Análise: Agências de espionagem usam inteligência como arma na tentativa de minar Putin

Segundo analista, divulgação de informações sobre táticas russas permite que os EUA conduzam a narrativa da guerra — o que enfraquece Putin e seus assessores

Presidente da Rússia, Vladimir Putin
Presidente da Rússia, Vladimir Putin 25/03/2022 Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via REUTERS

Stephen Collinsonda CNN*

Ouvir notícia

As agências de inteligência ocidentais estão travando uma guerra psicológica sobre a Ucrânia diretamente com o presidente russo, Vladimir Putin, que é um especialista no gênero, agora está efetivamente provando do próprio veneno.

Os Estados Unidos e seus aliados estão pintando um quadro de militares russos atolados, desmoralizados e disfuncionais, sofrendo perdas desastrosas no campo de batalha e, simultaneamente, evocando uma visão de crescente tensão política dentro do Kremlin. Eles afirmam que o líder russo está isolado, mal assessorado e sem informações reais sobre o quão ruim a guerra está indo.

Os governos ocidentais estão impedindo Putin de definir a narrativa da guerra – assim como fizeram antes de ela começar, quando sua inteligência tornada pública alertou corretamente sobre a invasão que muitos especialistas em geopolítica achavam improvável.

É uma posição difícil para um líder russo que frequentemente implantou a guerra de informação, principalmente quando se intrometeu nas eleições americanas e europeias. Os detalhes notáveis das avaliações da inteligência também devem ser especialmente irritantes para Putin, ex-oficial da KGB e chefe de inteligência.

 

E eles deixam em aberto a possibilidade de que as agências de inteligência ocidentais tenham a capacidade de ver profundamente o esforço de guerra e a política interna do Kremlin, o que provavelmente enfurecerá o líder russo e poderá abrir mais brechas em seu regime.

A disposição dos governos ocidentais de serem tão abertos sobre o que estão vendo na Ucrânia e em Moscou surpreendeu até mesmo alguns espiões veteranos.

“Isso deixa os profissionais de inteligência, mesmo antigos como eu, nervosos, porque, é claro, está tão arraigado em nós proteger fontes e métodos”, disse Steve Hall, ex-chefe de operações da CIA na Rússia, à Ana Cabrera, da CNN, na quinta-feira (31).

Parte da intriga sobre o confronto dos EUA com Putin e o ângulo da inteligência está sendo alimentado pela natureza da própria comunidade secreta. Pessoas de fora não têm como avaliar de forma independente a precisão total das informações que estão sendo colocadas à vista do público por seus líderes. Portanto, não sabemos de onde tudo está vindo ou de quem. Mas é claro, esse é o ponto, e está mantendo os russos tentando adivinhar também.

 

A tentativa de retratar a guerra na Ucrânia como um desastre para a Rússia ocorre em um momento em que as autoridades ocidentais estão descartando as alegações de que Moscou esteja diminuindo o conflito em Kiev e em outros lugares. Em vez disso, dizem eles, as forças de Putin estão se “reposicionando” – possivelmente para um ataque intensificado nas regiões do leste da Ucrânia, onde Moscou vem atacando civis e arrasando cidades. Tal tática poderia ser projetada para unir áreas controladas pela Rússia com a Crimeia, que Putin tomou em 2014, e dar a Moscou um corredor direto para o Mar Negro através da Ucrânia.

A história interna da guerra

Nos últimos dias, autoridades ocidentais esboçaram um retrato notável da guerra.

Na Austrália, na segunda-feira (28), um dos principais chefes de espionagem da Grã-Bretanha, Jeremy Fleming, disse que Putin “julgou mal” a guerra, a resistência do povo ucraniano e a capacidade de seus próprios militares, e foi mal servido por seus subordinados.

“Vimos soldados russos, com falta de armas e moral, recusando-se a cumprir ordens, sabotando seu próprio equipamento e até mesmo atirando e derrubando acidentalmente sua própria aeronave”, disse Fleming, que dirige o GCHQ (na sigla em inglês), o equivalente do Reino Unido à Agência de Segurança Nacional. A franqueza de Fleming era extraordinária vinda de um chefe de agência de espionagem.

Mas isso está sendo espelhado nos Estados Unidos, onde houve novos relatos na quarta-feira (30) que abriram uma janela para a guerra e o círculo íntimo de Putin.

Uma autoridade disse a Jeremy Diamond, da CNN, que Putin está sendo “mal informado” por assessores sobre o desempenho ruim dos militares russos e o impacto das sanções na economia russa.

A diretora de comunicações da Casa Branca, Kate Bedingfield, disse diante das câmeras que os conselheiros do líder russo estavam “com muito medo de lhe contar a verdade”. Ela disse que agora há uma “tensão persistente” entre Putin e sua liderança militar.

Na quarta-feira esse novo fluxo de avaliações não mais secretas ganhou manchetes. Na quinta-feira (31), o presidente Joe Biden foi questionado sobre elas em um local público, como as autoridades presumivelmente sabiam que aconteceria. A sequência deu ao presidente a chance de ampliar ainda mais a narrativa norte-americana.

