deixada para trás” e que a vida no planeta estava sendo exaurida em “velocidade aterrorizante”, com o desmatamento das florestas e a poluição dos mares.

“Estamos desnudando o mundo numa taxa que seria impossível para os humanos há um século”, disse ele à Thomson Reuters Foundation. 

“Não é possível que nós enfrentemos a mudança climática da maneira correta a não ser que também restauremos a natureza —os dois são inseparáveis”, acrescentou. 

Cadeias de fornecimento

Como anfritrião da próxima grande negociação climática da ONU, em novembro de 2021, em Glasgow, o governo britânico promteu colocar a proteção às florestas e sistemas naturais na ordem do dia da política.

Goldsmith disse que a equipe da COP26 almeja construir uma coalizão global de governos e negócios comprometidos em prevenir o desflorestamento nas cadeias de fornecimento.

Isso segue um novo projeto de lei no Reino Unido que requer que as empresas se certifiquem que os commodities usados —como cacau, borracha, soja e óleo de palma —não sejam provenientes de desmatamento ilegal. 

Os britânicos também pressionarão para que os países encerrem progressivamente os subsídios anuais próximos de US$ 700 bilhões para usos da terra que danificam o meio ambiente e degradam o solo, como a agricultura intensiva, acrescentou. 

Esse dinheiro poderia ser redirecionado para iniciativas que resguardam os ecossistemas —algo profundamente necessário uma vez que menos de 3% do financiamento governamental e de bancos de desenvolvimento para o clima internacional é gasto para este propósito, disse Goldsmith. 

Os mercados financeiros, enquanto isso, ainda não reconheceram o valor da natureza ou o custo real de sua destruição. 

“Esse é um fracasso gigante”, completou. 

Gigaton verde

Autoridades da ONU estão trabalhando em uma nova iniciativa em larga escala para canalizar pagamentos para países tropicais e jurisdições menores que armazenam carbono em florestas tropicais para começar a reverter esse problema até a COP26. 

No mês passado, eles lançaram o “Desafio do Gigaton Verde”, que almeja catalisar financiamento para reduzir em até 1 bilhão de toneladas as emissões até 2025 para florestas de regiões como a Amazônia e a Bacia do Congo. 

Fazer isso cortaria emissões esquivalentes a retirar 80% dos carros das estradas dos Estados Unidos, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep).

Tim Christophersen, diretor da natureza pelo clima da Unep, disse que a iniciativa foi incentivada pelo aumento no interesse das empresas na proteção das florestas, com um número crescente de grandes companhias se comprometendo a cortar emissões de carbono a zero até a metade do século ou antes. 

Isso significa que empresas como Microsoft, Salesforce e Disney precisam equilibrar as emissões que não conseguem eliminar ao pagar para reduzi-las em outros lugares, através de projetos como os de restauração de florestas desmatadas. 

Sob o desafio do gigaton, governos doadores investirão dinheiro público para estabelecer um valor mínimo pela tonelada de reserva de carbono —que poderia ser de US$ 10 a US$ 15 —, um esforço para recompensar iniciativas bem-sucedidas de proteção da natureza que as empresas, eventualmente, pagarão ainda mais para apoiar. 

Países como Costa Rica e Chile demonstraram interesse em participar, mas acordos ainda tem de ser negociados entre os governos de países florestais e o setor privado. 

Ao longo da última década, as agências das Nações Unidas trabalharam para desenvolver a base para um mercado robusto de compensação de carbono florestal —mas sem regras internacionais firmes, os preços do carbono não subiram o suficiente para serem um incentivo para manter as árvores de pé. 

“Há necessidade que os países tenham alguma recompensa pelos resultados” em um valor que torna a proteção das florestas viável financeiramente, disse Gabriel Labbate, líder da equipe da Unep para reduzir emissões do desflorestamento e degradação das florestas (chamada de Redd+).

As Nações Unidas e outras organizações ainda esperam que os governos resolvam suas diferenças sobre um sistema que use créditos de carbono para atingir a redução das emissões propostas pelo Acordo de Paris. 

Christophersen alertou que as empresas —especialmente as da indústria de combustível e gás— não devem enxergar o apoio à proteção das florestas como uma alternativa a cortar as próprias emissões. 

“A natureza não substitui a necessidade de redução de emissões em outras áreas, em particular a dos combustíveis fósseis”, disse. 

 

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