“Há muita especulação”, disse Biden, embora, é claro, essa especulação tenha sido impulsionada por informações que a Casa Branca permitiu que fossem de domínio público. Questionado sobre o quanto Putin estava sendo mal informado por seus assessores, Biden respondeu: “Não estou dizendo isso com certeza — ele parece estar se isolando, e há alguma indicação de que ele demitiu ou colocou em prisão domiciliar alguns de seus conselheiros”.

Embora Biden tenha dito que os EUA não tinham tantas evidências concretas, seus comentários desencadearam uma nova torrente de atenção sobre a situação atual de Putin.

Então, o que exatamente os governos ocidentais estão tentando fazer com esse novo uso de avaliações de inteligência tornadas públicas? Especialmente considerando que em muitas crises geopolíticas anteriores, a inteligência foi mantida em segredo por rotina?

Tal como aconteceu com as mensagens pré-invasão, está claro que os EUA não querem que os russos sejam capazes de criar uma narrativa dominante sobre a guerra por meio da desinformação.

Criar uma imagem de uma guerra fracassada também ajuda a manter o apoio à dura posição ocidental contra Putin. Também pode melhorar o estado de espírito entre os ucranianos que estão resistindo ao ataque da Rússia. E dá aos líderes ocidentais uma abertura política para argumentar que suas políticas estão funcionando enquanto administram a opinião pública sobre a guerra.

Ao fornecer uma visão da desordem entre as tropas russas, os aliados podem ser capazes de aumentar a pressão política interna sobre o Kremlin.

Dado o esmagamento da mídia independente pelo governo de Moscou, haverá poucas ilusões de que o povo russo ouvirá a versão americana dos eventos, embora os russos mais jovens conhecedores de tecnologia com senhas de VPN que permitem acesso a serviços de Internet estrangeiros talvez possam ouvir.

Mas uma sequência de golpes de humilhação para a Rússia poderia semear ainda mais a discórdia dentro das elites militares, políticas e de inteligência.

Nos últimos dias, quase parecia que as autoridades ocidentais, ao discutir a situação na guerra tão abertamente, estavam tentando se dirigir diretamente a Putin e seus assessores.

Complicações de uma estratégia orientada por inteligência

É improvável que o fluxo de inteligência seque tão cedo. Isso porque parece estar enraizado em um problema de disposição de ânimo dentro das forças armadas russas, que se tornou óbvio graças à espionagem.

“Eles estão pegando seus telefones celulares e tentando se comunicar uns com os outros, tanto taticamente, ‘Onde está você? Onde está sua unidade?’ e talvez também com Moscou. Isso facilita muito a coleta”, disse Hall.

“E então, é uma decisão política interessante dizer, veja, talvez valha a pena mostrar aos russos como somos bons em coletar isso, a fim de divulgar aos cidadãos de ambos os países, cidadãos do mundo, o que está realmente acontecendo nas forças armadas russas agora”, acrescentou Hall.

“É uma decisão interessante, mas tem sido muito esclarecedora”.

Ainda assim, há motivos para cautela ao interpretar a guerra apenas com base nas avaliações tornadas públicas pelo Ocidente.

Inteligência, por definição, é um negócio obscuro. As informações sobre as operações russas na Ucrânia e o aparente isolamento de Putin em Moscou apenas dizem ao mundo exterior o que os serviços de inteligência ocidentais querem divulgar. Portanto, não há como as pessoas de fora saberem se esses retratos fornecem o quadro completo ou um mais seletivo.

E as informações que são filtradas ainda são limitadas. Uma autoridade citada por Diamond e Kevin Liptak, da CNN, na quarta-feira (30), se recusou a fornecer detalhes adicionais sobre Putin ter sido mal informado por seus assessores além do que foi relatado. A comunidade de inteligência tornou pública e rebaixou um resumo de suas descobertas, mas não o material em si.

Como sempre, as agências de inteligência estão tomando medidas árduas para evitar identificar suas fontes e os métodos que foram usados para coletar a informação.

Por várias vezes na história americana recente, as avaliações de inteligência dos Estados Unidos provaram ser falhas como, por exemplo, antes da invasão do Iraque pelos EUA, em 2003. Nesta crise, no entanto, a comunidade secreta consertou parte de sua reputação. Durante semanas, os EUA alertaram que Putin estava se preparando para enviar suas forças através da fronteira ucraniana. Até os ucranianos estavam céticos.

Então, horas antes de a invasão realmente acontecer, os EUA emitiram um aviso de que a incursão era iminente – e isso se provou correto.

Ainda assim, os problemas encontrados pela força invasora russa surpreenderam as agências de inteligência ocidentais e provocaram uma reavaliação das suposições sobre o suposto poder das forças militares e liderança russas.

O chefe do Comando Europeu dos Estados Unidos, general Tod Wolters, disse em uma audiência no Senado nesta semana que pode haver uma lacuna de inteligência que levou os EUA a superestimar a força da Rússia e subestimar as defesas ucranianas.

Mas mesmo esse descuido apenas ressalta o desempenho surpreendentemente ruim das forças russas e chama a atenção para isso, avançando ainda mais os objetivos do Ocidente.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

versão original

Mais Recentes da CNN